"A VIDA DE SANTO ANTÃO"

 

Antão era egípcio, filho de nobres riquíssimos e foi educado cristãmente pelos seus pais. Teve uma educação fechada, vivendo junto a família e muito raramente saia do lar. Não foi para o Colégio, para não ter contato com outros jovens, aprendeu as letras em casa. Todo o seu desejo, manifestado desde que adquiriu a compreensão das coisas, era não sair de casa, viver integralmente dentro do lar. Não era preguiçoso, ao contrário, assumia todos os trabalhos com prazer e alegria, mas insistia em permanecer em casa.

Com a morte dos pais, ficou sozinho com uma irmã mais nova que tinha aproximadamente 18 a 20 anos de idade assumindo a responsabilidade da casa e da irmã. Já há alguns anos frequentava a Igreja com assiduidade e meditava sobre o conteúdo do Evangelho de NOSSO SENHOR JESUS CRISTO. Inspirado pela palavra Divina, recebeu-a com ternura, como se tivesse sido ditas especialmente para ele. Decidiu distribuir seus bens e a riqueza deixada pelos pais, reservando carinhosamente uma porção necessária a sua irmã. Protegeu a sua irmã colocando-a numa casa conhecida, onde viviam senhoras virgens e fieis. E então, passou a viver sozinho, praticando e cultivando o bem, exercitando pesada disciplina para domar a própria vontade. Encontrando outras pessoas, que também viviam sós e se preocupavam em rezar e fazer o bem, ele extraía sempre o melhor delas e juntava as suas virtudes, melhorando cada vez mais as suas qualidades pessoais. Todo o seu desejo e sua aplicação, eram orientados a prática ascética, Antão era um perfeito devoto contemplativo do SENHOR e da admirável Obra Divina.

O demônio invejoso não suportava ver aquele jovem aprimorar as suas virtudes e exercitá-las em benefício das pessoas, e por isso, tramava e maquinava contra ele, tentando-o de todas as maneiras, afim de enfraquecer a sua vontade. Mas ele resistia heroicamente. À noite, o miserável diabo tomava a forma de uma mulher com o fim de seduzi-lo. Mas não conseguia, e desesperado pelos seus fracassos, satanás se sucumbia diante das constantes orações e da permanente fidelidade do jovem Antão.

Embora jovem e cheio de vida, não tirou pretexto da derrota do demônio, para se negligenciar e cair na presunção. Por isso, cada vez mais castigava o próprio corpo e o reduzia a servidão, exercitando-se nas mais duras austeridades. Com muita frequência, passava noites sem dormir, sempre em vigilância, contra as ciladas do maligno. Comia uma única vez por dia, depois do por do sol e às vezes, tomava o alimento de dois em dois dias. O seu alimento era pão e sal, e a bebida era água pura. Para dormir, contentava-se com uma esteira e às vezes deitava na própria terra nua. Ele dizia que o vigor da alma se fortalece quando os prazeres do corpo se enfraquecem. Fazia o seguinte raciocínio verdadeiramente admirável: “Não se deve medir o caminho da virtude pelo tempo, nem a vida em retiro com vista a alcançar a virtude, mas sim pelo desejo e a resolução (decisão firme).

Ele próprio não recordava o tempo passado, mas dia a dia praticava, como se estivesse iniciando na ascese, e se esforçava sempre para progredir cada vez mais. Em cada dia se portava como se estivesse no começo, dedicando-se para mostrar como se deve comparecer diante de DEUS: “com o coração puro e pronto a obedecer a Sua Vontade, e a nenhuma outra”.

