EM BUSCA DE OUTRO REINO

 

DESFECHO ESPERADO

Isabel teve um momento de conversão. Mas foi só um momento mesmo, não durou muito tempo, pois espiritualmente ela se revelou uma mulher fraca, e por isso, o ciúme voltou a lhe corroer as entranhas, vendo crescer de maneira vertiginosa o prestígio de Beatriz, e assim, na sua tibieza interior, sentiu o aumento do perigo de existir a rivalidade, que segundo o seu raciocínio doentio, permanecia presente e ativa. E por essa razão, convidou Beatriz a deixar a corte de Tordesilhas, por que no entender dela, que era a Rainha, a presença daquela primeira dama, tornara-se incomoda. Aliás, Beatriz por sua vez, desde longa data já almejava e cultivava esta mesma intenção de deixar a corte, apenas esperava a oportunidade certa. E assim, três dias depois de ter abandonado a urna, viu no convite da Rainha a oportunidade que ela aguardava. Com decisão abandonou a corte e buscou uma cidade mais ao sul, alcançando a sua verdadeira liberdade.

 

BUSCANDO NOVO CAMINHO

O palácio de Tordesilhas ainda não havia se recuperado do milagre acontecido com Beatriz, com a veemente e inconfundível manifestação Divina, e agora explode outra tremenda novidade: a primeira dama da corte, a mulher mais bela de Castela, aquela que teve a sua vida milagrosamente salva pela Vontade de DEUS, resolveu definitivamente abandonar a corte e partiu para a localidade de Toledo. O burburinho foi geral e os comentários se multiplicaram.

A estrada entre Tordesilhas e Toledo era um caminho com 230 quilômetros que foi percorrido a cavalo. Era repleto de dificuldades, com muitos acidentes geográficos, além de bandidos armados e salteadores que rondavam em diversos trechos do caminho, que colocava em risco a vida de todos que por ali demandassem. Mas, em vista do que lhe acabara de acontecer e movida pelo que a SANTÍSSIMA VIRGEM MARIA sem falar, LHE pediu para realizar através de uma forte inspiração Divina, ela não se deteve em conjecturas e nem com temores, mas se lançou corajosamente neste novo caminho, cheia de confiança.

E foi justamente nesta estrada para Toledo que a tradição descreve o acontecimento de um novo fato que veio fortificar as suas intenções e firmar os seus propósitos na fundação de uma Ordem Religiosa feminina. A comitiva de Beatriz era pequena, tinha duas donzelas que lhe serviam de companhia, alguns escudeiros e provavelmente o tio dela que frequentava a corte. Eles seguiam normalmente a viagem, quando a certa altura, passando ao lado de um bosque, saíram do seu interior dois Franciscanos bem caracterizados: trajando o hábito da Ordem, com capuz na cor marrom, cordão branco cingindo a cintura, e com sandálias nos pés, os quais, fizeram um aceno com as mãos para que a comitiva parasse. Os Franciscanos eram bem familiares a Beatriz, desde os tempos de Campo Maior, pois foi com eles que aprendeu o Catecismo e conheceu as glórias de NOSSA SENHORA. Entretanto, em face de tantos acontecimentos recentes que muito mexeram com seus sentimentos, e se encontrando naquele momento em paragens completamente desertas, sentiu uma forte suspeita pelo inusitado acontecimento. Interrogou firme, os dois Franciscanos:

- “Quem são vocês? De onde vêm? E o que desejam?”

- “Não tenha medo, nobre Dama. Trazemos apenas pensamentos de paz. Não somos mensageiros de morte, mas de vida”.

Observando que ela ainda estava um pouco perturbada, um dos Frades, aquele que parecia ser um português, lhe disse:

- “Por favor, fique tranquila. Queremos lhe comunicar a boa notícia de que a Senhora está na eminência de se tornar uma das maiores Damas da Espanha. E as suas Filhas espalhar-se-ão por toda a Terra”.

- “Impossível isto acontecer. Ainda que o Imperador me pedisse a mão em casamento, não aceitarei, por que já me entreguei inteiramente a JESUS CRISTO, pelo voto de castidade perpétua”.

- “Senhora”... (esclareceu o Frade) “Eu estou falando de uma Maternidade Espiritual”.

Houve então, a natural descontração, e assim continuaram conversando enquanto seguiam o caminho. Aproximando-se de um albergue, Beatriz convidou os dois Frades a participarem da refeição com ela. Entretanto, misteriosamente eles desapareceram. E nela ficou a convicção de que os dois Frades eram o Seráfico São Francisco de Assis, fundador da Ordem Franciscana, e o patrício português, Santo Antonio de Lisboa.

