SAGRAÇÃO DO REI

 

 

JOANA VISITA O DELFIM

Robert de Baudricourt preparou Joana dignamente: mandou tirar aquele vestido vermelho e lhe deu uma roupa de homem, com uma armadura especial. Ela ficou como um verdadeiro guerreiro que agora ia enfrentar uma viagem longa e difícil. Estamos em Fevereiro de 1429 e a jovem com a idade de 17 anos.

Depois de um trajeto que demandou muitas paradas pelas distâncias percorridas e pelo cansaço, inclusive usando desvios e atalhos, por causa de ladrões e bandidos, chegaram a Chinon, denominada a cidade do Rei. Ficaram todos numa hospedaria.

Lá, souberam das notícias, que o Duque de Borgonha e seu aliado inglês o Duque de Bedford já estavam senhores de quase toda a França. Só lhes faltava ocupar a região sul. Diante daquela noticia tão ruim, vendo a França quase que totalmente ocupada pelos ingleses, a chegada de Joana se tornava uma esperança.

Ela no seu quarto na hospedaria descansava e pensava na sua missão. De súbito o Arcanjo São Miguel lhe apareceu:

- “O Arcanjo lhe deu forças e lhe confiou uma grande revelação, “um segredo”, que ela irá contar ao Delfim, no momento oportuno, para provar, e ele ter a certeza, de que ela era enviada do Céu”.

No dia seguinte, pela manhã na hospedaria, João de Metz recebeu o comunicado do Delfim Carlos de Valois e, foi ao quarto avisá-la:

- “Joana, o Delfim vai te receber. A mensagem chegou agora”.

Ela montou o cavalo com sua Comitiva e seguiram para o Castelo. As portas do Palácio se abriram e ela caminhou na direção que o seu Anjo da Guarda lhe indicava. O salão estava cheio de cortesãos e todos já conheciam o assunto. O Delfim decidiu se disfarçar, ele estava no meio dos cortesãos com uma roupa que usavam na corte. Alguns nobres olhavam para Joana com naturalidade e respeito, outros olhavam com um olhar crítico, inclusive falando:

“O Rei é aquele lá no fundo de barba branca”.

Outros diziam: “É aquele ali a direita, meio careca”.

Ela não olhava para ninguém, seguia firme em frente, embora o Delfim não estivesse sentado num trono, como seria o normal. Lá no fundo do salão a direita ela parou bem defronte a um homem com veste igual aos dos outros cortesãos. Ela séria olhou para ele e fez a reverência cumprimentando o Rei. Ele ficou admirado e perguntou: “Como você me encontrou no meio da corte?” Ela não respondeu, apenas sorriu. O Delfim a levou para um canto da sala e conversaram bastante. Ele verdadeiramente estava impressionado e mantinha o olhar fixo na moça. E queria avidamente ter a certeza de que ela era a enviada de DEUS. Joana se lembrando das palavras do Arcanjo falou:

- “Em sinal de que venho da parte de DEUS, eu vos revelarei um grande segredo da vossa vida”.

O Delfim se aproximou curioso e ela falou exatamente à verdade que o Arcanjo lhe havia revelado. Ninguém conhecia aquele segredo, somente DEUS. O Delfim ficou parado e pensativo, era um mistério aquela jovem conhecer aquela verdade. Diante daquela realidade ele não precisava de mais provas, disse apenas a Joana:

-“Por favor, aguarde”.

Ela fez a reverência diante do Delfim e se afastou, enquanto na corte, homens e mulheres de todos os tipos, que observavam o diálogo dos dois, estavam intrigados, imaginando o que eles conversaram, isto por causa das diversas reações mostradas pelo Delfim...

Por ordem do Delfim, ela não voltou a hospedaria, ficou acomodada lá mesmo, no Castelo, na Torre denominada “Torre de Coudray”, uma construção onde também residia Guilherme Bellier, oficial da corte com sua esposa. Ela ficou acomodada em aposentos confortáveis, como se fosse um famoso guerreiro. Foi colocado ao seu serviço um pajem de 14 anos, Luiz de Coutes, que logo ficou gostando muito dela, servindo-lhe com prestimosa dedicação.