Sem local certo onde morar, Antão foi para os sepulcros que ficavam longe da aldeia, recomendando a um de seus amigos que lhe levasse pão em longos intervalos de tempo. Entrou num túmulo, em forma de uma pequena capela, fechou a porta e lá permaneceu sozinho. Os demônios loucos de ódio, temendo que Antão enchesse o deserto de ascese, certa noite se precipitaram sobre ele e bateram muito nele, deixando-o estendido no chão todo machucado. Por disposição da Providência Divina, no dia seguinte, logo cedo, o amigo foi levar-lhe pão e o encontrou no chão como se estivesse morto. Imaginando que de fato ele tinha morrido, levou-o para a Igreja da aldeia e deitou-o no chão. Os parentes e muitas pessoas conhecidas, foram vê-lo e também pensaram que ele tivesse morrido. Todavia, a meia noite, ele recobrou os sentidos, e vendo que todos dormiam e só o seu amigo estava acordado, fez sinal para que ele se aproximasse e pediu que o levasse novamente de volta ao túmulo, sem despertar ninguém.

Coberto de chagas e enfraquecido pelos maus tratos, foi colocado no chão do túmulo, onde permaneceu, e o amigo se retirou. Sozinho e sem forças para se levantar, deitado começou a rezar as suas orações. Os demônios ficaram loucos e enfurecidos, por que não conseguiam dobrar a fibra daquele homem. Antão percebeu e gritou forte: “Aqui estou, não fujo dos maus tratos. Se me causarem outros, NADA ME SEPARARÁ DO AMOR DE CRISTO” (Rm 8,35).

À noite, os demônios fizeram tal alarido que o local tremeu fortemente. As paredes da pequena habitação estavam quase rompidas, e os demônios metamorfoseados em animais e répteis, encheu o local de espectros de leões, ursos, leopardos, serpentes, víboras, escorpiões, e cada animal se comportando segundo a sua natureza, ameaçadoramente. Gemendo com suas dores Antão permanecia deitado na terra, apreensivo com o acontecimento, mas não se mostrava apavorado e nem revelava medo. Mantinha-se vigilante e falou para os demônios: “Se tivésseis algum poder, bastaria que viesse apenas um de vós para me estraçalhar e acabar comigo. Mas vieram em quantidade! Isso é sinal de fraqueza, principalmente imitando formas de animais. Se não podem fazer nada contra mim por que vos se perturbam em vão? Minha fé no SENHOR é o meu selo de garantia e minha proteção”. Depois de várias tentativas, sem sucesso, os diabos rangeram os dentes e desapareceram.

Naquele mesmo momento, acomodando-se melhor no chão e olhando para o teto da capela, viu que ele se abria e um raio de luz vindo do Céu desceu sobre o seu corpo, como que a consolá-lo. Respirando aliviado pelas dificuldades passadas, sentiu uma imensa paz envolver o seu coração. Sentiu em plenitude a presença de DEUS. Então perguntou: “Onde está SENHOR? Por que não vieste antes para fazer cessar as minhas dores”? Ouviu-se uma voz suave e firme: “EU estava aqui, Antão. Vim para vê-lo combater. Já que perseverastes e resististes, serei sempre o teu socorro e tornar-te-ei célebre em toda parte”. A luz se afastou e o teto da capela voltou ao normal, o dia começava a amanhecer.

Antão estava com 35 anos de idade quando teve esta primeira experiência Divina. Estava reconfortado e sentia uma profunda alegria interior. Fisicamente também sentia o corpo revigorado e fortalecido, as dores desapareceram, estava com mais disposição e destreza, do que antes do combate.

O sol já iluminava a região quando ele saiu em direção à aldeia para se encontrar com um idoso, também eremita, e convidá-lo a rezar no deserto. O idoso agradeceu, mas não aceitou por motivo de doença, e completou dizendo que certamente ele seria um constante empecilho e não um real companheiro para Antão. Desse modo, novamente ele partiu sozinho. Sentiu duas investidas de satanás, mas não deu a menor atenção, caminhava rezando com passadas ligeiras em direção à montanha. Depois de passar um rio, encontrou um castelo fortificado, abandonado e cheio de répteis. Decidiu se estabelecer ali. Os répteis se retiraram apressadamente e ele tapou o local de entrada. Levou consigo pão para seis meses (os tebanos fazem pães que se conservam por um ano). Como dentro do castelo havia um poço de água cristalina, ele não saía para nada e nem via aqueles que por lá passavam. Permaneceu assim, por longo tempo, afastado do mundo, somente recebendo pão, de um amigo, duas vezes por ano, e assim mesmo, por cima do muro, sem vê-lo pessoalmente.