 

CHEGADA A TOLEDO

Continuando na penosa viagem, finalmente chegou a Toledo, que era o seu destino. Cidade antiga que evoca as glórias do passado, na terrível luta contra os invasores mouros, situada ao sul de Madri e junto ao rio Tejo.

Dentre os Mosteiros existentes destacava-se o das Monjas Dominicanas, denominado de “Santo Domingo, el Real”, que naquela época, por coincidência, era dirigido pela Priora Catarina, tia do Rei João de Castela, esposo da terrível Rainha Isabel, da corte de Tordesilhas, de onde ela tinha vindo.

Mas, Beatriz não conhecia este detalhe importante. Ela chegou às portas do Mosteiro, cansada de uma longa viagem, e de certo modo, interiormente ainda sentia com plena força, as falsidades do mundo. Por isso, ao chegar ao famoso Mosteiro, desejou sepultar totalmente o seu passado, que tanto amargor havia derramado em sua alma. Queria um ambiente de silêncio, de trabalho dedicado, assim como, que lhe propiciasse um tempo necessário à contemplação e as orações. Queria afinal, um ambiente onde a sua alma se sentisse liberta e pudesse procurar DEUS com toda a força do seu coração.

Como dissemos, Beatriz não sabia das ligações com a corte de Tordesilhas, mas, as Monjas do Mosteiro de Santo Domingo, el Real, já conheciam toda a história e os fatos ocorridos em Castela. Por isso mesmo, em face das relações do Mosteiro com a Casa reinante da Espanha, todas as coisas foram comentadas e antecipadamente preparadas no Mosteiro de Toledo. De modo que quando ela chegou, com sua comitiva, a Comunidade de Santo Domingo sabia que se tratava de Dona Beatriz da Silva e Menezes, ex-primeira dama de honra da Rainha Isabel de Castela, e a receberam muito bem.

Mas Beatriz, todavia, não fez uso da sua nobreza e dos seus títulos. Estava com a idade em torno de 26 anos e decidida, a encerrar o seu passado com sua formosura e juventude. Entrando no Mosteiro, de início não se alistou como religiosa. Ali permaneceu como uma pensionista, embora de forma especial, por que apesar de não estar presa a Comunidade por compromissos canônicos, prometeu desde o instante inicial, obediência à Priora, e em tudo, procurava se conformar com o Regulamento da Comunidade, sem buscar privilégios e exceções. Por isso, ela quis, a exemplo das demais religiosas, uma cela simples e pobre, sem os confortos e os luxos que sua posição lhe havia conferido no palácio. Na verdade, Beatriz sempre procurou uma vida austera e pobre. Não sendo religiosa de votos, podia dispor dos seus bens familiares e daquelas que lhe cabiam em função de seu estado de nobreza. Deles, no entanto, usava o menos possível, para que sobrasse mais para ajudar aos que trabalhavam nas dependências do Mosteiro, assim como socorrer aqueles que buscavam a caridade, na portaria do mesmo. Também, nada de servas e de criadas que todo o momento lhe vinha satisfazer os caprichos, mas ela mesma fazia questão de ser serva de todas, especialmente das enfermas, na humilde simplicidade de quem se sentia enviada “Daquela” que se declarara a “Serva do SENHOR” . Beatriz apenas tinha as duas companheiras que chegaram com ela, das quais, uma se chamava Maria de Saavedra, e que partilhavam de seus mesmos ideais e fervor.

Com o mesmo espírito de fazer uma necessária separação entre o claustro que vivia e o mundo, não lhe pareceu que somente os muros e as grades do Mosteiro eram suficientes. E por isso, pediu autorização a Superiora para também velar o seu rosto. Cobriu-o com um véu branco. Na verdade, as demais religiosas assim procediam, em determinadas oportunidades, sobretudo, quando na presença de estranhos. Ela, todavia, quis andar sempre com o rosto velado. E até a morte usou aquele véu, que apenas em raras exceções foi levantado.

Assim viveu Beatriz, em completo silencio e em total anonimato. À medida que os anos passavam também o esquecimento inundava a corte de Tordesilhas, ocultando definitivamente o abominável ciúme da Rainha e o gesto daquela mais formosa primeira dama, que trocou a evidência e o brilho nos salões da corte, pelo silêncio e o anonimato no claustro do Mosteiro.

