BISPO E CARDEAL

 

NÃO SEREI MAIS BISPO, NEM MESMO CATÓLICO

Aparentemente referindo-se à “Associação Patriótica”, o Papa Bento XVI disse recentemente: “A proposta para uma Igreja que seja independente da Santa Sé na esfera religiosa é incompatível com a doutrina católica. A alegação de algumas entidades, de se colocar acima dos Bispos e de guiar a vida da sua Igreja, não corresponde a doutrina Católica”. Por outro lado, o Papa João Paulo II, em sua mensagem do dia 3 de Dezembro de 1996 para a China, também parecia se referir a Igreja Patriótica como sendo “uma Igreja que não responde nem à vontade do SENHOR JESUS, nem a fé Católica”. Nessa mesma mensagem, ele se refere à Igreja Subterrânea da China, como “uma preciosa jóia da Igreja Católica”. Disse também o Sumo Pontífice: “O Bispo deve ser a primeira testemunha da fé que professa e prega, ao ponto de derramar o seu sangue como os Apóstolos fizeram, e tantos outros pastores têm feito nos séculos em muitas nações, e também na China”.

Em 1958 aconteceu a primeira sagração episcopal na “Igreja Patriótica”. No dia 29 de Junho do mesmo ano, o Papa Pio XII reagiu energicamente com a encíclica “Apostolórum Principis”, na qual estabelecia a pena de excomunhão automática aos infratores: “Pelo exposto deriva que nenhuma outra autoridade, a não ser a do pastor supremo, pode revogar a instituição canônica atribuída a um Bispo; nenhuma pessoa ou assembléia quer de sacerdotes quer de leigos, podem arrogar o direito de nomear Bispos; ninguém pode conferir legitimamente a Consagração Episcopal sem antes ter a certeza da existência do Mandato Apostólico (Cânon 953). De forma que, para essa consagração abusiva, que é um atentado gravíssimo à própria unidade da Igreja, é estabelecida a “excomunhão” reservada “de modo especialíssimo” à Sé Apostólica, em que incorre automaticamente (ipso facto) não somente “quem recebe a consagração arbitrária”, mas também “quem a confere”.

Era importante para os comunistas conquistar o líder dos cristãos, que era o homem símbolo da resistência ao regime comunista. Por isso, várias vezes prometeram a Dom Inácio a liberdade imediata, se ele aderisse a “Igreja Patriótica”. A resposta do Bispo foi fulminante: “Sou um Bispo Católico. Se deixar o Santo Padre, não só não serei mais Bispo, mas nem mesmo católico. Poderão me cortar a cabeça, mas não poderão nunca me afastar do meu dever”.

 

CARDEAL IN PECTORE

Em reconhecimento por sua fiel luta em benefício do cristianismo na China, no dia 30 de Junho de 1979, o Papa João Paulo II criou Dom Inácio Kung Pin-Mei Cardeal “in pectore”, quando ele tinha 78 anos de idade e ainda cumpria pena de prisão perpétua na China, no mais completo isolamento. Portanto, tal dignidade só foi efetivada no primeiro consistório que ele participou. São chamados Cardeais “in pectore” aqueles que o Papa cria em consistório, mas por fortíssimas razões estando ausente, o seu nome será conservado “in pectore” (no peito, ou seja, em segredo no coração), e que se dará a conhecer mais tarde, num futuro consistório com a presença do Cardeal criado. Por isso, Dom Inácio ficou sem saber da sua condição de membro do Colégio Cardinalício, por mais de dez anos.

 

LIBERTAÇÃO DO CÁRCERE E PRISÃO DOMICILIAR

Sua família sempre se empenhou arduamente, buscando todos os caminhos legais para libertá-lo da prisão, principalmente o seu sobrinho Joseph Kung, que morava nos Estados Unidos. Ele movimentou a Anistia Internacional, a Cruz Vermelha e até o Governo dos Estados Unidos, para que fizessem pressão sobre o Governo Comunista, a fim de alcançar a libertação de Dom Kung. E assim, também em face da má saúde do Bispo, em 1985 Dom Inácio Kung teve sua prisão relaxada, passando ao regime de prisão domiciliar, sob a “custódia dos bispos cismáticos”, da Associação Patriótica.