Certo dia, alguns de seus familiares foram até ele, para conversar e ver das suas necessidades, afim de auxiliá-lo, assim como rezar na companhia dele e pedir orações para outros parentes e amigos. Mas ele não lhes permitiu entrar, permaneceram acampados do lado de fora durante dias e noites. E ouviam um barulho estranho como uma tropa de soldados fazendo um grande alarido, esbravejando e gritando com voz lamentosa diziam: “Vai-te de nossa casa! Que vieste fazer aqui no deserto? Você não suportará a nossa conjuração”. Inicialmente os parentes pensaram, que homens descidos até ele por escada, se batessem com ele. Mas olhando pelas frestas e não vendo ninguém, concluíram que era o próprio demônio. Os parentes aterrorizados chamavam por ele. Antão nem se importava com os demônios, e com certa tranquilidade, até se aproximou da porta e disse aos seus parentes que não se preocupassem, que estava tudo bem e que eles voltassem para as suas casas.“Persignai-vos, (ou seja, fazei o sinal da Cruz) e voltem para os seus lares corajosamente, deixai que os demônios se iludam a si mesmos”. Todos fizeram respeitosamente o Sinal da Cruz e voltaram para casa. A fé de Antão lhe dava a certeza de que DEUS estava com ele e que os demônios nada lhe podiam fazer. E de fato, desesperados e com raiva, os demônios partiram.

Viveu assim durante vinte anos, recluso e levando uma vida ascética, não saindo do castelo e não se mostrando a ninguém. Ao longo deste tempo, muitos quiseram imitar a sua ascese e se formou então uma legião de discípulos. E por isso também, estes seus amigos não queriam que ele continuasse a viver sozinho, passando toda a sorte de privações. Foram lá, arrombaram a porta do castelo e assim, encontraram o mestre Antão. Ficaram admirados! Aquilo era um verdadeiro milagre! Antão estava com o mesmo aspecto de vinte anos atrás, e na verdade, segundo a palavra dos seus discípulos, estava mais forte e mais bonito! E somente desse modo, voltou para o meio de seus familiares e amigos. Sempre rezava e mantinha uma conduta discreta e sempre pronta a ajudar. Através dele NOSSO SENHOR curou muitas pessoas com diversos males. E aqueles acontecimentos se espalharam com alegria e júbilo. Muitos quiseram seguir o seu exemplo, ensejando a abertura de Mosteiros em quase todos os locais, nas montanhas e nos desertos.

Certo dia, em companhia de alguns discípulos quis visitar os irmãos que viviam num Mosteiro, do outro lado do lago Merare. O canal estava cheio de crocodilos ferozes. Limitou-se a fazer uma prece e atravessar o canal com os companheiros, sem qualquer dificuldade. Era como um “pai de todos os Mosteiros”.

Os monges tinham o hábito de visitá-lo para ouvir os seus conselhos e orientações. Numa ocasião em que vinte monges quiseram permanecer na companhia dele durante um dia inteiro, num momento apropriado, ele lhes falou: As Sagradas Escrituras são suficientes para nos transmitir os ensinamentos necessários à vida. Mas também é importante que nos exortemos mutuamente na fé, mantendo-nos abertos as conversações e aos diálogos. Vós, meus filhos, trazeis ao vosso pai o que sabeis; eu, mais velho, comunico-vos o que a experiência me ensinou. Que nosso esforço, antes de tudo, seja de não abandonarmos o que começamos, imaginando que nossa ascese já dura muito tempo. Ao contrário, como se estivéssemos começando, aumentemos cada dia o nosso zelo pelas coisas do SENHOR. A vida é muito curta em comparação com os séculos futuro e o nosso tempo não é nada, se comparado com a vida eterna. Todo o combate que lutarmos na Terra, nos dará uma herança não terrestre, mas celeste, e, deposto este nosso corpo, receberemos outro, incorruptível. Portanto, meus filhos, não pensem que fazemos grande coisa. Os sofrimentos do tempo presente não tem proporção com a glória futura que se manifestará em nós. Não devemos permitir que o desejo de possuir invada o nosso coração. Qual a vantagem em adquirir bens que conosco não podemos levar para a eternidade? Assim, devemos buscar apenas as coisas que nos conduzirão a vida eterna: prudência, justiça, temperança, fortaleza, inteligência, caridade, amor aos pobres, mansidão, hospitalidade e a fé em CRISTO. Sendo um servo de CRISTO, devemos saber servi-LO, não oferecendo espaço a pusilanimidade. Um servo não diz: trabalhei ontem, hoje descanso. Não mede o tempo passado para deixar de trabalhar, mas cada dia deve ter o zelo de exercitar dignamente o seu trabalho para agradar o SENHOR, como um bom servo. Nós também, devemos perseverar todos os dias na vida ascética, revelando o equilíbrio de nosso sentimento e a firmeza de nossa fé. Devemos viver como se fossemos morrer, ou seja, com dignidade e honradez, cumprindo nossos deveres e as obrigações, mostrando generosamente a grandeza de nosso amor a DEUS, buscando sempre caminhar na direção do SENHOR.

