O SENHOR CHAMA

 

MANIFESTAÇÕES SOBRENATURAIS

Joana está com treze anos de idade e, como sempre fazia, estava examinando o seu jardim ao meio dia, aproveitando à linda e brilhante luz do sol. Pensava na vida, nos fatos que seu tio lhe contou, no seu trabalho, e sua face involuntariamente estava dirigida para a estrada de Vaucouleurs, enquanto o seu espírito só pensava em DEUS. Naquele silêncio da aldeia, de repente a sua direita brilhou uma claridade intensa, mas tão grande que a deixou confusa por um instante, e do meio daquela intensa luz saiu uma agradável voz, clara e amigável:

- “Eu venho de DEUS para te ajudar a ter um bom comportamento. Seja boa Joaninha e NOSSO SENHOR te ajudará.”

Joana tremeu de medo e emoção. Sem saber o que fazer ou dizer, ficou olhando aquela imensa luz. Depois de alguns momentos, a luz desapareceu. Ela entrou em casa e foi direta para o quarto e ali permaneceu com seus pensamentos. Não dormiu. Não estava entendendo o que aquele aviso significava. No dia seguinte levantou cedo e foi a Igreja rezar diante da imagem de São Miguel Arcanjo, de São Remígio e das suas Santas favoritas, Santa Margarida e Santa Catarina de Alexandria. Joana estava pensativa e preocupada, não encontrando uma explicação para aquele acontecimento. Passaram-se os dias.

Certa manhã, provavelmente duas semanas após, no mesmo lugar do jardim defronte a sua casa, surgiu novamente o clarão. Ela estremeceu. Do interior da luz a voz falou:

- “Seja boazinha, Joaninha!” Com o susto ela se voltou rapidamente em direção ao imenso clarão luminoso, mas ele simplesmente desapareceu. Seu coração ficou aos pulos. Entrou em casa e ficou pensativa, mas não falou nada com ninguém.

Os dias passaram e chegou o verão. Novamente, como gostava de fazer, se encontrava no jardim tratando das suas plantas, quando de súbito, apareceu outra vez o clarão e a mesma voz que lhe disse:

- “Joaninha, seja boa!”

Ela se voltou rapidamente e agora viu uma visão resplandecente. Esfregou os olhos instintivamente para confirmar, e então viu dentro daquele clarão um lindo guerreiro, com uma admirável armadura polida. Ele tinha uma grande espada na mão direita e um escudo na esquerda. O rosto mal conseguiu enxergar por causa do brilho da luz que o inundava, mas foi conseguindo perceber que era um grande guerreiro, que por fim ela identificou: é São Miguel Arcanjo! Os olhos dela se encheram de lágrimas e de alegria, o Arcanjo serenamente falou:

- “Santa Catarina de Alexandria e Santa Margarida virão a ti, Joaninha. Segue os conselhos que elas te derem, pois te dirão o que tens a fazer. Tudo o que elas te disserem será por ordem de NOSSO SENHOR.”

Logo depois a visão desapareceu. A surpresa de Joana se juntou a uma imensa satisfação, pelo inusitado prazer de ter conhecido o admirável e querido Arcanjo, e também pela alegria da noticia de ter a oportunidade de conhecer pessoalmente em breve, as suas Santas preferidas. Ergueu-se trêmula e foi para o interior da casa. Mas decidiu guardar segredo de tudo, pois considerou que só deverá dizer qualquer coisa, quando for autorizada pelo Arcanjo.

Passaram-se os dias. Ela agora ia com mais frequência a Igreja, por que se sentia muito confortável diante das imagens de suas Santas preferidas e de São Miguel Arcanjo.

Dias após, o céu estava nublado, ameaçando chuva, e ela, estando no jardim diante da sua casa, lhe apareceu numa imensa luz gloriosa as duas Santas da sua predileção: Santa Margarida e Santa Catarina de Alexandria. Usavam longos vestidos de rainha e traziam na cabeça lindas coroas de ouro crivadas de pedras preciosas, que brilhavam como as estrelas. Joana se ajoelhou e se arrastou de joelhos até próximo aos vestidos delas, e beijou-os com muito respeito e fervor.

Esta aparição das Santas foi à primeira de muitas outras que se sucederam, da mesma forma que São Miguel Arcanjo, o qual também lhe apareceu diversas vezes. Os primeiros conselhos foram:

- “Não deixes de ir a Igreja”.

