PRIMEIROS TEMPOS

 

FAMÍLIA

Joana nasceu no dia 6 de Janeiro de 1412, em Domrémy-la-Pucelle, uma pequena aldeia banhada pelo rio Meuse, situada no Departamento de Voges, região de Lorraine, no nordeste da França. Seus pais era o senhor Jacques d’Arc e a senhora Isabelle Romée, agricultores e cristãos fervorosos, que possuíam mais três filhos além de Joana: Jacquemin, Pedrinho e João.

 

POLÍTICA LOCAL

Apesar de ser interior, a política fervia e dominava a região, onde havia dois partidos que queriam impor as suas idéias e estabelecer a sua ordem. Então, aconteciam com frequência os calorosos entreveros, numa disputa brutal de idéias, a ponto de se agredirem mutuamente. Os habitantes de Maxey-sur-Meuse, aldeia próxima, situada do outro lado do rio Meuse, eram partidários do Duque de Borgonha, e por isso denominado borgonheses, contra os habitantes de Domrémy, onde morava Joana, que participavam do partido dos armanhaques (simpatizantes do Duque de Orléans). As duas facções eram compostas de homens ferozes que viviam raivosamente em permanente guerra.

A família de Joana não se preocupava com a política e vivia pacatamente no quotidiano, dedicado ao trabalho e a criação dos filhos. Com 9 anos de idade ela impressionava pelo seu porte mais desenvolvido e por sua constante atividade. Não era bonita, mas no meio das outras crianças se destacava e se impunha por sua simpatia e qualidades pessoais. Tinha um aspecto tranquilo e era uma mulher de decisão, com uma coragem que deixava todos admirados. Havia um amplo bosque bem próximo as Colinas de Domrémy, era famoso por que nele frequentemente apareciam lobos ferozes e vorazes. Ela não tinha medo, andava com o rebanho de ovelhas por toda aquela região, inclusive no bosque das Colinas. Os amigos e parentes comentavam a respeito do perigo em que ela se expunha. Joana respondia com muita convicção, de que o seu Anjo da Guarda estava sempre atento e não permitiria nenhum ataque e nenhuma agressão dos animais. Mas os amigos e parentes insistiam: “E as cobras, Joana?” E ela respondia com a maior tranquilidade, dizendo que se aparecessem, era para lamber os seus pés.

 

VISITA A NOSSA SENHORA

Tinha um excelente relacionamento com as outras crianças do vilarejo. Nas horas de folga, sempre estavam juntas e faziam as naturais brincadeiras próprias da idade.

Certo dia seu irmão João a convidou, assim como as crianças vizinhas, a visitar NOSSA SENHORA DE BERMONT, cuja bonita imagem ficava numa pequena Capelinha próxima ao povoado. E todos, cheios de um filial carinho pela nossa Mãe Santíssima, logo se apressaram em recolher na redondeza as mais bonitas flores para ofertá-las a VIRGEM MARIA, enfeitando a sua imagem que se apresentava com o MENINO JESUS ao colo sorrindo afetuosamente a todos os presentes. Com um jeitinho repleto de ternura, Joana colocou o seu buquê de flores aos pés da MÃE DE DEUS e disse para os amiguinhos: “NOSSA SENHORA DE BERMONT faz milagres. Os rapazes e as moças de Domrémy sempre vêm visitá-la e LHE fazem pedidos. E ELA maternalmente atende”.

Depois, se ajoelhou aos pés da imagem, num gesto atencioso que logo foi acompanhado por todos, e rezou em voz alta, pedindo saúde para ela e seus amigos; pediu também para que o seu pai tivesse uma boa colheita, e que a VIRGEM MARIA afastasse os lobos maus e todos os bichos perigosos de Domrémy.

Rezaram um PAI NOSSO e três AVE MARIA e se despediram de NOSSA SENHORA.

 

RIVALIDADE TAMBÉM NO COLÉGIO

Naquela época, Joana não estudava, não sabia ler e nem escrever. Assumiu a responsabilidade da casa dos seus pais, fazendo os serviços domésticos e cuidando das criações e dos animais. Ajudava também aos seus irmãos João e Pedrinho, acordando-os pela manhã e preparando a merenda que levavam para o Colégio em Maxey-sur-Meuse, do outro lado do rio Meuse, onde estudavam. Quase todos os dias, voltavam com as roupas sujas e às vezes esfarrapadas, por que brigavam com os outros rapazes da aldeia vizinha, brincando de guerra, atirando pedras e atracando-se a socos mutuamente. Comportamento agressivo justificado de certa maneira, por que moravam em aldeias litigiosas, onde viviam as famílias e os filhos dos homens que cultivavam a rivalidade política na região.