Tendo pois, começado assim e já seguindo o caminho da virtude, lutemos mais, a fim de chegarmos aos bens futuros. O SENHOR disse: "O Reino dos Céus está dentro de vós" (Lc 72, 21). Assim, a virtude tem apenas necessidade de nossa boa vontade, já que está em nós e se forma em nós.

Temos inimigos terríveis e cheios de recursos que são os demônios; é contra eles a nossa luta de cada dia. Sabemos que os demônios não foram criados por DEUS como demônios, mas Anjos bons da corte celeste, mas decaídos da sabedoria Divina foram precipitados na Terra. Eles invejam os cristãos e movem tudo, para fechar o nosso acesso ao Céu. Por isso, temos necessidade de orações e ascese, para mediante o carisma do discernimento dos espíritos, recebido do ESPÍRITO SANTO, possamos conhecer as suas atuações e especialidades, e saber como podemos vencê-los e rejeitá-los. Desse modo, a experiência de suas tentações deve servir para nos ajudar a nos precaver de suas insídias.

Quando os demônios vêem os cristãos, sejam quais forem, e principalmente se são Monges que trabalham e progridem, os atacam e armam ciladas terríveis, primordialmente os maus pensamentos. E para enfrentar as ciladas do maligno, alcançaremos êxito somente com orações, os jejuns e a fé no SENHOR. Mas vencidos por nossas reações, o demônio não desiste e retorna logo em seguida com astúcia e outras tramóias. Não podendo desviar o coração pelo prazer e pela malicia, se metamorfoseiam, com feições de mulheres, de sacerdotes, de animais, e de serpentes. Para vencermos as tentações e artimanhas demoníacas é necessário permanecermos vigilantes e em orações. Na verdade, o maligno mesmo se julgando forte, eles são fracos e covardes. Mentem sempre, nunca dizem a verdade, eles não conseguem destruir a alma sincera e piedosa, o único efeito que conseguem é assustar com sua presença repugnante e asquerosa.

O demônio e seus asseclas só conseguem atingir e maltratar fisicamente o ser humano, que também é uma invenção Divina, por permissão do próprio DEUS. Sem a permissão Divina, eles só conseguem assustar a humanidade. A permissão Divina acontece para provar e testar a fidelidade do homem ou da mulher. E assim mesmo, ao consentir os maus-tratos de satanás, o SENHOR regula a intensidade dos mesmos, não permitindo que os abusos ultrapassem determinado limite. É o caso, por exemplo do que aconteceu na história de Jó (Jó 1,15-22; 2,7).

Mas ninguém deve se gloriar de expulsar demônios e nem de possuir o dom de curar. Tudo é Obra do SENHOR, é ELE quem expulsa é ELE quem cura. O SENHOR concede dons especiais através do ESPÍRITO SANTO, que o homem ou a mulher exercitam em benefício dos outros, e nunca em benefício próprio. “Não vos alegreis porque os espíritos se submetem a vós; alegrai-vos, antes, porque vossos nomes estão inscritos nos Céus” (Lc 10,20).

