VITÓRIA DA CARIDADE

 

DECISÃO SENSATA

Todavia, contrariamente aos desejos e esperanças de todos, nas semanas seguintes a transferência de Camilo e seus companheiros para a Igrejinha de NOSSA SENHORA DOS MILAGRES fez acelerar o desgaste contra eles. Os funcionários do Hospital e os dirigentes, especialmente Monsenhor Cusani despejaram um torrencial volume de calunias contra o nosso Santo e seguidores, que nitidamente traduziam despeito, inveja e falta de caridade. A vocação de Camilo e dos outros era precisa, era um grupo organizado e espiritualmente motivado à assistência corporal e espiritual dos doentes, com uma caridade e dedicação que ainda não existia nos Hospitais da época, nem em Roma e nem em qualquer outro lugar. Este caminho seguido por Camilo e os seus, portanto, não poderia deixar de levar todo o grupo para fora do São Tiago, para outros Hospitais da cidade e para qualquer outro lugar onde existisse sofrimento físico e moral. Por isso mesmo, numa manhã do outono de 1484, com passo decidido, ele foi ao São Tiago e ajoelhou-se, como havia feito muitas vezes, diante do seu querido Crucifixo e rezou. “SENHOR, eu sei que não valho nada, que não sou digno da TUA grandeza, mas sei também como o SENHOR, de boa vontade, frequentava os pecadores e publicanos para convertê-los. Por isso, decidi TI levar para a casa da VIRGEM, TUA MÃE, onde estão os outros meus pobres companheiros e TEUS servos. Em nome da TUA grande misericórdia, eu TE peço com todo o coração que aproves o que estou para fazer, e não reprove este meu desejo sincero, forte e apaixonado”.

Dito isto, pegou o Crucifixo e as peças da arrumação e transportou nos braços como se fosse um filho querido, para a sua Igrejinha, sob o olhar curioso e surpreso dos funcionários do Hospital. A intenção dele não era acender mais a desavença contra o pessoal do São Tiago, mas unicamente, levar consigo o seu JESUS, para onde ele fosse, como o seu inseparável companheiro.

FOI BUSCAR OUTRA ESPIRITUALIDADE

Como sempre, Monsenhor Cusani o chamou e falou muita bobagem, lhe acusando de um “monte” de asneiras e inverdades. E Camilo, como das vezes anteriores, humildemente abaixou a cabeça e permaneceu em silêncio. Neste mesmo dia, ele já tinha passado por outra grande decepção: Padre Felipe do Oratório, o seu Confessor, veementemente lhe disse que não pretendia mais atendê-lo em confissão, nem a ele e nem ao grupo. Na continuidade, Camilo e seus companheiros, escolheram para Confessor o Jesuíta Padre Ottaviano Cappelli, aproximando-se da espiritualidade de Santo Inácio de Loyola.

A situação reinante entre o Hospital São Tiago e Camilo levou-o a se afastar definitivamente com os seus companheiros. Por outro lado, a pequena Igrejinha de NOSSA SENHORA DOS MILAGRES, também estava muito distante do centro da cidade e dos outros Hospitais, assim como era um local bastante insalubre. Por essa razão, decidiram arranjar outro local na Via delle Botteghe Oscure, perto do Capitólio. Era um modesto alojamento, mas que atendia as suas necessidades, no momento. Acresce apenas que o local tinha o preço elevado de 55 escudos por ano (27,5 escudos por semestre, antecipado). Camilo não possuía este dinheiro. Foi quando apareceu outro benfeitor Pompeo Baratelli, um abastado milanês que lhe deu toda a quantia antecipadamente.

A COMPANHIA MUDOU DE ENDEREÇO

Depois da transferência de local, a Companhia que estava definhando na Igrejinha, refloresceu. Desde o inicio de 1585, Camilo e os dois companheiros que permaneceram: Bernardino e Curzio iam todos os dias ao Hospital do Espírito Santo, em Sassia, perto do Vaticano. Era o maior Hospital de Roma e por estar próximo a Santa Sé, havia grande circulação não só de doentes, mas também de peregrinos e voluntários provenientes de toda Europa, além de médicos e muitos auxiliares. E ali eles ficaram conhecidos e surgiu a oportunidade real para o aparecimento de muitos aspirantes. A “Companhia” de Camilo cresceu. Entre os recém chegados havia um que teria influência na história dos “camilianos” . Chamava-se Brás Oppertis, tinha 25 anos de idade e era um nobre siciliano de Siracusa. Era culto e tinha instrução religiosa, foi o braço direito de Camilo e o segundo da “Companhia” , durante toda a vida do fundador.

Os membros da “Companhia” fundada por Camilo, desde o inicio de 1585, foram denominados de “Ministros dos Enfermos” , isto é, servos dos doentes; amar e servir neles o CRISTO sofredor. As “regras” da “Companhia”, que ele escreveu em 1584, colocavam o preto no branco, ensinando tudo aquilo que ele apreendeu e viveu durante anos, um verdadeiro “código de amor”: simples, espontâneo, concreto e essencial, todo ele fundamentado no amor a JESUS, na pessoa do doente a imagem do sofredor e na experiência do sacrifício dedicação sem reservas. Camilo queria que seus “ministros” fossem não somente solícitos e altruístas capazes até do heroísmo por amor de JESUS e dos doentes, mas também pobres e desinteressados.

