CARIDADE E VIGOR

 

 

CHEGANDO A MÂNTUA

Mântua era conhecida como a cidade dos Gonzagas, porque em 1328, Ludovico Gonzaga a ocupou e se tornou senhor absoluto, começando um domínio secular da família que se estendeu até 1707. A cidade alcançou o seu esplendor com os Gonzagas e se transformou em um dos mais importantes e famosos centros artísticos e cultural da Renascença italiana.

No dia 18 de Abril de 1885, o novo Bispo, Dom José Sarto tomou posse na Diocese de Mântua. Embora, não nos esquecendo das considerações anteriores sobre a vida em Mântua, verdade é, que um jornal da cidade deu destaque a chegada do novo Bispo, inclusive relatando com evidência, de que se tratou de uma entrada verdadeiramente triunfal, e que ele foi recebido por todas as autoridades religiosas da região. O povo na praça defronte a Diocese, não podendo ver o Prelado porque não puderam se aproximar gritou em coro: “Queremos ver o nosso Bispo”. Ele, emocionado, gentilmente apareceu no balcão central do prédio e agradeceu com gestos afetuosos, e também abençoou os fiéis diocesanos.

Na cidade, por uma coincidência toda especial, há 20 anos morava um irmão dele, o Ângelo Sarto, que era carteiro. Vivia sozinho, porque sua esposa havia falecido e os filhos criados trabalhavam em outras regiões.

 

PROCURANDO ORGANIZAR A DIOCESE DE MÂNTUA

Dom Sarto, sempre muito piedoso, com uma fé imensa esqueceu as tristes histórias da cidade e partiu firme, para conquistar a população. Os boatos já circulavam dizendo de seu carinho imenso pelo povo das cidades onde trabalhou. E ele, com mais disposição abriu as portas da Diocese para todos, que recebia, com paciência, caridade e muito amor. Queria ajudar a todos, sem distinção, suplicando apenas que eles amassem DEUS.

Encontrou um clero reduzido e sem estímulo, havendo paróquias sem párocos, campos amplos e bonitos sem cultura e um povo, de um modo geral passando necessidades. Ele, além de cativar o povo com fidelidade, procurou também ser amigo dos Sacerdotes que existiam, apoiando o trabalho que realizava e, sobretudo, com carinho e amizade, recomendou a catequese das crianças e dos adultos, convergindo prioritariamente o objetivo para a Primeira Eucaristia e ensinamentos para uma continuidade no viver, com os fiéis recebendo JESUS Sacramentado nas Santas Missas, como força geradora de saúde, disposição de trabalho, seriedade nos compromissos, fraternidade em grau elevado e amor.

Abriu o Seminário que esteve fechado durante muitos anos por causa das perseguições políticas, divulgou intensa propaganda no meio cristão visando despertar as famílias para encaminhar os filhos que revelassem interesse em se tornar sacerdote, e também, ele assumiu a responsabilidade de ministrar as aulas de Teologia Dogmática. Queria que a doutrina e o método de São Tomás de Aquino fossem seguidos pelos Padres e Seminaristas.

E aos poucos apareceram os novos Seminaristas, o povo cristão passou a ajudar com disposição e seriedade, dando condições ao Seminário de voltar a funcionar como nos bons tempos.

Convocou um Sínodo Diocesano, que não acontecia há dois séculos, para melhor conhecer os problemas da Diocese e poder projetar os caminhos, a fim de alcançar os recursos no sentido de solucionar todos os casos. Reuniu-se de 10 a 12 de Setembro de 1888, dele participando 200 Sacerdotes.

Do Sínodo resultou a “Magna Carta”, que normalizava e atualizava as linhas de ação da Diocese e corrigia os erros acumulados ao longo dos anos. Sua atenção no Sínodo estava voltada para o Catecismo, que foi a sua maior preocupação, porque sem ele, o povo cristão não conhece DEUS e nem os Mandamentos Divinos. Recomendou também a Comunhão Eucarística frequente, como sólida providência para a regeneração da sociedade. E por isso também recomendava aos seus Párocos que incentivassem e admitissem as crianças à mesa Eucarística. Elas são as raízes que poderão proporcionar uma solida sociedade cristã.

Ficou satisfeito no final do Sínodo, ao sentir que os seus Sacerdotes estavam muito mais unidos a ele.