Diante dele, obriguem o diabo a se declarar. Não tenham medo e não sucumbam ao terror e o interrogue corajosamente: “Quem és e de onde vens?” Se a visão for de um Santo, ele infundirá tranquilidade ao seu coração, mas se a visão for diabólica, com sua pergunta logo se enfraquecerá vendo a força do seu espírito.

Os jovens ouvindo as palavras de Antão, admirados e alegres sentiram que elas produziam um imediato efeito na alma de cada um. Em uns aumentou o amor à virtude; em outros desapareceu a pusilanimidade; e assim, foram persuadidos a não temerem as ciladas do maligno. Desse modo, nas montanhas havia como que tendas, cheias de um coro de homens divinizados, cantando salmos, estudando, jejuando, orando e exultando na esperança dos bens futuros. Entre eles reinava o amor e a concórdia.

O Imperador Romano Maximino desencadeou uma terrível perseguição contra a Igreja. Os santos confessores dos Mosteiros e das Igrejas foram obrigados a comparecer diante das autoridades na Alexandria. Eram julgados a revelia e eram presos. Antão, deixando o seu Mosteiro, acompanhou-os, incentivando-os e os encorajando, dizendo: “Combateremos, também nós, se formos chamados, ou contemplaremos aqueles que combatem”. Ele desejava sofrer o martírio. Mas não querendo se entregar a si mesmo, servia os confessores nas minas e nas prisões, para onde eram mandados. Vendo a intrepidez de Antão e de seus companheiros, o Prefeito proibiu a entrada deles no Tribunal. Os confessores, vendo a presença de Antão, ganhavam mais força e vigor, e muitos se esforçavam em imitá-lo. Assim, ele servia aos confessores da fé, como se estivesse preso com eles, e se consumia nesse serviço.

Quando a perseguição cresceu e tornou-se mais violenta, com o martírio do Bispo Pedro, Antão deixou a Alexandria e voltou para o seu Mosteiro e passou a praticar exercícios de ascese muito mais rigorosos. E no Mosteiro permanecia isolado, não conversava e não recebia ninguém. Certo dia, o oficial Martiniano, cuja filha era atormentada pelo demônio, surgiu a porta do Mosteiro, suplicando que fosse atendido por ele. Antão não quis abrir a porta, mas inclinando-se do alto disse-lhe: “Homem, por que gritas por mim? Sou uma pessoa humana como você! Mas, se acredita no CRISTO que eu adoro, vai, ora a DEUS com fé, e as suas súplicas serão ouvidas”. O oficial acreditou e começou a rezar ali mesmo. Quando chegou a casa, sua filha estava curada, purificada e livre do domínio de satanás.

CRISTO disse: “Pedi e vos será dado” (Mt 7,7). O SENHOR fez por meio de Antão, muitas outras obras. A maioria dos que sofriam e vinham ao Mosteiro, ele não abria a porta, eles dormiam do lado de fora, e sempre acreditando nas suas palavras, oravam com ardor e eram purificados.

Vendo que o número de pessoas que o visitava se transformava numa multidão, impedindo-o de viver no seu retiro, conforme o seu ideal, decidiu abandonar o Mosteiro e partir para a alta Tebaida, onde ninguém o conhecia. Ouviu uma voz do alto: : “Para onde vais Antão, e por que?” Ouviu a voz e não se perturbou, pois já estava acostumado a ser assim interpelado, e respondeu: “Não me deixam viver como um eremita; quero ir para a alta Tebaida a fim de evitar as frequentes importunações, tanto mais que me pedem coisas que ultrapassam a minha capacidade”. A voz lhe disse: “Se queres realmente ser eremita, vai para o deserto interior”. Antão respondeu: “Quem me mostrará o caminho? Não o conheço”. A voz lhe indicou uns sarracenos prontos para a viagem. Antão foi encontrá-los e por disposição da Providência Divina, eles permitiram que ele os acompanhasse. Viajaram três dias e três noites e chegou a uma montanha muito alta, o monte Colzum. Ao pé da montanha corria água límpida, suave e fresca. Mais longe se estendia um planalto, onde havia palmeiras selvagens. Ele permaneceu no monte e só se ausentou em 312, por motivo de algumas viagens. Nesse monte ele faleceu no ano 356. Sua permanência em Colzum deu origem ao célebre “Mosteiro de Santo Antão do Mar Vermelho”.

