ORDEM CONCEPCIONISTA * MORTE DE BEATRIZ

 

 

O SORRISO DA MÃE

E também nestas ocasiões, quando Beatriz se encontrava imersa em orações, a VIRGEM SANTÍSSIMA, voltou a se manifestar. A alegria de Beatriz era simplesmente incomensurável. Sentia-se envolta numa imensa luminosidade, igual aquela mesma luminosidade que brilhou, quando estava presa na arca em Tordesilhas. No meio daquela imensa luz, ela viu a MÃE DE DEUS, com a mesma veste, linda e sorridente e com o MENINO JESUS nos braços. Depois de um pequeno momento de silêncio NOSSA SENHORA lhe disse:

- “Filha, é chegado o momento. Ergue-te e põe em execução a obra que te foi confiada. Vai e glorifica a Minha IMACULADA CONCEIÇÃO. Meu FILHO e EU estaremos contigo”.

Foi assim que Beatriz recebeu o sinal Divino para empreender a grande missão da sua vida. E de imediato, começou a se organizar interiormente e a projetar a sequência de providências necessárias, objetivando cumprir o desígnio de DEUS. No locutório, nas conversas que frequentemente mantinha com Dona Isabel, a Católica, que sempre vinha buscar conselhos com ela, Beatriz passou a expor a Rainha os seus planos e projetos, realçando, sobretudo, as suas hesitações e dificuldades iniciais. Isabel compreendeu as suas palavras e prometeu ajudá-la em tudo. Parecia até querer reparar, ainda que fosse em parte, a injustiça cometida por sua mãe contra a primeira dama Beatriz.

A primeira dificuldade que logo despontou, referia-se ao local onde Beatriz e suas companheiras pudessem dar início à fundação. E Isabel logo se prontificou em solucionar esta dificuldade ali mesmo em Toledo. Nos tempos em que os mouros dominavam toda aquela região e governavam a cidade, ergueram uma série de construções às margens do Rio Tejo, que eram denominadas palácios de Galiana, em honra a uma lendária e formosa princesa. Parte destes palácios estava desativada e a Rainha Isabel cedeu-os a Beatriz, inclusive com uma Igreja dedicada a Virgem Mártir de Santa Fé, que estava anexa.

Corria o ano de 1484. Com fé, coragem e muita disposição, Beatriz com doze companheiras, deixou o Mosteiro de Santo Domingo, el Real, e se transferiu para a nova residência em Santa Fé. Entre as companheiras estava a sua sobrinha, Dona Felipa da Silva. Este ano ficou sendo considerado como o marco da fundação da Ordem. Todavia, ainda foram necessários diversos anos de muitas buscas e providências, até que a Ordem Religiosa ficasse totalmente legalizada.

E assim, com plena disposição, Beatriz iniciou as reformas materiais no sentido de atender as necessidades para o normal funcionamento do Mosteiro. De modo fraterno e decidido, a Rainha Dona Isabel mantinha-se presente a todo o momento, ajudando em todas as obras e realizando as providências necessárias a constituição da Ordem Religiosa.

Também no vestuário, buscaram sinalizar a finalidade da nova fundação: honrar a IMACULADA CONCEIÇÃO DE NOSSA SENHORA. Por essa razão, vestiam um hábito branco e um escapulário da mesma cor, cobrindo-se com um manto azul. No escapulário à altura do peito e também no manto, no ombro lado direito, estava gravado a imagem da IMACULADA, como se quisesse dizer que deveriam reproduzir a VIRGEM MARIA, no interior e exterior das suas vidas.

 

APROVAÇÃO DA ORDEM RELIGIOSA

Também cuidaram as novas religiosas de conseguir a aprovação da Igreja. Com este objetivo, Beatriz e a Rainha Isabel, a Católica, recorreram ao Papa Inocêncio VIII (1484-1492). Isto porque, somente após a aprovação oficial, poderiam novas jovens entrar no grupo.

Finalmente em 30 de Abril de 1489, o Sumo Pontífice, aprovou a Ordem Concepcionista, através de uma bula conhecida pelo nome: “Bula Inter Universa”.

A respeito desta bula, a tradição narra um episódio que realça a delicadeza do SENHOR DEUS para com Beatriz. Conta-se, que no mesmo dia em que a bula era assinada no Vaticano, em Roma, Beatriz estava no locutório do Mosteiro, relacionando providências com seu mordomo, a respeito de serviços necessários. Neste mesmo momento, apresentou-se um senhor querendo falar com Dona Beatriz. Logo que ela se apresentou, ele foi dizendo sem preâmbulos:

- “Venho de Roma, e trago à senhora uma grata notícia. O Papa acabou de assinar a Bula de aprovação da Ordem Concepcionista. A Bula já foi expedida e os mensageiros já se encontram a caminho de Toledo, em viagem marítima”.

