PRIMEIROS ANOS

 

BUSCA DO IDEAL

Bento nasceu no ano 480 (segundo a maioria dos historiadores) em Núrsia, um vilarejo no alto das montanhas, próximo a cidade de Espoleto, na Itália, filho de nobre romano, que tinha sólida condição financeira. Com ele nasceu uma irmã gêmea, de nome Escolástica, que se consagrou a DEUS desde criança. Começou os primeiros estudos na sua região e com a idade apropriada, foi enviado a Roma a fim de estudar filosofia e retórica. Todavia, conheceu a degradação econômica e social da cidade, observando a triste decadência moral reinante, e que muitos dos seus colegas acolheram se enveredando pelo caminho do vício e da perdição, ele que desde a infância buscou preservar uma íntegra dignidade pessoal, sentiu-se amedrontado e apavorado de viver naquele ambiente, percebendo aquelas mentes totalmente distorcidas e transviadas, distantes da verdade, temeu que através do progresso do conhecimento e da ciência, fosse também envolvido no abominável abismo que se descortinava a sua frente.

Com 17 anos de idade desprezou os estudos, abandonou a casa paterna e os bens dos seus pais, no desejo de somente servir a DEUS, completamente indiferente ao conhecimento e ao progresso do mundo, decidido a exercitar a religião no santo hábito do monaquismo (hábito monacal, relativo a vida solitária). Sua mãe, preocupada, embrulhou um pouco de dinheiro e lhe cedeu uma ama que o ajudou desde criança, para lhe servir de companhia na trajetória que ele ia seguir.

Caminhando, chegaram a cidade de Enfide, atual Affile, a 60 quilômetros de Roma, aonde encontraram pessoas amigas e caridosas, que lhe permitiram morar numa pobre casinha junto a Igreja de São Pedro Apóstolo. Isto aproximadamente no ano 500 da nossa era.

Ali, ele se dedicava a oração e a prestar serviços a quem necessitasse. Certo dia, a ama pediu as vizinhas, que lhe emprestasse um crivo (vaso de barro com orifícios para peneirar), uma peneira de barro cozido para limpar o trigo. Tendo, porém, colocado o utensílio de modo descuidado sobre a mesa, o crivo caiu e se quebrou em duas partes. Logo que voltou para continuar o trabalho de peneirar, vendo o que aconteceu, ficou nervosa e muito aflita, chorando sem saber o que fazer. Bento ao regressar a casa, observando a ocorrência, ficou compadecido pela dor da aia, pegou os dois pedaços do crivo e foi rezar em seu quarto. Quando se ergueu da oração, viu o utensílio absolutamente perfeito ao seu lado, sem qualquer sinal de que tivesse quebrado e emendado. Então, o levou a ama. Ela, de joelhos, agradeceu a bondade de DEUS e devolvendo o crivo, fez questão de contar o fato a sua vizinha. A notícia se espalhou pela pequena cidade, deixando todos os habitantes admirados com o milagre acontecido. E por isso, penduraram  o crivo na porta da Igreja, a fim de que todos soubessem e louvassem o grau de perfeição espiritual que Bento havia atingido, alcançando o favor da graça Divina.

 

O EREMITA

Todavia, Bento não desejava publicidade e nem evidência, se ocultava para não receber elogios e poder realizar o trabalho de DEUS. E por essa razão, decidiu fugir ocultamente da ama, caminhando sozinho para um local montanhoso e repleto de rocha na região de Subiaco, a cerca de 40 milhas de Roma. Durante a fuga encontrou o Monge Romano e conversando com ele, manifestou o desejo de viver uma vida de eremita. Romano deu-lhe o hábito de monacato e lhe serviu como podia. Chegando ao local, um lugar selvagem de difícil acesso na base de uma imensa rocha, se instalou na gruta que ali existia. Ali rezava e fazia muitos sacrifícios para consolar DEUS pelos pecados do mundo. Romano que vivia num Mosteiro próximo sob a direção do Padre Adeodato, quase todos os dias ia ao encontro dele e levava a parte do pão que conseguia economizar, para servir ao amigo Bento. Mas não havia um caminho entre o Mosteiro e a gruta onde estava o Santo, era um local verdadeiramente inacessível, na base de uma imensa rocha de difícil acesso. Romano quando chegava para ajudar o amigo, do alto da pedra descia o pão pendurado numa corda bem comprida, aonde colocara uma campainha, a fim de que o homem de DEUS ouvisse o som e saísse da gruta para recolher o alimento.

Certo dia, o demônio invejoso, arrumou um jeito de danificar a campainha, para que Bento não ouvindo o som não recebesse o pão. Romano não perdeu a tranquilidade e, com sabedoria inovou outros meios de fazer chegar o pão ao amigo Bento.