 

PLANEJAMENTO MILITAR

Dias após, Joana conversava com o Delfin sobre a invasão dos ingleses, veio ao encontro deles o Duque d’Alençon, famoso guerreiro, com muitos serviços prestados a nação. Os três caminharam para uma sala a fim de fazer planos, acompanhados pelo gordo “La Tremouille” que era o Conselheiro do Delfim e sua sombra. Juntos planejaram contra os ingleses. Joana falava firme e com convicção, sem a menor dúvida, guiada pelo Arcanjo e suas Santas favoritas. Falou sobre o estado atual da França. Insistiu na formação de um exército guerreiro. Os outros escutavam. E prometeu: "Haveria de expulsar os ingleses e conduzir o verdadeiro Rei da França para ser coroado, por que esta era a Vontade de DEUS."

A reunião terminou, mas o Delfim ainda estava com dúvidas, embora tivesse também alguma confiança na moça. E justamente a dúvida vinha por motivo da insistência dos Conselheiros que não acreditavam em Joana, e tanto insistiram que o Delfim decidiu mandar examiná-la por médicos, por doutores e Bispos experientes. E assim foi feito, e ela teve um desempenho admirável, respondendo a todas as perguntas com dignidade e correção, deixando todos os ilustres examinadores estarrecidos. Então se dissiparam as dúvidas, o Delfim criou coragem apesar das continuas conversas maliciosas dos Conselheiros, ordenando que preparassem a melhor armadura para Joana.

 

VESTIMENTA DE GUERRA

E por sua vez, ela viajou para Tour onde havia um famoso pintor. Mandou confeccionar um estandarte de linho branco, pintando de um lado a imagem de JESUS sentado num trono, com a mão direita levantada e a esquerda segurando o globo terrestre. Lateralmente ao SENHOR estavam dois Anjos, um de cada lado, ofertando-LHE uma porção de flores-de-lis. Do outro lado do estandarte, mandou pintar um escudo azul, com uma pomba de prata, trazendo no bico uma bandeirola com estas palavras: “Por ordem do Rei do Céu”. Pronto o estandarte, colocou-o numa barra de ferro.

Quanto à espada, ela pediu uma que estava enterrada na Igreja em Fierbois, ao lado do Altar de Santa Catarina. João Metz mandou um mensageiro aos Padres de Fierbois, que cavaram, encontraram e lhe enviaram a espada. Ela examinou-a: estava enferrujada, “cega” (sem corte) e velha (mal tratada). Entregou a João para mandar polir e prepará-la. E assim, tudo foi feito conforme o desejo dela.

 

DERRADEIRAS PROVIDÊNCIAS

Em Tours ela estava na hospedaria de João de Puy. Trouxeram para visitá-la o Padre Irmão Pasquerel, que ela gostou e no dia seguinte, se confessou com ele na Igreja. Desde aquele momento Padre Pasquerel não abandonou mais a Comitiva de Joana.

Finalmente, no último encontro com o Delfim Carlos, ela disse: “Haverei de salvar Orléans e por os ingleses em fuga. Quando eu estiver na cidade, uma flecha me ferirá, mas não de morte. E neste mesmo verão, o senhor será coroado em Reims”.

Reuniu todos os soldados num local pré-escolhido, onde ficaram acampados. Do alto da colina onde estava a sua tenda, Joana contemplava o acampamento e fazia planos com os comandantes das guarnições. Enviou uma carta aos ingleses oferecendo-lhes a paz, se eles abandonassem Orléans. A concentração é geral. Mandou chamar todos os Padres que acompanhavam as tropas, e ordenou que confessasse os soldados. Eles se ajoelhavam na terra e contavam no ouvido dos Padres os seus pecados, recebendo a misericordiosa absolvição Divina, através do Sacerdote. Joana passou a noite em orações. Os soldados descansaram. No dia seguinte ela vestiu pela primeira vez a sua linda armadura branca. Deu ordem aos comandantes e o grito de guerra. Iniciava a ofensiva para expulsar os ingleses de Orléans. Joana firme no seu cavalo, na frente do exército levava o estandarte, o Padre Pasquerel vinha logo atrás com João e Pedro, irmãos dela, que vieram de Domrémy. Os soldados cantavam e marchavam firme. O exército avançava.