- “Segue os Mandamentos do SENHOR”.

- “Seja boa, Joaninha”.

Passado mais alguns dias, as Santas voltaram a lhe visitar, e agora, começaram a lhe aconselhar:

- “Filha de DEUS, é preciso que deixes a tua aldeia e vás para a França”.

Terminada a aparição, Joana ficou parada, pensando: “Mas para que? Com que finalidade?” Ela não entendia...

E não compreendendo permanecia horas e horas pensando nas aparições, lembrando-se das recomendações que as Santas lhe faziam... Será que elas estão querendo que eu faça alguma coisa pelo Delfim que está recluso em Bourges? Lembrava também da profecia: “A França foi desgraçada por uma mulher e será salva por uma donzela”? Ela pensava: “Mas como?”

 

   

 

NÃO CONSEGUIA SE DISTRAIR

Passaram-se semanas e meses.

Certo dia, como de costume, estava trabalhando firme na lavoura e a seu lado o companheiro João Waterin que ajudava, obrando firme com o arado, rasgando a terra e cantando, pois tinha o hábito de cantar enquanto trabalhava, mostrando alegria e disposição. Ela não via e nem ouvia o companheiro, seguia trabalhando firme, com total atenção no serviço, mas com o pensamento fixo em DEUS.

Cansada, parou um pouco e se assentou numa pedra; enxugou o suor da testa com um lenço e respirou fundo olhando o céu. Com surpresa vê se desenharem no espaço os vultos das suas queridas Santas, que apareceram numa nuvem de ouro. Elas se aproximaram sorridentes e com imensa simpatia, demonstrando carinho e amizade, lhe disseram:

- “Joana, toma o estandarte em nome do Rei do Céu. Toma-o com coragem, que DEUS te ajudará”.

As Santas desapareceram. Mas as suas palavras ecoaram fundo na sua mente como uma música encantada, que insinuava coragem e ação.

Ela pensava: “Como vou fazer isto meu SENHOR, se sou uma pobre moça ignorante, que não sabe andar a cavalo e nem sabe guerrear?”

 

O SONHO DO PAI

No dia seguinte, na hora do café, enquanto todos conversavam normalmente, o pai Jacques contou o sonho que teve:

- “Vi Joana sair a cavalo vestida de homem em companhia de soldados...”

Todos olharam espantados para ele. Joana sentiu um sobressalto, seu coração acelerou, por que o sonho do seu pai coincidia com a vontade dos Santos. Ficou pensativa. Foi a Igreja rezar para São Remígio. Tio Henrique também já lhe havia contado a vida de São Remígio, e ela sabia que o Santo tinha coroado um Rei. Então ficava pensando: “Seria tão bom, se São Remígio se lembrasse de descer do Céu para coroar e sagrar o pobre Delfim, que está metido no Castelo de Chinon! Seria uma bênção”.

 

REZANDO NA IGREJA

Entrou na Igreja com grande esperança, sobretudo, pediu a São Remígio que lhe desse a coragem e a inspiração para cumprir a ordem dos Santos, e que intercedesse junto a DEUS e conseguisse a graça, de um dia os santos óleos perfumarem os cabelos do Delfim Carlos de Valois, fazendo a sua sagração.

Animada pela visita dos Santos, sentiu nascer no seu interior uma alma nova e mais forte, tomou coragem e passou a se interessar por todas as notícias que se referiam à França, assim como escutava com atenção as coisas que falavam do Rei.

 

O ARCANJO EXPLICOU

Outro dia o Arcanjo São Miguel lhe apareceu novamente e ordenou:

- “Filha de DEUS, tu conduzirás o Delfim a Reims para que ele ali receba a sua digna sagração”.

Poucos dias depois, o Arcanjo voltou a lhe aparecer, e disse:

- “Filha de DEUS, irás ao Capitão Robert de Baudricourt , na cidade de Vaucouleurs, para que ele te dê gente a fim de te conduzir ao Delfim”.

Aquelas palavras do Arcanjo e dos Santos seus preferidos, não saiam da sua cabeça. E firmemente soavam, até que finalmente um dia ela se decidiu.