Beatriz agradeceu e foi chamar o mordomo que estava na outra sala para cuidar do forasteiro que trouxe tão agradável notícia. O mordomo atendendo o chamado, cheio de espanto, declarou não ter notado a presença de ninguém estranho no locutório. Beatriz sorriu cheia de felicidade. Na nascente comunidade ficou firme a crença de que quem esteve ali foi o Arcanjo São Rafael, de quem Beatriz era muito devota. Esta convicção permanece alegremente na Ordem Religiosa na sucessão de todas as gerações, até os nossos dias.

Pela Bula Papal, Beatriz como Superiora da Ordem Religiosa, também recebeu a dignidade de Abadessa, que lhe permite a elaboração de estatutos e ordenações, dentro dos cânones do direito e sob a orientação do Bispo. Todavia em face das disposições eclesiásticas já em vigor na Igreja, a Santa Sé não aprovou a Regra apresentada. A Fundadora deveria escolher uma Regra entre as Regras que já vigoravam nas famílias religiosas de vida contemplativa. Inicialmente Beatriz adotou a Regra de Cister. Mais tarde, passou para a Regra de Santa Clara, até que em 1511, o Papa Julio II, pela bula “Ad Statum Prosperum” aprovou a Regra própria das Concepcionistas, como era o grande desejo de Beatriz. Mas nesta época ela não vivia mais entre nós, já gozava do esplendor e das maravilhas do Paraíso Celeste.

 

CONSAGRAÇÃO E MORTE DA FUNDADORA

Agora, com a benção oficial da Igreja, a Comunidade Religiosa se preparava para o grande dia da Consagração definitiva. Cada dia que passava, representava mais um passo que acontecia no esforço para encurtar o tempo de tão suspirada data. Beatriz parecia sentir que o tempo ia se esgotando e por isso mesmo, não podia ser desperdiçado. E de fato isto se confirmou certa noite, quando ela rezava no coro da Igreja. Estando imersa em profunda oração recebeu a visita de NOSSA SENHORA com uma grande notícia. Para muitas pessoas a novidade trazida pela VIRGEM MARIA pareceu fatal e dolorosa, mas para os Santos, que são aqueles que de verdade amam DEUS, foi uma notícia auspiciosa e soou como um magnífico e incomparável convite:

- “Minha filha, tua peregrinação chegou ao fim. Dentro de dez dias aqui voltarei para lhe buscar. O que tanto desejava presenciar na Terra, a profissão das suas e Minhas filhas, presenciará do Céu”.

Beatriz sorrindo e com as mãos unidas como numa prece, só conseguiu agradecer:

- “Obrigado Minha Querida Mãe!”

Na alma de Beatriz a notícia não caiu com a força destruidora do desespero. Ao contrário, ela calma e serena, com a grandeza da sua fé, imediatamente mandou chamar o seu Confessor a fim de se preparar dignamente e com plena lucidez para a eterna viajem. Segundo os seus biógrafos, no dia seguinte à visita da MÃE DE DEUS, ela adoeceu e se recolheu ao leito. Mandou chamar os Padres Franciscanos, que visitaram o seu hábito religioso e o véu para a sua profissão de fé. Recebendo o vestuário, fez a sua profissão, sendo assim a primeira Planta da Ordem Religiosa e oficialmente, a fundadora da mesma. E desse modo, Beatriz estava perfeitamente preparada, pura e sofredora, como o seu Divino esposo NOSSO SENHOR JESUS CRISTO.

Para receber a Unção dos Enfermos, ela teve que levantar o véu que cobria o rosto. Neste momento, os Franciscanos e as Irmãs presentes tiveram uma grande e singular surpresa. Sobre a fonte de Beatriz, brilhava intensamente uma estrela rutilante, “cujo fulgor se assemelhava ao da lua que nasce” (expressão do Padre Confessor). E ali a estrela permaneceu, até o dia em que Beatriz beijando o crucifixo partiu para a eternidade.

Sua missão terrestre terminou. Sobre o duro leito de tábuas que escolhera para descansar o corpo, jazia a imagem da mulher equilibrada, prudente e sábia, que soube se conduzir ao longo das tribulações e convulsões da sua história, numa demonstração eloquente de que soube lutar dignamente, no momento certo e adequado, pelo ideal da sua vida.