 

 

LIBERTANDO ORLÉANS

Depois de três dias de caminhada, sempre à noite para não despertar a atenção do inimigo, chegaram a Porta Borgonhesa e praticamente já estavam diante de Orléans! Os ingleses vendo o exército francês fugiram para o outro lado. O exército de Joana entrou e ocupou a cidade, os ingleses desapareceram. Formou-se o desfile da vitória, chegando diante da Igreja de Vera Cruz, Joana apeou do cavalo e entrou na Igreja para orar e render graças ao verdadeiro SENHOR DOS EXÉRCITOS.

Chegando à noite os ingleses reagiram. Joana reuniu os seus soldados e atacou; depois de renhida batalha, conseguiu tomar o forte de St. Loup onde estava entricheirado o inimigo. Logo depois circulou noticias de que vinha reforço para os ingleses e que já estavam próximos a Orléans pela estrada de Paris. Ela juntou as tropas e foi enfrentar os ingleses em Tourelles. A batalha foi renhida. Joana é ferida no ombro por uma flecha (conforme sua Santa amiga lhe havia anunciado). Caiu ao chão, mas logo foi medicada. Depois de estancado o sangue, vestiu novamente a armadura e assumiu o comando, gritando e incitando os companheiros a atacar. Esqueceu o ferimento e corria de um lado a outro agitando o estandarte, despertando os franceses que caíram firme em cima dos ingleses, derrotando-os em Tourelles. Muitos inimigos morreram e bastante ingleses foram feitos  prisioneiros. As trombetas francesas soaram anunciando a vitória em Orléans. Joana é carregada numa rede, por que o ferimento doía. Finalmente chegou a Casa de Boucher onde estava hospedada e foi descansar, enquanto na rua o povo cantava feliz, gritava e assobiava, e os sinos das Igrejas badalavam nervosamente, anunciando alegremente a vitória alcançada. Orléans estava livre.

 

A NECESSIDADE DE JUNTAR O EXÉRCITO

Longe dali, no Castelo em Chinon, embora houvesse grande alegria, alguns Conselheiros que não apreciavam Joana, e principalmente o gordo “La Tremouille”, continuava a tecer intrigas e a fazer fofocas, colocando defeitos e criticando a Donzela, chamando-a de “vaqueira”.

Conforme o combinado, o exército devia ser reunido, e juntos, o Delfim e a moça, marchariam para a libertação de Reims. Mas o Delfim Carlos de Valois não se animava a viajar, não queria abandonar o seu conforto, e também por que era facilmente dominado em sua vontade, influenciado pelas sugestões dos seus Conselheiros, além de acolher as intrigas e fofocas que eles arquitetavam. Já havia passado um mês da tomada de Orléans e o homem não se decidia continuar a luta. Então Joana foi se encontrar com ele e pessoalmente insistiu que ele viajasse, a fim de que fosse sagrado e coroado em Reims. Isto ela falou educadamente, renovando firmemente os pedidos anteriores, mostrando-lhe que era a oportunidade certa dele se tornar o verdadeiro Rei da França.

O Delfim coçou o queixo ossudo e por fim, disse:

- “Está bem, vamos.”

 

 

LIBERTAÇÃO DE REIMS

Dia 9 de Junho de 1429, o exército do Delfim, junto com as forças armadas que estavam com Joana se uniram, e com todo exercito reunido, a grande comitiva do Rei se pôs em marcha. O grande exército parecia uma imensa cobra de aço que se estendia ao longo da estrada. A notícia se espalhou. O destino é Reims. Joana e seus cavaleiros: Pasquerel, d’Aulon, d’Alençon, La Hire e os pajens, seguem com o estandarte a frente da tropa. Acamparam perto de Jargeau, era o inicio da investida. Todos preparados partiram para cima dos ingleses. Foi uma abordagem firme e cheia de êxito.  O exército francês retomou a cidade.