 

FOI VISITAR OS PRIMOS

Pediu autorização aos seus pais para visitar o primo Durand Lassois e sua esposa Joana Lassois que morava no lugarejo Burey-en-Vaulx. Os pais autorizaram e para lá viajou. Chegando foi recebida pelos parentes com bastante carinho. Na sequência dos dias ela explicou o fato resumidamente ao primo Durand e com muito jeito, conseguiu que ele a conduzisse até Vaucouleurs, por que precisava conversar com o Capitão Robert. Ela utilizou este recurso, por que sabia que o seu pai não ia consentir se fizesse o mesmo pedido a ele. Assim preparam a viagem e seguiram. A distância não era longa. Quando chegou o tio falou:

- “Olha Joana, não quero me meter em complicações. Sei que o senhor de Baudricourt é brigão e bruto. Eu fico esperando por aqui, o assunto é com você”.

 

DIANTE DO PODEROSO BAUDRICOURT

Joana concordou e se despediu do primo. Decididamente caminhou para o Palácio, atravessou a ponte elevadiça e misteriosamente os guardas se mantiveram firmes nas suas posições, não a incomodaram e nada lhe perguntaram, ela passou direto, entrou no Castelo, subiu as escadas, caminhou pelos corredores, sem errar, e finalmente entrou numa grande sala. Será que os Anjos a guiavam? Dois homens se achavam conversando junto a uma mesa. Ao redor, muitos outros homens armados. Joana foi direto ao senhor Baudricourt, que se espantou e falou:

- “Os meus guardas estão dormindo? Por que deixaram entrar esta pastorinha maltrapilha?”

Joana parou diante do enorme Capitão e disse:

- “Venho da parte do Messire (SENHOR DEUS) para lhe pedir, que o senhor faça o favor de mandar dizer ao Delfim que se contenha, e não dê combate aos ingleses.”

Robert de Baudricourt, sentado na cadeira, cruzou os braços musculosos, olhou muito sério para ela e desatou a rir. Joana esperou e não se perturbou. Depois repetiu as palavras que o Arcanjo lhe disse:

- “Antes da terceira quarta-feira da Quaresma, Messire (o SENHOR) lhe mandará socorro. Por que o reino na verdade não pertence ao Delfim. Mas Messire (o SENHOR) quer que ele seja o Rei. E quem o vai levar à sagração, sou eu”.

A risada de Robert foi tão grande e sonora que ecoou no grande salão, e os outros homens também não aguentaram, riram de dobrar a barriga. Então, o Capitão com ar de mofo perguntou:

- “Mas quem é esse Messire?”

- “É o Rei do Céu”. Respondeu Joana.

O senhor de Baudricourt continuou a rir, para ele aquelas palavras eram uma grande piada. Mas, de repente ficou sério e ordenou:

- “Levem esta jovem de volta aos seus pais. Mas primeiro apliquem-lhe umas boas palmadas”.

 

DE VOLTA A DOMRÉMY

Joana foi conduzida para fora do Castelo, mas não bateram nela. Encontrou Durand, entrou na carroça e voltaram para Burey-en-Vaulx, onde ela permaneceu oito dias com a família do primo, e depois regressou a Domrémy.

Em casa o seu comportamento mudou radicalmente, fazia todos os trabalhos como sempre, mas nos momentos de repouso, ficava pensando no Delfim, nos exércitos, nos combates, na vitória e na coroação do Rei da França.

No campo de batalha, o Duque Bedford estava a fim de ocupar integralmente a França, em nome do Rei da Inglaterra. Equipou mais de 1.000 homens, inclusive os soldados borgonheses que estavam sob as suas ordens, e colocou-os sobre o comando de Antonio de Vergy para invadir a Castelaria de Vaucouleurs, querendo também se apoderar do território de Robert de Baudricourt. Por onde passavam, deixavam um rastro de destruição: incendiavam casas, derrubavam lavouras, matavam homens...

 

INVASÃO INIMIGA

Em Domrémy, o vigia da torre observando que os inimigos se aproximavam, embora ainda estivessem muito longe, nervosamente deu o alarme, e o povo que já estava mais ou menos preparado fugiram as pressas para Neufchâteau, que estava fora do roteiro dos invasores, e lá permaneceram durante duas semanas.

Quando retornaram, ao chegar à entrada da aldeia, que decepção, ficaram admirados com a terrível destruição que fizeram e, choraram de tristeza.

Com orações e muita coragem, no dia seguinte começaram a reconstrução do meio dos escombros. E com muita luta e disposição, foram edificando, plantando e se organizando. Aos poucos a vida foi voltando a normalidade.