O outro irmão Jacquemin morava com o tio Henrique, irmão do seu pai, na aldeia de Sermaize-les-Bains, aproximadamente a 90 quilômetros de distância. O tio Henrique era sacerdote, vigário da Paróquia local.

 

UMA SURPRESA TERRÍVEL

Joana com 11 anos de idade acompanhava o viver em Domrémy do mesmo jeitinho: o senhor padre rezando as Santas Missas todos os domingos; os homens trabalhando na lavoura, comendo, rezando e dormindo; as comadres fiando, conversando e cuidando das suas casas; da mesma maneira que nasciam os bezerros e morriam as vacas; e cada bezerrinho que nascia, sem a menor dúvida, era mais um amiguinho para a menina Joana.

Normalmente ela saia com o rebanho de ovelhas, levando as suas “amiguinhas ovelhinhas” por todos os lados. Hoje está com o rebanho sentada a beira do bosque. Mas, de repente, as ovelhinhas começam a balar e a se aconchegar umas às outras. Joana se assusta e se ergue. As ovelhas tremem e soltam balidos lamentosos. Que será?

Um lobo enorme vem saindo do bosque, e vem vindo com passos ligeiros e dentes arreganhados. O berreiro das ovelhas cresce. Joana dá alguns passos para frente, na direção do lobo. Ela sabe que o seu Anjo da Guarda não lhe faltará. O lobo se aproxima. Joana corajosamente se aproxima na direção dele. Pára. O lobo continua a avançar. Está a cinco passos dela. Vai saltar. Joana permanece imóvel olhando firme no olho da fera. O lobo pára, rosna, meneia a cabeça, e com os olhos fixos em Joana, vai recuando e recuando, até sumir na floresta. Muita coragem, sem dúvida, mas foi um sufoco!

 

VISITA AO TIO HENRIQUE

No mês de Junho, Joana e Pedrinho combinaram e pediram autorização aos seus pais, para visitar o tio Henrique em Sermaize-les-Bains. Arrumaram a bagagem e no dia seguinte bem cedo montaram o burrinho, já devidamente preparado e enfrentaram a estrada. Ao entardecer, depois de várias paradas, chegaram a Sermaize. Tio Henrique recebeu-os sorridente e de braços abertos, da mesma forma, Jacquemin abraçou carinhosamente os irmãos com muita alegria. O tio é um homem alegre e simpático, e foi logo deixando as crianças com liberdade, dizendo: “Fiquem a vontade vocês estão em casa”.

À noite, depois do jantar, tio Henrique reuniu as crianças, como de hábito, para conversar e contar histórias. E Joana logo se adiantou e pediu: “Titio, por favor, conta a História de Santa Margarida, eu gostaria tanto de conhecer a vida dela”. E ele contou:

- Há muitos anos, numa cidade da Síria chamada Antioquia, nasceu Margarida. O pai se chamava Teodósio e era sacerdote dos gentios (ou seja, dos pagãos, povos bárbaros que adoravam ídolos e não seguiam a religião cristã). Margarida sempre guardava o rebanho de ovelhas do seu pai. Um dia, quando estava com 15 anos de idade, o Governador Olibrius viu a menina e ficou encantado com sua beleza. Retornando ao Palácio disse aos seus servidores:“Vão buscar aquela moça. Se ela for livre eu me caso com ela. Se for escrava, ficará sendo minha serva”.

Margarida foi trazida a presença do Governador. Ele perguntou:

- “Dize-me de onde é, qual é o teu nome e a tua religião?”

- “Eu me chamo Margarida de Antioquia e sou cristã.”

Olibrius fez uma careta e falou: “Como é que uma moça bonita e nobre como tu pode adorar o JESUS Crucificado?”

Respondeu Margarida com ternura: “JESUS não morreu, ELE vive eternamente na glória”.

Olibrius ficou irritado e mandou a moça para o calabouço. No dia seguinte a enviou ao Tribunal, dizendo-lhe: “Criatura infeliz, tenha piedade da tua própria beleza. Adora os nossos deuses, por que assim poderás aproveitar melhor esse lindo rostinho que tens. Mas se insistes em adorar O Crucificado, eu mando rasgar o teu corpo!”