No dia seguinte partiram cedo para tomar Meung. Foi outra batalha forte e outra vitória de Joana e dos franceses. E assim, com o mesmo espírito de luta, com garra e muita dedicação, os valorosos soldados franceses foram matando e expulsando os ingleses em Beaugency, Patay, Lignerolles e Auxerre.

O próximo objetivo era a cidade de Troyes, que estava bem guarnecida pelos ingleses e onde, Joana e os franceses, precisavam ocupar para reabastecer a tropa com boa e farta alimentação, pois já estavam escasseando os gêneros alimentícios. E foi uma batalha difícil e cheia de truques, mas Joana e os franceses venceram.

Agora, se podia dizer que Reims estava à vista, muito embora o exército francês ainda tivesse que realizar uma boa caminhada e passar por Châlons, que estava no meio entre Troyes e Reims, e também Châlons era uma cidade bem guarnecida. Mas, estando mais próximo de Reims, até o Delfim, com todo o seu medo e covardia, ficou animado. Assim, na hora certa, Joana e suas tropas avançaram firme invadindo Châlons, que na verdade não ofereceu resistência, o exército libertador logo alcançou a praça principal da cidade, e o Bispo de Chalôns se apressou em ir ao encontro do Delfim e lhe entregar oficialmente a chave da cidade. Então não houve vítimas.

E para surpresa geral, a cidade de Reims também não ofereceu qualquer tipo de resistência. Os mensageiros vieram e disseram ao Delfin, que as portas da cidade estavam abertas para receber o Rei. Todos ficaram satisfeitos e ela teve uma alegria especial: “Tinha cumprido a vontade de DEUS”.

Por isso, depois do jantar, Joana passeou a noite pela cidade, estava alegre e feliz, pois sua missão estava praticamente cumprida, só faltava à sagração do Delfim.

 

 

COROAÇÃO DO REI

Pela manhã, um dos irmãos de Joana chegou com a notícia de que o pai, senhor Jacques d’Arc estava em Reims. Tinha vindo para revê-la e assistir a coroação do Rei. Ela e o irmão saíram juntos para encontrar o pai. Foi uma imensa alegria que encheu os seus corações, traduzida por um abraço forte e cheio de ternura paterna e de sorrisos. Conversaram muito e mataram as saudades. E ali permaneceram por longo tempo.

Dia 17 de julho de 1429, nas ruas de Reims o povo formigava, todos querem assistir a passagem do cortejo. Festa de coroação é coisa rara, não acontecem todos os dias. Joana conversava com o seu Confessor Padre Pasquerel, e lhe diz: “Este é o dia mais feliz da minha vida”.

Nove horas da manhã, Carlos de Valois entra na Catedral, seguido por alguns pares do reino. Joana entra na Igreja com o seu estandarte e se põem ao lado do Delfim. E assim começa a cerimônia, o Arcebispo de Reims diz as primeiras palavras e passa para o Delfim, que promete não carregar o povo de impostos e promete governar com misericórdia e com justiça. O Arcebispo de Reims toma uma modesta coroa de ouro (por que a coroa magnífica de ouro e pedras preciosas estava em poder dos ingleses) e a colocou na cabeça do Rei. Um grande ruído no Templo, representado por aplausos, vivas ao Rei, um conjunto uníssono de vozes alegres explodiu de uma só vez. Parecia um gesto mágico, feito por todos ao mesmo tempo. “Carlos VII Rei da França” estava coroado.

Depois da cerimônia, aconteceu o notável banquete. Lá estavam todos felizes e muito alegres junto ao Rei, numa longa mesa: Sire de Rais, Capitão La Hire, o jovem Laval, La Trémouille, d’Aulon, d’Alençon, e muitos outros. De repente o Duque d’Alençon percorreu inquieto olhando as faces dos convidados... Onde está Joana d’Arc? D’Alençon procurou em vão. A Donzela não se encontrava entre os convidados para o banquete. Ele ficou triste e pensou: “Infelizmente começam a esquecê-la. È o princípio do abandono e quem sabe, se não é o início até da hostilidade?”