Como por Vontade Divina, Antão gostou do lugar e lá viveu e construiu o seu Mosteiro. Quando os irmãos ficaram sabendo, se apressaram em ajudá-lo, com alimentação e suprir as suas necessidades. Ele não queria mas aceitou para não decepcioná-los, e a seguir, pela própria vontade, procurou cultivar os alimentos, para não dar trabalho aos seus discípulos e amigos.

Os demônios voltaram a perturbá-lo com insistência. Ele tranquilo, tinha confiança no SENHOR, continuava firme com suas orações e ascese. Os demônios fugiam apavorados pelo açoite firme e poderoso de sua fé em DEUS.

Com o passar do tempo tornou-se conhecido na região, e assim, recomeçaram as peregrinações: as pessoas doentes eram levadas a sua presença para serem curadas por DEUS, através de sua eficaz intercessão.

Certa menina de Busíris, na Tripolitânia, sofria de horrível mal, suas lágrimas e a secreção que corria do nariz ao cair na terra, se transformava em vermes. Seus pais ao saberem que alguns Monges estavam de partida para o Mosteiro de Antão, pediram-lhes permissão para acompanhá-los com a filha. O pai e a filha ficaram na casa de Pafnúcio, o Monge Confessor e os Monges entraram na morada de Antão. Quando iam falar da menina, ele se antecipou e explicou o mal dela. Então os Monges pediram-lhe permissão para que o pai e a menina fossem à presença dele. Ele não permitiu, mas disse: “Voltai, se ela não estiver morta, estará totalmente curada. Não tenho o poder de curar para permitir que ela venha a mim. Curar é Obra do Salvador, pois ELE usa de misericórdia para aqueles que o invocam. O SENHOR ouviu a minha oração e mostrou o seu amor à humanidade, curando a menina, enquanto ela lá está”. De fato o milagre tinha se realizado. Os Monges encontraram o pai feliz e exultante de alegria com a cura da filha.

Durante uma viagem de barco, Antão orava na companhia dos Monges, e sentiu um cheiro horrível e penetrante. As pessoas a bordo diziam que o barco transportava peixe e produtos salgados, donde o odor. Mas ele disse que não era, que o odor era diferente e fazia lembrar o enxofre. Enquanto falava, um jovem possesso do demônio, que se mantinha oculto no navio, deu um forte grito. Exorcizado por ele, em nome de NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, o demônio saiu, e o homem ficou curado. Todos reconheceram então, que o mau cheiro vinha do rapaz.

Admirável era a sua fé e piedade. Não se relacionava e nem suportava os cismáticos e nem os hereges, a não ser para exortá-los a se converterem à piedade.

Os arianos, hereges terríveis, falsamente espalharam a notícia de que Antão pensava como eles. Indignado com aquelas inverdades, a pedido dos Bispos e de todos os irmãos religiosos, desceu da montanha e veio a Alexandria para condenar os arianos, dizendo que a heresia lançada por eles era precursora do anticristo. Ensinou ao povo que o FILHO DE DEUS não é uma criatura e que não foi tirado do nada, mas que ELE é o VERBO Eterno e a Sabedoria da Substância do PAI. Por isso, é impiedade dizer: “houve tempo em que ELE não existia”, como afirmam os heresiarcas arianos. Na verdade, ELE (o VERBO, o FILHO) sempre está com o PAI.