 

MENSAGEM DE FIDELIDADE

Depois de 30 anos de sofrimentos e maus tratos no cárcere, diante da sempre presente pressão do governo comunista, o mundo estava na expectativa para saber qual era o ânimo do Bispo Inácio Kung?

O Cardeal Jaime Sin, Arcebispo de Manila (Filipinas), que descendia de comerciantes chineses, foi a Shangai a fim de lhe fazer uma visita de amizade. O governo da cidade chinesa tomando conhecimento do fato, para acolher bem o visitante, organizou um banquete e autorizou o Bispo Kung participar. Esta foi a primeira vez que ele ia encontrar um Bispo da Igreja Católica Apostólica Romana, desde a sua prisão. E os comunistas, sempre tramando, objetivando impedir qualquer contato direto entre os dois prelados, numa grande mesa onde estavam mais de 20 autoridades comunistas da Igreja Patriótica, colocaram os dois nas pontas extremas, nas cabeceiras da grande mesa. Muito inteligente e sagaz, no final da refeição, o Cardeal Sin sugeriu que para comemorar aquela fraternal refeição, cada um dos presentes cantasse alguma canção. Quando chegou a sua vez, Dom Inácio Kung olhou fixamente para o Cardeal Sin e cantou: “Tu es Petrus, et super hanc petram aedificabo Ecclesiam meam”. (Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a MINHA Igreja, disse JESUS). Embora os comunistas quisessem interrompê-lo, Dom Inácio cantou até o fim, para mal estar dos membros da Igreja Patriótica.

Após o banquete, Aloísio Jin, da Associação Patriótica Católica, que lhe usurpou o cargo como Bispo de Shangai, interpelou-o: “O que estais fazendo? Mostrando vossa posição?” Dom Inácio Kung respondeu mansamente: “Não é necessário mostrar a minha posição, porque ela nunca mudou.”

Assim, o Cardeal Jaime Sin pode atestar a Santa Sé e ao mundo, que Dom Inácio Kung nunca havia cessado de ser fiel à Igreja e ao Papa durante os longos anos de prisão.

 

CHEGADA AOS ESTADOS UNIDOS

Em 1988, depois de dois anos e meio de prisão domiciliar, Joseph Kung conseguiu finalmente que seu tio fosse posto em liberdade, para tratar de sua saúde nos Estados Unidos. Entretanto, as acusações que pesavam sobre Dom Inácio Kung, nunca foram canceladas.

Dom Kung chegou aos Estados Unidos no dia 4 de Maio de 1988. Dom Walter Curtis, Bispo da Diocese de Bridgeport (Connecticut-USA) convidou-o a permanecer na residência junto com os Sacerdotes da Diocese, aposentados. Dom Inácio lá permaneceu por nove anos, até Dezembro de 1997.

Um pequeno fato mostra como Dom Inácio Kung sofreu com o frio e a umidade, durante os longos e gelados invernos na China. Ele observando as boas e funcionais instalações da “Casa Rainha do Clero” , onde se hospedou, a qual tinha aquecimento central e água quente no inverno, comentou com seu sobrinho: “No Céu deve ser assim...”

E ali nos Estados Unidos, em plena liberdade, Dom Inácio Kung, apesar da sua idade, trabalhava muito, todos os dias, mas era primordialmente um homem de oração, mais de oração do que de ação. Para ele, a vida interior era a alma da sua fidelidade e da sua resistência ao regime comunista.

Certo dia, um seminarista que admirava a sua personalidade, perguntou-lhe como fazia para rezar na prisão, sem livros, sem Bíblia, sem Missa, e mesmo sem um Rosário? Ele simplesmente respondeu ao jovem que os comunistas nunca tiraram o seu Rosário. O Seminarista perplexo e sem entender, perguntou: “Mas como? Como o senhor fazia para esconder o Rosário, quando diariamente era meticulosamente revistado na prisão?” O Bispo Dom Inácio então lhe mostrou os dez dedos da mão e disse: “Aqui está o meu Rosário”.