 

DEPOIS DA VITÓRIA

O Castelo em Reims era também muito confortável e o Rei Carlos VII quis aproveitar de todas as coisas boas, não queria saber de mais nada, e muito menos de guerra. Estava muito feliz e satisfeito pela coroação de Rei da França, agora queria descansar e aproveitar a vida. Paris estava muito longe.

Em Paris o Duque de Borgonha aliado com os ingleses, dominava a cidade e ele, muito esperto, conhecendo a vida tranquila e despreocupada do Rei, armou um plano, pois tinha receio do grande poder destruidor do exército francês, auxiliado pela “Donzela feiticeira de Domrémy”. Por isso, decidiu mandar uma embaixada a Reims para assinar um Tratado de Paz com o Rei. Quem recebeu os embaixadores do Duque de Borgonha foi o Conselheiro “La Tremouille”, o gordo terrível e ambicioso que dominava o Rei. E assim, combinaram vantagens financeiras dos embaixadores para ele, comentando que o Rei estava rico e não precisava de mais nada. Desse modo, conseguiram que o Rei assinasse um Tratado de Paz por 15 dias, com a intenção de preparar uma reunião com o Duque de Borgonha e os representantes do Rei Carlos, para assinar um Tratado de Paz por muito tempo. Não haveria mal-entendidos. Segundo os Embaixadores, todas as cidades que estavam com os borgonheses e ingleses, estariam com as portas abertas ao Rei.

Os oficiais do exército e Joana, ao tomarem conhecimento da assinatura daquele tratado, ficaram desconfiados e não gostaram, sobretudo, por que eles não foram consultados e isto, já representava certa malícia. E então, perceberam que estava acontecendo uma verdadeira trama do Duque de Borgonha através do Conselheiro gordo, para se aproveitarem da fraqueza do Rei.

 

CONLUIO EM PARIS

E na realidade era uma manobra. O Duque de Borgonha tratou de reforçar Paris concentrando tropas, estocando munições e alimentos para muitos soldados. O Inglês Conde de Bedford movimentou 5.000 homens para reforçar pontos estratégicos, enquanto o Duque de Borgonha, Felipe “o Bom” , agitava a população de Paris, colocando-a contra o Rei Carlos VII, lembrando o assassinato do seu pai, que era o verdadeiro Duque de Borgonha. E com este propósito, tecia toda a sorte de calúnias e maldades, incentivando o povo a matar o atual Rei Carlos VII.

Acontece que algumas destas notícias chegaram aos ouvidos do exército em Reims e eles não gostaram e decidiram caminhar a Paris, a fim de conferir, se realmente a cidade lhes seria entregue na paz.

 

MISSÃO DUVIDOSA

Todo o exército preparado saiu de Reims para a missão. Na frente Joana cavalgava com o estandarte, tendo ao lado o Duque d’Alençon, que a observando pensativa, procurou despertar o seu espírito infundindo-lhe animo. Mas Joana, embora tenha agradecido, continuou a pensar, pois tinha maus pressentimentos, enxergava pesadas sombras no seu caminho.

O grande exército chegou a St. Marcoul. Enviou uma intimação a cidade de Compiègne: ela deve abrir as portas ao Rei e ao seu exército. Foi prontamente acolhida a ordem e o povo recebeu o Rei com alegria. E assim aconteceu em diversas cidades. A seguir, Carlos VII e sua grande tropa entram em Soissons. Até aqui tudo tranquilo, sem novidades. Mas no acampamento militar uma nuvem de tempestade delineava os seus sinais. Em cada canto uma conspiração, uma idéia de ação, um plano diferente, um objetivo suspeito. Joana sente que está sendo traída. Os favoritos do Rei, “chefiados” pelo gordo Conselheiro “La Trémouille”, procuram desviar o exército da estrada de Paris. Traçam planos sem convidar Joana. E apesar dos insistentes apelos da moça guerreira, o exército “pelos seus Comandantes Conselheiros do Rei”, decidem seguir a rota sul. O próprio Comando Militar do Exército que estudava a situação, não vê lógica naquele procedimento, pois na verdade, aquilo representava um retrocesso, uma retirada de combate, um abandono do desejo correto de ir a Paris, a fim de, por direito, ocupar a cidade em nome do Rei Carlos VII. Mas, ele mesmo, titubeante, sem muita vontade, mantinha-se desanimado. Mas, tanto foi pressionado que, o Rei acabou concordando, e o exército reiniciou a caminhada para Paris. E logo chegaram a St. Denis, que está a duas léguas da cidade. Oportunidade em que Joana e os comandantes começaram a fazer estudos dos locais, a fim de escolher o melhor lugar para o ataque de entrada, se fosse o caso, ou seja, se a cidade não fosse aberta ao exército e ao Rei conforme o Duque de Borgonha e os ingleses prometeram no “Tratado de Paz”.