Sempre chegava noticias do campo de batalha. Agora souberam que Orléans, o coração da França, estava sitiada pelos ingleses.

 

QUER VOLTAR A VAUCOULEURS

Joana ouvia os comentários e ficava pensando, pensando nas palavras dos Santos. E foi assim que se decidiu procurar novamente o senhor Robert de Baudricourt.

Agora a prima Joana Lassois ia ganhar bebê dentro de poucos dias, e naturalmente, uma ajuda sempre é bem-vinda. Assim pensando, Joana d’Arc pediu autorização aos seus pais para ir ajudar a sua prima Joana Lassois. Os pais consentiram, depois de muitas recomendações. Numa tarde daqueles próximos dias, Joana com tudo preparado, montou o seu burrinho e seguiu para Burey-en-Vaulx. Lá permaneceu o tempo necessário depois do nascimento da criança. Quando o ambiente voltou a normalidade, ela pediu ao primo Durand que novamente a acompanhasse a Vaucouleurs. Depois de alguma resistência por parte dele, que afirmava não querer se envolver em política, os argumentos de Joana o convenceu, e juntos, numa manhã seguiram de carruagem para Vaucouleurs. Conforme o combinado, desta vez o primo não ficou esperando, ele regressou ao seu lar em Burey.

Joana subiu as escadas do Castelo e encontrou o homenzarrão bastante mudado, já não soltava as suas grandes gargalhadas e nem falava em dar palmadas na camponesinha. Ouviu as palavras de Joana, sério e atencioso.

Joana falou:

- “DEUS mandou que eu fosse gentil com o Delfim (o herdeiro do trono), por que ele é o verdadeiro Rei da França. Ele me deve dar armas para eu levantar o cerco de Orléans e levá-lo depois a sagração em Reims”.

Baudricourt, sério ouvia tudo em silêncio, mas desconfiado dela, da sua pobreza, da sua juventude, trajando um vestido vermelho surrado e sem expressão, passou a mão no rosto e murmurou:

- “Levantar o cerco de Orléans?” Ele está sério. Educadamente mandou Joana voltar para casa.

 

RESIDINDO EM VAUCOULEURS

Ela que já tinha se despedido do primo Durand, foi então se encontrar na cidade com o casal amigo dos seus pais, Henrique Laroyer e sua esposa Catarina, que moravam lá mesmo em Vaucouleurs. E com eles, sentiu-se em casa, por que eram atenciosos e revelaram desde o inicio, grande simpatia e amizade por ela. Joana lhes contou o que veio fazer na cidade. Eles ficaram admirados e lhe prometeram integral ajuda.

Todas as noites Joana ia rezar na Igreja, sempre suplicando a Luz de DEUS. Enquanto na cidade, os comentários corriam ligeiros sobre a presença dela e o seu desejo.

João de Metz que era um homem de armas, pertencente à guarnição da cidade, curioso com aquelas notícias, quis conhecer Joana. E ela desabafou, contou tudo. João ficou surpreso e admirado com as revelações. Prometeu ajudá-la e inclusive jurou, dizendo que ela podia contar com ele.

 

É SUBMETIDA A UM EXORCISMO

Passaram vários dias. Numa tarde Joana e Catarina estavam fiando serenamente em casa, quando chegaram o senhor Robert de Baudricourt e o Padre João Fournier. Pediram para ficar a sós com Joana. A senhora Catarina concordou.

O Padre estava com a estola e logo, pronunciou uma oração forte de exorcismo, jogando água benta sobre Joana que estava de pé a sua frente. Séria e humilde permaneceu, e não aconteceu nada. Robert pensou que ela estivesse com o diabo no corpo por ter tido a audácia de ir encontrá-lo no Castelo e lhe dizer aquelas promessas de coroar o Rei em Reims. Mas a moça ali estava completamente tranquila, perfeitamente normal, com a fisionomia calma e com a simpatia de um Anjo de DEUS.

Meio sem jeito, o senhor Robert se despediu e saiu na companhia do Padre, certo de que Joana guardava um grande mistério. Chegando ao seu Castelo, escreveu ao herdeiro Carlos de Valois (o Delfim) narrando todo o caso. Dias depois, por um mensageiro chegou à resposta: “Que ele podia enviar a jovem a Chinon, pois desejava conhecê-la”.

 

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