Na alma de Beatriz ardiam três grandes paixões: um irresistível amor a Paixão de CRISTO, um poderoso e inseparável amor a Eucaristia e um ardente e profundo amor à IMACULADA. Estes três imensos amores enchiam e transbordavam no seu humilde e modesto coração. Gostava também de permanecer junto ao Sacrário, o trono do DEUS Vivo na Terra. Ali esquecia os problemas que a vida sempre oferece e, sobretudo, armazenava inspiração e forças para enfrentá-los e combatê-los, assim que saísse da Igreja.

 

DÚVIDA NAS DATAS

Da mesma forma que existiram dúvidas sobre a data do seu nascimento, também existiram controvérsias sobre a verdadeira data da sua morte. Quanto ao nascimento, foi determinado depois de precisos cálculos e considerações, o ano de 1424. Quanto ao falecimento, ultimamente pela necessidade de corretos esclarecimentos em face da Canonização, chegou-se a um consenso histórico sobre a verdadeira data. Segundo o Padre Omaechevarria esclarece em seus estudos, houve uma confusão do copista que transcreveu o relato de Madre Joana de San Miguel, sobre a vida de Santa Beatriz. O copista interpretou a palavra “oitavaria” de São Lourenço, por “véspera” de São Lourenço. E assim, corrigindo o engano, por determinação do Papa Paulo VI, na Bula de Canonização e nos Documentos da Missa e Ofício próprios de Santa Beatriz, ficou definida como correta a data de 17 de Agosto de 1490, para o dia do seu falecimento.

Fixada a data da morte, considerando que ela nasceu em 1424, significa dizer que Beatriz viveu aproximadamente 66 anos, dos quais passou quase 40 anos encerrada no Mosteiro de Santo Domingo, el Real.

 

PERIGOS ENFRENTADOS PELA ORDEM

A morte da Abadessa e fundadora da Comunidade Concepcionista foi muito triste e dolorosa para as Irmãs que permaneceram no mesmo ideal. Pois ainda davam os primeiros passos e logo, elas ficaram órfãs daquela que era a guia e orientadora, o exemplo e o estímulo vivo, para cada uma delas. Além destas realidades difíceis de serem superadas pelas Irmãs da Nova Comunidade, tiveram que enfrentar a força e a disposição do Mosteiro de Santo Domingo, el Real, que queria se apoderar de tudo. Eles conhecedores da Santidade de Beatriz vieram reclamar o seu corpo, pois ela tinha vivido quase 40 anos em Santo Domingo. Julgavam que este fato lhes dava direito sobre o cadáver e por isso, queriam transladá-lo para o Mosteiro. Também queriam transferir de volta para o Mosteiro de Santo Domingo, as doze Irmãs que saíram acompanhando Beatriz e com ela iniciaram a nova Fundação. Com tais pretensões, se realizadas, representariam o fim da obra da Madre Beatriz.

Nestes momentos críticos despontaram os Franciscanos, amigos e orientadores de Beatriz. Contam os historiadores, que após a morte dela, seis Frades de São Francisco que eram amigos, cuidaram e providenciaram o seu sepultamento em Santa Fé, ou seja, na Igreja ao lado do Mosteiro que ela tinha preparado para a nova Ordem Religiosa. E assim, eles conseguiram superar a primeira dificuldade. Para solucionar o segundo entrave, que queriam levar as doze irmãs de volta para o Mosteiro Santo Domingo, o Superior Regional dos Franciscanos em Castela, Frei João Tolosa, foi a Toledo e argumentou com lógica e muita prudência, mostrando que as Irmãs de Santo Domingo não tinham razão no seu pedido, e por isso, despediu os Frades e as Monjas de Santo Domingo, el Real, que discutiam o problema com ele. A partir deste dia a Casa Religiosa passou a ser chamada de MOSTEIRO DA CONCEIÇÃO DE NOSSA SENHORA.

Assim, as filhas de Beatriz, apesar de tristes e saudosas, puderam cuidar da organização do seu Mosteiro e da sua Ordem Religiosa. Na administração do Mosteiro, para substituir Beatriz foi nomeada a nova Abadessa Madre Felipa da Silva, que era sobrinha dela.

Mas a calmaria que se seguiu foi apenas passageira. Nuvens pesadas no horizonte indicavam problemas e preocupações. Em 1494 o Papa Alexandre VI publicou uma bula, determinando que fosse extinta a Regra da Ordem de Cister, aquela que as Irmãs de Santa Beatriz seguiam, e ordenando que elas adotassem a Regra da Ordem de Santa Clara. As irmãs obedeceram e solucionaram a questão.