Enquanto isso, lá atrás em Compiègne, onde o Rei permaneceu com a Comitiva, mais uma vez foi convencido pelos seus Conselheiros, e principalmente pelo “gordo”que estava ganhando dinheiro do Duque de Borgonha, e que por isso mesmo, se esforçava para que as tropas não entrassem em Paris, dizendo que como havia terminado a paz de 15 dias, primeiro era necessário ser assinado outro “Tratado” com os borgonheses, pelo prazo de um ano, constando:“que durante a trégua o Duque de Borgonha teria o direito de defender a cidade contra todos aqueles que lhe fizessem guerra”. E o Rei, sem consultar os seus oficiais, assinou o documento.

Joana e o Comando Militar não conseguiram entender aquela atitude do Rei! Um absurdo! Então, ficou quieta num canto, pensou e pensou, e entendeu que havia um complô, sentiu que havia uma forte traição, chamou os militares e decidiram: “rumo a Paris”. Eles agilizaram as providências e iniciaram a marcha. Mas Joana estava triste, vê que conspiravam contra ela. Vão a caminho de Paris, mas agora com outra disposição, inclusive com uma formação diferente, os grandes capitães cavalgam em fila todos na frente, e deixaram ela longe de todos, como se não pertencesse ao exército. Faziam reuniões e planos, e não a convidavam a participar. Ela permaneceu silenciosa e triste.

Os Conselheiros do Rei, encabeçados pelo “gordo” , se reuniram com os militares e com muito jeito, os fizeram compreender que a vontade do Rei não era de atacar Paris, pois segundo o Tratado que assinaram, as portas da cidade estão abertas à ele e ao exército.

 

MELANCÓLICO FINAL

E por essa razão, os Oficiais obedientes aos Conselheiros do Rei ordenaram a nova direção da tropa, rumo ao sul. Joana sofria ao ver tanta incompreensão, insistia com os militares, mostrando que aquilo representava uma vergonhosa desistência de combate, para um exército poderoso como era de fato o exército francês!

Com pouca vontade, até com preguiça de lutar, por fim, o exército retomou o caminho de Paris e chegou às portas da cidade. Mas o que Joana viu, ficou impressionada, não conseguiu entender: os oficiais na sua maioria, não revelavam aquele estimulo para o combate, aquela vontade patriótica de expulsar os ingleses e ocupar a cidade, faziam uma preparação lenta, incompreensível e totalmente diferente das outras batalhas. Conversados e instruídos pelos Conselheiros, segundo a vontade do Rei, ali chegaram, mas não para atacar Paris, pois os portões da grande metrópole lhes seriam abertos. E assim, depois de algumas fracas escaramuças, foi dada a ordem de retirada, como se o exército francês tivesse sido derrotado. Joana chorou de tristeza. A ordem era recuar até St Denis. Chegando a cidade, Joana completamente transtornada e muito triste, conduziu o seu cavalo até defronte a Catedral, apeou e entrou no Templo. Diante da imagem da VIRGEM MARIA, rezou e chorou muito. Arrancou a sua bela armadura branca e a colocou aos pés de NOSSA SENHORA, e saiu a pé pelas ruas, como qualquer jovem.

 

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