 

SENDO CONHECIDO

Todavia, NOSSO SENHOR determinou que havia chegado a hora do Santo homem ser mais conhecido e procurado pelas pessoas. Em outro local distante, numa pequena cidade, na época da Semana Santa, um presbítero, homem de conhecida fidelidade religiosa, agilizava providências no sentido de preparar para sua satisfação, uma saborosa Ceia Pascal, a fim de comemorar dignamente a Ressurreição do SENHOR. JESUS apareceu e lhe disse:

- “Preparas delícias para o seu próprio gozo, enquanto o meu servo que está sozinho numa distante gruta é atormentado pela fome”.

O sacerdote, após as celebrações religiosas que devia cumprir no dia da solenidade da Páscoa, imediatamente saiu com os alimentos que preparara para si, na direção indicada por JESUS, procurando o homem de DEUS através dos vales e montes escarpados da região do Subiaco, até que o achou escondido naquela gruta, na base de uma imensa rocha. Depois de rezarem e bem dizerem a DEUS todo-poderoso, enquanto aqueciam o alimento, louvavam o SENHOR por tão misericordioso carinho. Depois fizeram a refeição juntos. Assim que terminaram, o Padre voltou ligeiro para a sua Igreja.

Por esta mesma época, alguns pastores que já tinham ouvido comentários a respeito do Santo homem, também encontraram Bento na gruta e, maravilhados com suas orientações e ensinamentos, espalharam a sua fama de santidade em toda aquela região. Desde então, Bento passou a ser visitado com frequência, muitas pessoas vinham e traziam refeições e agasalhos para o corpo, e recebiam em troca, bem no fundo do coração, conselhos, ensinamentos e uma segura direção espiritual, verdadeiro alimento da vida que procedia dos lábios do santo para a alma do peregrino.

 

SATANÁS QUER INTERFERIR

Habitualmente Bento rezava e fazia todos os tipos de sacrifícios com o objetivo de consolar o SENHOR DEUS e purificar o seu espírito. Numa ocasião em que rezava “o tentador” surgiu sob a forma de um pássaro negro, que voou bem ao redor dele e depois em vôo rasante ao redor do seu rosto, tão perto, que se ele quisesse, poderia pegá-lo com a mão. Mas, ao invés de segurá-lo, fez o Sinal da Cruz, e o pássaro imediatamente se afastou.

Todavia, assim que a ave desapareceu, sentiu uma grande e terrível tentação carnal, como nunca sofrera. O fato estava ligado a um acontecimento do passado, quando bem jovem chegou a Roma para estudar e conheceu uma mulher. Então o abominável espírito maligno lhe fazia lembrar aquela ocasião, trazendo o acontecimento aos olhos do espírito, inflamando de tal modo o coração do servo de DEUS com a lembrança da formosura da mulher, que seu peito mal podia conter as labaredas do amor, chegando a pensar inclusive em abandonar a gruta, vencido pela indômita paixão. Mas, eis que de repente foi contemplado pela graça do SENHOR e voltou a si, vendo nascer e crescer rapidamente, ao lado da entrada da gruta, densas moitas de urtigas e de espinhos. Com ligeireza, tirou a roupa e mergulhou decididamente sobre as urtigas e os espinhos, se revolvendo encima deles por um bom tempo, e quando saiu, seu corpo estava completamente ferido e chagado, e dessa forma, expulsou a volúpia do corpo, pelas feridas da carne; apagou as chamas do espírito que ilicitamente lhe queimava, vencendo a força do pecado. A partir desta época, conforme ele mesmo dizia aos seus Discípulos, jamais sentiu a tentação da volúpia carnal.

E deste modo, livre da diabólica tentação do sexo, tornou-se mestre das virtudes. A fama das suas virtudes foi divulgada em todas as regiões, ficando célebre o nome do Monge Bento.

 

CONVIDADO A DIRIGIR UM MOSTEIRO

Havia, a certa distância de onde o Santo se encontrava instalado, em Vicovaro no norte da Itália, um Mosteiro cujo Abade falecera. Toda a Comunidade conhecendo a sua fama de santidade foi visitar o venerável Bento e insistentemente o convidaram para assumir a direção do Mosteiro, ficando como chefe da Comunidade Religiosa. Bento recusou o convite por muito tempo, argumentando que não poderia harmonizar os seus costumes com os costumes daqueles irmãos. Mas a insistência dos irmãos foi tão grande, que depois da oitava tentativa ele acabou aceitando.