 

COMEÇO DA IGREJA DO SILÊNCIO CHINESA

Na Festa da Natividade de MARIA SANTÍSSIMA, 8 de Setembro de 1988, o Bispo Dom Inácio Kung celebrou a Santa Missa na Capela “RAINHA DO CLERO”, em Stamford, na presença de católicos chineses, muitos dos quais também já tinham sido encarcerados pela fé. Na homilia ele disse: “Há trinta e três anos, na Diocese de Shangai, 30 Sacerdotes, um grande número de irmãos e irmãs, centenas de leigos católicos foram detidos e encarcerados. Isso era o começo da “Igreja do Silêncio” chinesa. Desde aquela data, nós, católicos, somos submetidos a todos os tipos de perseguições. Durante esses longos e angustiosos anos, um grande número de religiosos e católicos leigos de ambos os sexos, fortificados por sua profunda fé, têm carregado corajosamente a sua cruz. Alguns deles foram enclausurados; outros enviados para campos de trabalhos forçados; alguns separados de seus parentes, forçados a deixar suas famílias e a pátria; outros foram expulsos de suas escolas, perderam seus empregos; e alguns pagaram o preço final, sacrificando as suas preciosas vidas. Por que suportaram tais sofrimentos? Eles não eram loucos, mas gente muito razoável. Levaram e ainda levam o sofrimento pacientemente, sustentados pela graça de DEUS e pela insaciável chama de sua ardente fé nos Mandamentos Divinos”. Ele concluiu suas palavras, exortando os presentes à fidelidade, e rezou por aqueles que continuam sofrendo pela fé. E rezou também, pelos católicos que tendo se filiado à cismática “Igreja Patriótica” , separaram-se da verdadeira Igreja Católica.

 

FIÉL, FIRME E INDOMÁVEL

Finalmente em Junho de 1991, Dom Inácio teve a grande alegria de ir a Roma para receber, no Consistório do dia 29, o chapéu cardinalício, daquela nomeação realizada há doze anos, mas mantida oculta desde o dia da sua criação, e então, recebeu o título de “Cardeal Presbítero de São Sisto III” (Xisto). Em presença do Papa, o Bispo com mais de 90 anos de idade, levantou-se da sua cadeira de rodas, deixou de lado a bengala, andou alguns passos e caiu de joelhos aos pés do Pontífice. O Papa João Paulo II emocionado levantou-o e lhe impôs o chapéu cardinalício dizendo: “Eminência, este evento é um tributo à vossa humilde perseverança na necessária comunhão com Pedro”. Depois, ali permaneceu até que o “Purpurado” voltasse à sua cadeira de rodas, enquanto o auditório com mais de 900 pessoas presentes na Sala de Audiências do Vaticano dava retumbante salva de palmas.

 

APELO PELA LIBERDADE DA IGREJA EM SEU PAÍS

Durante seus últimos doze anos de vida, o Cardeal Inácio Kung celebrou a Santa Missa em várias Igrejas, em Congressos Católicos, e diante de câmaras de TV. Deu também entrevistas e fez homilias sempre procurando conduzir a atenção do mundo livre, para as perseguições que sofre a Igreja Católica Apostólica Romana na China. Ele continuava como o paladino e o inspirador dos 9 a 10 milhões de católicos chineses da Igreja subterrânea e por isso, odiado pelo governo comunista.

Foi-lhe perguntado: “Quais os eventos positivos e os negativos do século XX?” O Purpurado respondeu: “O pior evento do século é a perseguição religiosa na China, que dura 50 anos.” E o positivo? O Cardeal respondeu que eram o restabelecimento da liberdade religiosa em alguns países, como a Rússia e a Polônia, e a fé existente em seu país. E disse mais: “A história deverá recordar a fé solidíssima da Igreja Católica na China. Protegidos por NOSSA SENHORA DA CHINA, muitíssimos sacerdotes e fiéis, alguns até muito jovens, não descuidaram dos seus deveres de cristãos, desafiando o cárcere, o derramamento de sangue e até o martírio. Não traíram o Sumo Pontífice e nem a DEUS. Em nossos longos anos de encarceramento experimentamos a amorosa companhia Divina. Os Bispos Católicos Chineses e toda a Igreja Católica Chinesa, todos nós estamos muito agradecidos ao SENHOR DEUS que quis ser glorificado por ela”.