Embora o tempo seguisse a sua trajetória histórica, cada dia que passava, mais amadurecia no coração de Beatriz a realidade de que ela tinha sido chamada por DEUS. A lembrança daquela forte inspiração Divina adormecia tranquilamente no fundo da sua alma. Ignorava como e quando seria realizada a missão que lhe estava reservada. Apenas deixava a sua alma nas mãos de DEUS, e esperava. Passou mais de trinta anos no Mosteiro de Santo Domingo, sem fazer algo concreto e direto em relação à missão que a aguardava. Alguém até poderá dizer que ela estava perdendo o seu tempo. Mas não é assim. As obras de DEUS são silenciosas, quanto maior a obra, mais denso é o silêncio que a envolve. A obra de Beatriz teve esta sólida fundamentação: silêncio com espera confiante (uma fé imensa), oração construtiva e escuta amorosa de DEUS. Com base tão sólida, na hora certa, DEUS completará os Divinos desígnios.

 

A VOZ DIVINA SE FAZ OUVIR

Haviam decorrido quatro anos da partida de Beatriz da corte de Tordesilhas, quando faleceu o Rei Dom João. A dor da Rainha Isabel foi profunda e a deixou totalmente inconsolável. Precisava reagir, mas sentia um imenso remorso corroer o seu espírito, lembrando-se do seu ciúme doentio que a levou arquitetar um plano diabólico para matar Beatriz. Agora tinha a certeza da inocência da sua primeira dama, assim como, se lembrava de seus sábios conselhos em momentos difíceis que ocorriam na corte. E por tudo isto, extremamente arrependida, sentiu falta de Beatriz, sua alma tranquila e caridosa, sempre acendia uma luz que iluminava o raciocínio, fazia desabrochar idéias que muito lhe socorreram na necessidade. Lembrou-se, sobretudo, que apesar de tantas coisas boas, a sua primeira dama e prima de família, não estava mais na corte. Os fatos tristes aconteceram. Mas Isabel, apesar de tudo, conhecia o coração da sua parenta. Por isso pensou em buscá-la no seu recolhimento em Toledo.

Com um cortejo luzidio, percorreu o mesmo trajeto em direção ao sul, e chegando ao Mosteiro de Santo Domingo, mandou chamar Beatriz. Ela não se recusou e foi ao encontro da Rainha, sem qualquer ressentimento. Não apenas ouviu os dizeres de Isabel, mas por ordem da Priora do Mosteiro, ergueu o véu que lhe cobria o rosto e deixou-se contemplar pela visitante, que pelo seu lado, não temia mais aquela beleza admirável, mas ao contrário, a contemplava embevecida, pois parecia que o mistério de DEUS tornara a sua face ainda mais deslumbrante e até sobrenatural.

Na verdade, Beatriz nunca viu a Rainha como sendo uma inimiga horrorosa, uma antiga rival. Via na Rainha Isabel uma mulher coberta de luto, repleta de dor e necessitada de consolo. E mais, via ao seu lado os dois filhos, Dom Afonso e a filha Infanta Isabel (que tinha o mesmo nome da mãe), esta menina, anos mais tarde, tornou-se a poderosa Rainha Isabel, a Católica, que acabou de expulsar os mouros da Europa e deu as suas preciosas jóias para Cristóvão Colombo vender e ter dinheiro para montar a esquadra naval que descobriu a América.

A dor tem uma função purificadora. E por isso mesmo, sem dúvida, em muitas outras ocasiões a Rainha Isabel deve ter recorrido aos sábios conselhos da sua prima Beatriz, e também, o mesmo fazendo a filha da Rainha, ou seja, a jovem Infanta Isabel, que na continuidade dos anos se preparou para ascender a um dos mais importantes tronos da Europa, que era o trono da Espanha. Assim, enquanto Beatriz continuava reclusa no Mosteiro de Santo Domingo, a Infanta Isabel, ascendeu ao trono da Espanha, tornando-se a famosa Rainha Católica, substituindo a mãe dela, a viúva Isabel. E mesmo assim, continuou a frequentar o Mosteiro de Santo Domingo, pois os conselhos de Beatriz eram orientações brilhantes e preciosas, que emanavam da Luz de DEUS e derramavam repletas de sabedoria em seu coração. Pois ela sabia, que Beatriz passava longas horas junto ao Sacrário do SENHOR, falando com DEUS e no silêncio da oração, ouvia a expressão maior da Vontade Divina.

 

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