Margarida não se perturbou e com grande calma lhe respondeu: “JESUS morreu por minha causa, para me dar condição de vida eterna: eu quero morrer por JESUS”.

Então, o Governador mandou amarrar Margarida em cima dum cavalete de madeira. Uns homens fortes e brutos a golpearam lanhando o seu corpo a chicotadas. Outros homens mais brutos e mais fortes lhe rasgaram as carnes com pontudas unhas de ferro. O sangue jorrou do corpo da jovem. Os que assistiam aquele suplício choravam de pesar. O próprio Governador chegou cobrir a face para não olhar, e num gesto desesperado, mandou parar, ordenando que a moça fosse desamarrada e levada de volta a prisão.

Deitada num monte de feno, coberta de chagas e cheia de dores, foi tentada pelo demônio. Reuniu suas forças, ajoelhou e suplicou a DEUS que lhe fizesse ver o inimigo que tinha de combater. De repente surgiu diante dela um enorme e horrendo dragão azul e amarelo, que avançou vomitando fogo e querendo devorá-la. Margarida fez o sinal da Cruz e o mostro desapareceu.

No dia seguinte, no Tribunal, diante do Juiz e do povo, ela foi intimada a adorar os ídolos. Margarida se recusou. Então o Juiz mandou queimar o corpo dela com tochas de fogo incandescente. A fisionomia da moça parecia não demonstrar a menor dor. Espantados diante daquela realidade, diversas pessoas gritaram: “Milagre! Milagre!”

O Governador Olibrius raivoso e desconcertado ordenou que ela fosse decapitada.

O carrasco cortou-lhe a cabeça com um só golpe. A alma de Margarida voou para o Céu, transformada numa linda pomba. Muitas daquelas pessoas que presenciaram o suplício da moça se converteram na religião da Donzela de Antioquia.

 

 

Quando o Padre Henrique terminou a narrativa, Joana que acompanhava atenciosamente as palavras do seu tio estava comovida e com os olhos repletos de lágrimas. Ela cultivava há alguns anos, uma grande simpatia por Santa Margarida, como também, gostava de Santa Catarina de Alexandria. A vida de Catarina ela já conhecia e se recordava da coragem e grandeza da sua fé demonstrada publicamente no final da sua vida, quando também morreu decapitada por que não quis se submeter à ordem do Imperador Maxêncio, que lhe ordenou adorar os ídolos pagãos. Agora, com o conhecimento do martírio de Santa Margarida, a sua simpatia e sua amizade ganharam tonalidades mais expressivas e muito mais amorosas, pelas duas Santas da sua predileção, por que elas morreram por amor a JESUS.

Antes de dormir, Joana se ajoelhou ao lado da cama e com as mãos unidas olhando para um crucifixo pediu a DEUS, que lhe desse a coragem e a fé que Santa Catarina de Alexandria e Santa Margarida tiveram no momento crucial da vida.

 

NOVAMENTE EM CASA

De volta a Domrémy, retomou as suas atividades do quotidiano. Mas, agora, antes de iniciar o trabalho, ia a Igreja de São Remígio todos os dias, e se ajoelhava diante das imagens de Santa Catarina de Alexandria e de Santa Margarida, renovando o pedido que fez diretamente a NOSSO SENHOR, na última noite que passou na casa do tio Henrique.

Mas as coisas começaram a mudar; no lugarejo não havia mais sossego. A guerra entre os borgonheses e armanhaques começou a ganhar uma coloração mais violenta. Os bandos invadiam as propriedades, roubavam o gado, batiam ou matavam o proprietário e levava tudo o que queriam. Às vezes até queimavam as casas e o estábulo. A serenidade local desapareceu como num passe de mágica, ninguém conseguia dormir tranquilo na aldeia de Joana. Ela olhava tudo aquilo com os olhos espantados e não compreendia a crueldade dos homens. Medo ela não tinha, enfrentava qualquer parada, por que tinha fé em DEUS. Mas lhe dava pena ver sua pobre aldeia saqueada pelos soldados malvados.