 

CONSIDERADO CRIMINOSO E EXILADO OFICIALMENTE

No dia 12 de Fevereiro de 1998, o Diretor e Chefe do Ofício Religioso Chinês afirmou: “Inácio Kung Pin Mei cometeu um sério crime por dividir o país e provocar danos a seu povo”. No mês seguinte o Cardeal Kung ao tentar renovar o seu passaporte em Nova York, no Consulado da China, o documento foi confiscado, ficou retido. Com isso, aos 97 anos de idade ficou oficialmente exilado nos Estados Unidos. Permaneceu no seu martírio vivo, sofrendo a cada momento, com saudades de seu rebanho na China, carregando sua cruz no coração e nas suas orações suplicando pela conversão e bem estar do povo chinês, assim como pela fidelidade dos seus irmãos aos Mandamentos Divinos.

 

O NÚMERO DE CATÓLICOS TRIPLICOU

Nas comemorações dos seus 98 anos de idade em Julho de 1999, mais de 500 pessoas residentes em diversos países, vieram a Stamford para honrar e comemorar com o Cardeal, símbolo vivo da resistência anticomunista e da Igreja do Silêncio na China. Entre eles estavam 25 católicos chineses que também tinham sofrido todo conjunto de maldades e covardias, durante longos anos, nas prisões do regime comunista.

Na ocasião, o Papa João Paulo II enviou-lhe, por intermédio do Bispo de Bridgeport, a mensagem: “Enquanto vos reunis com a família e amigos para celebrar uma solene Missa de Ação de Graças, envio-lhe cordiais saudações e a afirmação de minha proximidade na oração. Agradeço a DEUS Todo-Poderoso pelas graças dadas a toda a Igreja através do seu testemunho de fidelidade ao Evangelho”.

Calorosamente respondeu o Cardeal Kung dizendo entre outras palavras: “Agradeço penhoradamente a vossa saudação e a vossa benção. Este ano assinala também 50 anos de perseguições a Igreja Católica da China. O Clero e os fieis são gratos a NOSSO SENHOR JESUS CRISTO por ter selecionado os últimos dos seus filhos como testemunhas da Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica. Graças a proteção amorosa de NOSSA SENHORA DE SHESHAN, o número dos católicos na China triplicou durante este meio século de sofrimentos e perseguições”.

 

MORTE DE UM HERÓI DO CRISTIANISMO

O Cardeal Inácio Kung Pin Mei faleceu no dia 12 de Março de 2000, na casa do seu sobrinho Joseph Kung, que descreveu seus últimos momentos: “O Cardeal Kung despediu-se de nós de um modo muito pacífico. Durante as semanas, quando sentia algum sofrimento, dizia baixinho:”“SANTA MÃE, ajudai-me; JESUS me socorra; SÃO JOSÉ me ajude”.“Sete horas antes do falecimento, 70 amigos que residiam em três outros Estados realizaram uma cerimônia religiosa, celebrando uma Santa Missa. Ele recebeu a Sagrada Comunhão de Monsenhor Horgan, mantendo-se em estado perfeitamente lúcido. Todavia, pouco tempo depois da cerimônia, simplesmente passou a apertar o Rosário contra o peito, até que perdeu toda a consciência antes da morte que logo aconteceu, partindo para os carinhosos braços de DEUS na eternidade”.

PALAVRAS INESQUECÍVEIS

Dizia o Cardeal: “Apesar da contínua e terrível perseguição comunista, a Igreja Católica Subterrânea é muito forte. A maioria dos religiosos escolhe não pertencer à Igreja Patriótica, criada pelos comunistas, não assistir as suas Missas, e não receber sacramentos de padres ordenados nela. Mesmo sob um abominável clima opressivo, as vocações religiosas para a Igreja Subterrânea continuam a florescer. Também as pessoas que de fato amam e confiam em DEUS preferem frequentar a Igreja Subterrânea, embora permaneça em continuo risco a sua segurança pessoal. A vigilância comunista é implacável e terrível, mas a Igreja Subterrânea é corajosa e cheia de fé. Por isso, a Igreja Católica na China continuará até o fim dos tempos. A confiança e a esperança do povo cristão chinês estão sedimentadas nas palavras de JESUS, que disse: “A Igreja sempre prevalecerá sobre as portas do inferno”. Nós seremos martirizados, perseguidos e aprisionados, mas a Igreja viverá”.

 

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