Dom Sarto incentivou a Ação Católica nascente e em 29 de Dezembro de 1889, teve uma atuação importante na Constituição da União Católica Italiana de Estudos Sociais.

 

CARDEAL PATRIARCA DE VENEZA

No dia 31 de Dezembro de 1891 morreu o Cardeal Domenico Agostini, que foi Patriarca de Veneza desde 1877. Para sucedê-lo o Papa Leão XIII chamou o Bispo Dom Sarto, que na verdade não desejava sair de onde estava, mas para atender a ordem e o chamado do Sumo Pontífice, aceitou.

No Consistório do dia 12 de Junho de 1893 o Papa sancionou o decreto criando Cardeal, o Bispo Dom Sarto. Três dias depois Leão XIII o nomeou Patriarca de Veneza e lhe disse que era um presente escolhido pelo seu coração, em face do trabalho exemplar que ele realizou em Mântua. E de fato, os 9 anos que passou em Mântua re-organizou de maneira admirável a Diocese, e o povo, na sua maioria, com alegria e devoção saiu do marasmo da indiferença e voltou a cultivar com fervor a religiosidade cristã.

Mântua recebeu o seu Bispo tornado Cardeal com muita alegria e estrondosas manifestações de apreço. Ele gentilmente, da sacada da Diocese agradeceu sorridente e com muito amor, abençoou o povo que voluntariamente se prostrou de joelhos para receber o sinal da Cruz do SENHOR rezada pelo novo Cardeal da Igreja.

Mais emocionante foi a sua visita a Riese, terra Natal, para rever os familiares, parentes e amigos, e principalmente abraçar sua velha mãe. Dona Margarida só chorava agradecendo a DEUS. Passou a noite junto da família. No dia seguinte, celebrou a Santa Missa na Igreja Paroquial e regressou a Mântua.

Dona Margarida viveu muito pouco depois daquele memorável dia. Em 2 de Fevereiro de 1894, aos 81 anos de idade, entregou a sua alma a DEUS.

No dia 24 de Novembro de 1894, o Cardeal José Melchior Sarto tomou posse na Arquidiocese Patriarcal de Veneza para grande júbilo do povo, pois sua fama já havia chegado ao conhecimento da maioria.

 

REALIZANDO O TRABALHO

Nas primeiras cartas pastorais, assinalou os males da sociedade e os remédios necessários a combatê-lo, realçando com evidência que a ignorância da religião conduz ao desprezo e a perda da fé. Que a educação religiosa é necessária e fundamental a todas as pessoas, de todas as idades, porque não se consegue amar a DEUS quem não conhece o SENHOR e não lhe dá a devida e necessária atenção. Ele estimulou a Catequese em todas as idades, como fez em Tombolo, Salzano, Treviso e Mântua.

Cuidou também com muita dedicação do Seminário, porque sempre quis que os seus seminaristas tivessem uma ampla cultura, fervor apostólico e apego amoroso por Roma. Ordenou também que os sacerdotes realizassem anualmente “exercícios espirituais” e mensalmente, na última quinta-feira de cada mês, se reunissem em “retiro espiritual”, que geralmente, era ele quem fazia a pregação. Para aprimoramento dos sacerdotes, organizou Cursos de Teologias, de Exegese Bíblica, de História e Arqueologia Cristã, criando em 1902, uma Faculdade de Direito Canônico para dar aos sacerdotes um evidente conhecimento dos problemas jurídicos.

O êxito do novo Cardeal se mostrava alegremente em todas as partes, exceção única para os administradores da cidade que eram de tendência liberal-democrática, anticlerical.

 

NÃO DEIXANDO O POVO ALHEIO AS ELEIÇÕES

No princípio do ano 1895, nas eleições para renovar a administração que governava a cidade, o Cardeal José Sarto mostrou pulso firme, pois quem era contra DEUS não podia administrar uma cidade de maioria cristã. Pois os administradores haviam chegado ao absurdo de mandar “retirar o Crucifixo” das Escolas e proibir algumas manifestações cristãs da piedade popular.

Assim, nas homilias das Santas Missas, com ênfase e vigor, recordou aos seus súditos, a obrigação de participarem das eleições e escolherem os candidatos que realmente fossem dignos para representar e administrar a cidade. E por isso mesmo, recomendava fervorosas orações aos fiéis, suplicando a DEUS que guiasse todos os acontecimentos.