Acontece, que logo com pouco tempo de vivência das “Normas Regulares” que ele estabeleceu para o Mosteiro, não permitindo que ninguém por ações ilícitas, se desviasse do caminho monástico, muitos irmãos da Comunidade se encheram de fúria reclamando do rigor do Estatuto. E puseram-se primeiro a se acusar a si mesmo, considerando-se verdadeiros idiotas, por terem pedido e insistido a fim de que Bento os regesse, por que as suas vidas tortuosas iam justamente à oposição da norma correta estabelecida pelo Novo Abade. E por isso mesmo, como viam que o ilícito que praticavam no passado, agora já não lhes era permitido, e como lhes doía abandonar os antigos hábitos, decidiu tramar a morte do Abade Bento. Combinados entre si colocaram veneno no vinho dele. Quando apresentaram a Bento, sentado à mesa, a taça com a bebida mortal, ele estendeu a mão e fez o Sinal da Cruz. A este gesto, no mesmo instante, a taça com o veneno estalou e se fez em pedaços, derramando a bebida sobre a mesa. Diante do silêncio e espanto de todos da Comunidade, o homem de DEUS logo compreendeu que o copo continha uma bebida mortal. No mesmo instante se levantou e com tranquilidade, falou:

- “DEUS tenha compaixão de vós, irmãos. Por que quisestes fazer isto comigo? Não vos disse, previamente, que não se harmonizariam com facilidade os vossos e os meus costumes? Ide, e procurai para vós um Pai consoante à vossa vida. Depois disto já não me podereis reter aqui”.

E voltou para o seu recanto na dileta e querida solidão sob os carinhosos e misericordiosos olhares de DEUS. Naquela gruta Bento viveu três anos.

 

COMEÇO DA OBRA '

E como viveu muito tempo naquela existência solitária, crescendo em virtudes e milagres, no ano 503 recebeu muitas pessoas que vinham rezar com ele, e gostavam de permanecer junto dele, sendo instruídos no amor a DEUS. Então, Bento decidiu prepará-las para o serviço do SENHOR, organizando uma colônia monástica. E assim, pode construir com a ajuda de JESUS, NOSSO SENHOR, doze Mosteiros, colocando em cada um, 12 Monges sob o comando de um Abade. E também, conservou consigo alguns rapazes, que julgou conveniente prepará-los pessoalmente.

Por essa época também, começaram a vir de Roma pessoas nobres e piedosas, trazendo seus filhos, a fim de que o Mestre Bento os criasse para DEUS. Foi à oportunidade em que o nobre Equízio entregou o seu filho Mauro e, o nobre Terttulio trouxe o seu filho Plácido, este em idade infantil. Mauro já era adolescente e se distinguia pelos seus bons costumes, e desse modo, logo começou a prestar auxílio ao Mestre.

Num dos Mosteiros da Comunidade havia certo Monge que não conseguia permanecer em oração. Logo que os Irmãos se ajoelhavam para rezar, ele saía do Oratório e ficava do lado de fora, vagando pelas proximidades, com a mente pensando em coisas mundanas. Admoestado várias vezes pelo seu Abade, foi por fim conduzido a presença do homem de DEUS, que lhe admoestou severamente e com veemência, pela sua insensatez. De volta ao seu Mosteiro, todavia, mal conseguiu observar os conselhos e repreensões do homem Santo por dois dias, logo ao terceiro dia recaiu no velho hábito. Quando o Abade do Mosteiro contou isto ao homem de DEUS, Bento disse: “Irei eu mesmo, e pessoalmente o emendarei”.

O Mestre Bento foi ao Mosteiro, e na hora marcada, quando os Irmãos Religiosos iam para a Capela rezar, ele observou que o tal Monge que não conseguia ficar rezando era arrastado por um negrinho que o puxava pela orla do hábito. Bento perguntou a Pompeiano, que era o Abade daquele Mosteiro, e ao religioso Mauro, se eles viram o negrinho! Diante da negativa deles, convidou-os a rezar suplicando a Luz do ESPÍRITO SANTO, dizendo:

- “Oremos juntos para que veja também, quem é que este Monge está seguindo”.

Dois dias depois, o Monge Mauro conseguiu observar o negrinho e avisou ao Mestre Bento. No dia seguinte, pela manhã, quando saia do Oratório depois do Ofício, o homem de DEUS viu o referido Monge em pé, do lado de fora da Capela. Arranjou uma boa vara e lhe bateu de rijo, por causa da cegueira do seu coração. Assustado, o Monge se afastou rapidamente dali. Mas foi o suficiente. Desde este dia o Monge não se deixou induzir pelo negrinho, que desapareceu do Mosteiro, e o Monge permaneceu fiel a oração e a Regra da Comunidade. O “antigo inimigo” sob a forma de um negrinho, não mais se atreveu a dominar o pensamento do Monge, se portando como se fosse ele quem tivesse recebido aquela bela pancada.

 

 

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