Anos mais tarde, junto ao Mosteiro da Conceição havia o Mosteiro Beneditino de São Pedro de las Dueñas. Por ordem da Rainha Isabel, preocupada com a disciplina religiosa, decidiu unir os dois Mosteiros. Mas não deu certo, surgiram problemas de todos os graus. Depois de muitas vicissitudes se separaram. Nesta época, os Reis Católicos Fernando e Isabel que tinham terminado a construção do Convento de São João de los Reys, o qual desejavam fosse o lugar de seus túmulos autorizou que para lá fossem os Franciscanos, deixando livre o Convento de São Francisco. Assim, em 1501 as Monjas Concepcionistas passaram para este Convento, que desde então passou a se chamar “Convento da Conceição”. Esta transferência foi confirmada pelo Papa Júlio II, em 19 de Fevereiro de 1505, passando a ser o local definitivo da Casa Mãe das Monjas Concepcionistas, filhas de Santa Beatriz da Silva, onde se encontram até hoje na cidade de Toledo. E assim, depois de alguns meses, os restos mortais da fundadora também vieram para o novo Mosteiro.

 

A SANTIDADE DE BEATRIZ

O primeiro acontecimento que nos faz perceber a Santidade de Beatriz aconteceu na corte de Tordesilhas, quando ela enterrada viva num ataúde, passou três dias (72 horas) sem comer, beber, e sem ar para respirar, e quando o ataúde foi aberto saiu ilesa, sorrindo mais bonita e bem disposta. Aquele milagre pela Vontade de DEUS provava a inocência e a pureza de Beatriz. A Rainha ao vê-la tão bela, sorridente e bem-disposta, teve uma forte comoção e chorando implorou o seu perdão. A jovem sem qualquer rancor e sem nenhum ressentimento, abraçou-a decididamente a Rainha mostrando sua bondade e a grandeza piedosa do seu coração. Uma santidade admirável.

A segunda manifestação ocorreu no dia da sua morte, quando apareceu em sua fronte uma estrela brilhante indicando alguém especial no plano de NOSSO SENHOR. A estrela permaneceu linda e brilhante até o momento da sua morte, quando desapareceu. Muitas sugestões poderão ser formuladas para explicar a natureza daquele sinal. Pode ser argumentado como um sinal da escolhida do SENHOR, ou como a luz da sua santidade inquestionável, ou talvez indicando a grandeza imensa do seu amor dedicado e puro que retornava definitivamente aos braços do PAI ETERNO.

Outras manifestações:

Quando da transladação do corpo de Beatriz para o Mosteiro da Conceição, conta-se que um pobre ceguinho aproximou-se da urna mortuária, tocou-a e pediu o auxilio e a intercessão protetora da Santa. No mesmo momento ele voltou a enxergar. DEUS misericórdia infinita fez o milagre acontecer pela intercessão de Beatriz. E assim como este, muitos sinais aconteceram e são relatados pela crônica da época.

Os Franciscanos lutaram desde longa data pelo reconhecimento do privilégio da VIRGEM MARIA, de ter nascida isenta da culpa e da influência do pecado original. Foi uma discussão que se estendeu por séculos de incompreensões, até que finalmente, no dia 8 de Dezembro de 1854, o Papa Pio IX assinou o dogma da IMACULADA CONCEIÇÃO, em que afirmava: depois de ter consultado o mundo católico e os grandes teólogos, declaro, com meu poder apostólico, como sucessor de Pedro, que:“A BEATÍSSIMA VIRGEM MARIA, no primeiro instante da sua conceição, por singular graça e privilégio de DEUS Onipotente, em vista dos méritos de JESUS CRISTO, SALVADOR do gênero humano, foi preservada imune de toda a mancha do pecado original”.

O processo relatando os milagres acontecidos pela intercessão de Beatriz correu através de longos anos. Somente no dia 28 de Julho de 1926, o Papa Pio XI, aprovou e confirmou o decreto da Sagrada Congregação dos Ritos, sancionando o culto que, extra-oficialmente já vinha sendo prestado a Fundadora das Concepcionistas. Com essa aprovação, Beatriz recebia o titulo de Bem-Aventurada. Significa dizer que o processo na Sagrada Congregação relatando os milagres foi aprovado e sancionados pelo Papa, e Beatriz foi Beatificada.

O processo canônico continuou na Santa Sé, e no dia 3 de Outubro de 1976, o Papa Paulo VI assinou o decreto de Canonização, inscrevendo SANTA BEATRIZ DA SILVA E MENEZES, no catalogo dos Santos.

 

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