Concluídas as votações, a Junta Municipal Anticlerical desmoronou com estrepitoso ruído, perdendo feio as eleições municipais, não conseguindo eleger nenhum membro do Conselho.

 

TENDÊNCIAS MODERNAS

O Cardeal não se cansava de lutar contra as novas tendências que o modernismo queria implantar. Estavam ocorrendo fatos, que incomodava o sentimento cristão das pessoas, e que por essa razão, as providências corretivas não poderiam tardar mais.

No dia 6 de Abril de 1895, desconhecidos invadiram a Igreja das Carmelitas Descalças, retiraram a Âmbula do Sacrário e sacrilegamente, derramaram as Hóstias Consagradas pela rua. O Cardeal Patriarca José quando soube ficou muito triste e disse aos presentes:

“Esta terrível e abominável notícia transformou a alegria que eu sentia por me encontrar entre vós. Não me posso convencer de que o sacrilégio se tenha verificado estando eu convosco, e pergunto a mim mesmo, se não foram os meus pecados a causa de que Veneza tenha chegado a esta desventura. Só me resta a esperança de que o sacrilégio não tenha sido obra de um veneziano”.

O Cardeal convocou um Congresso Eucarístico “para fazer um ato de reparação a JESUS SACRAMENTADO, por causa do cruel mundo que desconhece o SENHOR”. O Congresso se transformou numa imensa manifestação de “piedade Eucarística”, tendo sido realizado entre os dias 8 e 12 de Agosto de 1897.

Para aumentar o interesse, respeito e amor pela Sagrada Eucaristia, como havia feito em Mântua, incentivou a comunhão frequente, inclusive cotidiana, do mesmo modo que exortou os Sacerdotes a preparar as crianças, mesmo sem se preocupar muito com a idade, sendo suficiente que tenham consciência do que estão fazendo, e assim devem ser catequizadas e preparadas para receber a Primeira Comunhão Eucarística, e seguir recebendo JESUS em “estado de graça”, ao longo da vida.

Ele promoveu o uso do Canto Gregoriano e apoiou o compositor de musica sacra, clérigo Lorenzo Perosi.

Também se empenhou nas Obras Sociais, criando Bancos Rurais Paroquiais. Apoiou as bordadeiras de Murano, incentivando-as no laborioso trabalho.

 

AS FORÇAS OCULTAS

Nesta época, as sociedades secretas estavam pregando a emancipação das mulheres, insistindo na fundação de “Ligas Femininas” para defesa dos direitos da mulher. O Patriarca visitou as fábricas de Veneza e “desmascarou” a verdadeira intenção daqueles que diziam “defender os interesses da mulher”. E então, incentivou as operárias a se inscreverem nos patronatos católicos, que lhes ofereciam na realidade, a verdadeira e necessária proteção.

Manteve com os seus próprios recursos financeiros, o jornal Católico “La Difesa”, conseguindo transformá-lo num porta-voz respeitado e temido. Enfrentou e combateu a Maçonaria, dando segurança e muita confiança a todos que seguiam as suas Normas.

 

FALECIMENTO DO PAPA LEÃO XIII

Era uma época sombria, pois o mundo estava contagiado pelo terrível liberalismo anticlerical, que foi um dos perniciosos frutos da Revolução Francesa, que tornava tensa as relações de vários países europeus com a Sé Apostólica. Enquanto, por outro lado, a revolução industrial exacerbava e criava um terreno propício no meio do proletariado nascente, propiciando o desenvolvimento dos princípios marxistas, estimulando as lutas de classes e o anarquismo.

Também, no próprio interior da Igreja, a situação era grave: erros filosóficos eram considerados por muitos, como ocorrências normais do progresso: como o naturalismo, o racionalismo e o cientificismo, que junto com um desconcertante liberalismo, influenciavam de maneira direta a teologia, deturpando a fé, trazendo como absurda consequência o esfriamento da fé em DEUS. A fumaça maligna havia penetrado em estabelecimentos de ensino, nos seminários e até em várias camadas do clero, como se fosse “novidades interessantes” que revelavam um fundo de revolta e de inconformidade, colocando sem dúvida, em pleno perigo os verdadeiros ensinamentos cristãos.

 

 

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