Enfrentando os pagãos e os heresiarcas, Antão fez uma magnífica apresentação do valor da fé, com palavras claras e com um milagre Divino, por sua preciosa intercessão. Disse aos pagãos: “Vós estais no auge da incredulidade, procurando raciocínios e argumentos para montar os seus discursos. Quanto a nós, não é com a persuasiva linguagem da sabedoria grega que demonstraremos. Persuadimos pela fé, que põem abaixo a armadura dos discursos”. Olhando para o povo que o cercava, sabia que existiam entre eles, pessoas possessas dos demônios. Ele pediu que as trouxessem para o meio deles e disse aos sacerdotes pagãos: “Purificai-as por meio dos vossos raciocínios ou pela arte que quiserdes, ou por magia, invocando os vossos ídolos. Ou, se não podeis, cessai de lutar contra nós e vereis o poder da Cruz de CRISTO”. Ditas estas palavras, invocou a CRISTO e fez três vezes o Sinal da Cruz sobre os doentes. Logo aqueles homens se levantaram ilesos, em plena posse de si mesmos e dando graças a DEUS. Os filósofos e os sacerdotes pagãos ficaram admirados com o milagre verdadeiramente realizado. Antão acrescentou: “Por que vos espantais? Não somos nós quem faz estas coisas. É CRISTO que as faz por meio daqueles que crêem NELE”. Este sinal foi suficiente para mostrar e provar que a fé em CRISTO é a verdadeira religião.

A fama de Antão chegou ao conhecimento dos Imperadores Romanos: de Constantino Augusto, depois a Constâncio Augusto e também de Constante Augusto, que lhe escreveram como se estivessem fazendo contato com um pai, pedindo-lhe que lhes respondesse. Ele não queria nem receber as cartas e nem respondê-las. Chamou os Monges e disse: “Não vos surpreendais que o Imperador nos escreva, ele é um homem; admirai, antes, que o SENHOR DEUS tenha escrito uma Lei para a humanidade e nos tenha falado por Seu próprio FILHO”! Mas os Monges incitaram que ele as recebesse e respondesse, pois sendo cristãos os Imperadores, não seria agradável escandalizá-los com a recusa. Na resposta, ele felicitou-os por adorarem o CRISTO e deu-lhes conselhos para a salvação eterna. Recomendou-lhes também que amassem as pessoas, observassem a justiça e cuidassem dos pobres. Os príncipes receberam com alegria as suas cartas. Assim, ele era querido por todos. Cada um sentia prazer em tê-lo como um pai.

No seu eremitério, onde vivia, em face de sua avançada idade, já fazia 15 anos que dois Monges  permaneciam em sua companhia ajudando-o durante todo o tempo, servindo-o nas necessidades e praticando a ascese. Antão lhes dizia: “Tende sempre o cuidado de vos apegardes primeiramente ao SENHOR, e, depois, aos Santos, a fim de que, após a vossa morte, eles vos recebam nos tabernáculos eternos, como amigos e familiares”.

“Não deixais ninguém levar meu corpo para o Cairo, a fim de colocá-lo num mausoléu. Sepultai-o vós mesmos e ocultai-o na terra, guardando de tal modo minha ordem que ninguém saiba onde é o lugar, somente vós. Na ressurreição dos mortos, receberei do SENHOR esse mesmo corpo, incorruptível. Reparti as minhas vestes. Ao Bispo Atanásio dai um melote (pele de carneiro com lã) e o manto que eu usava; recebi-o dele, novo, de presente. Ao Bispo Serapião dai o outro melote; quanto a vós ficai com a veste de crinas. E agora, meus filhos, Antão parte, ele não está mais convosco”.Tendo dito isto, seus discípulos o abraçaram. Ele estendeu os pés e olhando afavelmente seus companheiros com a face alegre partiu para a eternidade.

Morreu aos 105 anos de idade e suas últimas vontades foram fielmente executadas.

Escreveu Santo Atanásio: "Assim foi a vida de Antão, e na verdade, o que escrevi é bem pouco em comparação com a grandeza de suas virtudes. Lede essas coisas aos outros irmãos para lhes ensinardes como deve ser a vida dos monges e persuadi-los de que NOSSO SENHOR E SALVADOR JESUS CRISTO glorifica aqueles que O glorificam, e não só conduz ao reino aqueles que O servem até o fim, mas também, por causa de sua virtude e para a utilidade dos outros, manifesta e torna célebres em toda parte aqueles que se ocultam e procuram viver distante da evidência e da publicidade".

 

FIM

 

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