De repente, tio Henrique chegou de viagem trazendo noticias que também Sermaize-les-Bains foi totalmente saqueada e seus paroquianos maltratados e roubados. À noite, sentados a mesa: papai Jacques, tio Henrique, Padre Frontey de Domrémy que veio visitar Padre Henrique sabendo da sua presença, juntos com mamãe Isabelle, conversaram animadamente sobre os acontecimentos. Joana num canto da sala ouvia toda a conversa em silêncio, querendo entender o assunto. E logo terminada a reunião, Joana interessada em saber dos detalhes, para poder entender o intrincado problema, foi ao encontro do tio Henrique e lhe pediu que explicasse as minúcias dos fatos, por que ela não estava conseguindo compreender o problema na sua totalidade. E o tio falou:

 

A GUERRA DOS 100 ANOS

A França tinha um Rei chamado Carlos VI que verdadeiramente era “um louco”, só pensava em riquezas e divertimentos, sem qualquer responsabilidade. Quando completou 21 anos de idade, o Rei colocou como seus conselheiros os “Marmousets”, que governaram direitinho, mas facilmente perdiam a cabeça, por que eram nervosos e não entendiam muito de administração, e aí, todo o mundo começou a querer mandar na França. Virou uma anarquia, uma grande confusão. De um lado o Duque de Borgonha e do outro o Duque de Orléans, cada um queria ser o dono do país. Em 1407 Luiz de Orléans foi assassinado. E por causa dessa morte estourou a guerra entre os armanhaques (simpatizantes do Duque de Orléans) e os borgonheses (grupo do Duque de Borgonha). Nessa bagunça, o Rei da Inglaterra Henrique V, que era muito sabido, se aproveitou da situação fazendo amizade com o Duque de Borgonha, que era chamado de “João Sem Medo”, e combinou com ele invadir a França. Assim, o Duque de Borgonha aliado aos ingleses foi vencedor de muitas batalhas e ocupou Paris, onde ficou governando em nome de Carlos VI.

Acontece que o Duque de Borgonha (o João Sem Medo), era um homem esclarecido e inteligente, percebeu que era melhor governar sem inimigos, e assim, propôs a paz aos armanhaques, que tinham em seu poder o “Delfim Carlos”, que era o natural herdeiro do trono francês, pois era filho do rei Carlos VI “o maluco”. Então, combinaram um encontro numa ponte em Paris, para tratarem da paz. Aconteceu que os armanhaques ao invés de irem com a intenção de fazerem a paz, prepararam uma armadilha e assassinaram o Duque de Borgonha (o João Sem Medo).

Com a morte do “João Sem Medo”, o seu filho Felipe, denominado “o Bom”, foi quem ficou como o novo Duque de Borgonha, e que logo renovou com a Inglaterra o tratado amigável que seu pai tinha feito com o Rei Henrique V. Por outro lado, com o objetivo do tratado ser mais firme, Henrique V da Inglaterra tinha que se casar com a francesa Catarina, também filha de Carlos VI, “o louco” que era o Rei da França. Assim o inglês Henrique V, que era Rei da Inglaterra, ficaria também como Rei da França, e o “Delfin Carlos de Valois” perderia o trono. Todavia aconteceu um grande imprevisto, o Rei Henrique V logo morreu e dois anos depois também morreu o Rei maluco Carlos VI.

Então, seguindo a linha sucessória da realeza na França, o filho do “louco” , ou seja, o “Delfim Carlos de Valois” ficou como natural herdeiro. Todavia, o Delfim tinha um gênio tranquilo demais, era muito “sossegado”, puxou o gênio do pai. Vivia enfiado no Castelo em Bourges, sem querer saber de nada; era um sujeito mole, desanimado e sem energia. Na verdade, esperava a chegada de um homem forte que amasse e respeitasse a França e o levasse a Reims, para colocar a coroa em sua cabeça desmiolada. Mas ninguém tinha a coragem para fazer isto, e então, os ingleses tomaram conta de tudo. O Duque de Borgonha, ligado aos ingleses, tinha um aliado forte, o Duque de Bedford, que se tornou o Regente da França por ordem do Rei da Inglaterra, Henrique VI. Ele é quem falava forte e mandava, ninguém tinha a coragem de enfrentá-lo. Este era o panorama da realidade política no país.

 

 

O pai de Joana, que estava ao lado ouvindo toda a história em silêncio, por fim falou:

- “Há uma profecia que diz: a França desgraçada por uma mulher será salva por uma donzela.”

Padre Henrique ergueu os olhos ao Céu e disse:

- “Se DEUS assim quiser, assim será.”

 

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