CAMINHANDO PARA SER UMA CONGREGAÇÃO RELIGIOSA

Já possuíam a casa, o nome, as regras, o campo de caridade e de apostolado, necessários a viver a vocação, servir a DEUS, à Igreja e aos irmãos. Com o impulso que a “Companhia” adquiriu, Camilo pensava agora em transformar a sua obra numa Congregação Religiosa. Para isso, era necessária a aprovação pontifícia. Então, ele procurou uma autoridade religiosa que residia próximo a Via delle Botteghe Oscure, o Cardeal Vincenzo Láureo, calabrês de Tropea, membro respeitável da Cúria Romana e estimado pelo Papa Sisto V. O Cardeal apreciou o trabalho de Camilo e de seus companheiros, simpatizando concretamente com a causa. Intercedeu junto ao Papa e conseguiu de Sua Santidade que fosse publicado no dia 18 de Março de 1586 o documento “Breve Ex omnibus”, que aprovava “in perpetuo”, a nova família da Igreja.

Um mês depois a Comunidade Camiliana confiou a Camilo ser o Superior da Ordem, e conforme a Regra, pelo período de três anos, podendo ser reeleito. Ele aceitou contrariado, porque queria consagrar todo o seu tempo e as energias, aos doentes. Mas, eleito pelos companheiros, assumiu decididamente a missão, demonstrando com que humildade e espírito de serviço ele exerceria a sua autoridade, agilizando três importantes decisões:

a) Colocou a tiracolo as sacolas e saiu pela cidade à procura de pão. No primeiro dia foi fraco, mas a partir do segundo dia, as doações melhoraram consideravelmente.

b) A segunda decisão foi convidar o Cardeal Láureo para ser o Protetor dos Ministros dos Enfermos. Foi uma prova de gratidão, por quem tinha acreditado neles.

c) Os Ministros dos Enfermos deveriam trazer sobre o hábito escuro, uma cruz latina vermelho-escura, no peito a direita. A iniciativa foi histórica: ainda hoje os Ministros trazem a cruz sobre a veste negra. O Papa Sisto V, aprovou a medida com um “Breve” específico no dia 26 de Junho de 1586.

Eis finalmente a explicação do sonho da mãe de Camilo: a cruz no peito do filho que tanto a havia perturbado: era a Cruz da Caridade a JESUS e aos enfermos. Camilo seria recordado pelos séculos como o “Santo da Cruz Vermelha”.

NOVO ENDEREÇO PARA A ORDEM DE CAMILO

Antes do Natal de 1586, os Ministros dos Enfermos se transferiram para a casa de Santa Maria Madalena, no coração do centro histórico romano, a poucos passos da Praça Navona. Era uma casa mais espaçosa e bem próxima ao Hospital do Espírito Santo. Para ajudar Camilo na parte financeira, a fim de pagar o aluguel do imóvel, intervieram diversos benfeitores e entre eles Fermo Calvi, amigo de Camilo. Assim, no dia 22 de Dezembro de 1586 foi assinado o contrato, que foi ratificado pelo Papa Sisto V, e, desse modo, os Ministros dos Enfermos puderam celebrar o Natal de 1586, na Igreja de Santa Maria Madalena.

Para Camilo, começava uma odisséia que permaneceu por seis anos. Pagar os operários, os materiais usados nas obras de reconstrução e reformas necessárias ao prédio. E estas não foram tarefas fáceis, mas extremamente difíceis e penosas. Todavia, seis anos depois, em 1592, com o falecimento do Cardeal Láureo, ele carinhosamente deixou toda a sua herança para Camilo e sua obra. Então, todos os compromissos puderam ser integralmente liquidados e aquele terrível sofrimento foi finalmente aliviado. A obra foi concluída e ele pode comprar todo o complexo para a Comunidade, e então, a casa de Santa Maria Madalena transformou-se na acolhedora Casa Mãe dos Camilianos, até hoje.

NOVOS HORIZONTES PARA OS MINISTROS DOS ENFERMOS

Abriram-se novas perspectivas para os Ministros dos Enfermos, que ultrapassaram os limites romanos e se projetaram em todo território italiano. Isto foi possível primordialmente, em face do considerável aumento de vocações. Camilo percorria de alto a baixo a Itália, para abrir, animar e organizar novas casas da Congregação junto dos maiores Hospitais Italianos. E tudo acontecia a pedido das diversas cidades e das autoridades sanitárias locais, reconhecendo o valor e notável eficácia da obra camiliana junto aos enfermos.

O primeiro pedido para um compromisso fora de Roma chegou em 1586, enviado por Alessandro Borla, um sacerdote de Piacenza, mas que trabalhava em Nápoles. Em face dos excelentes resultados alcançados em Roma, Padre Borla pedia ao Padre Camilo que mandasse irmãos a Nápoles para melhorar a situação hospitalar. Em 28 de Outubro de 1588 uma dezena de camilianos partiu para socorrer os Hospitais de Nápoles. O trabalho era intenso. Os Ministros dos Enfermos se tornaram populares na cidade e a Comunidade floresceu em vocações, tornando-se, com o tempo, uma das mais numerosas e operantes da Itália. Carinhosamente passaram a ser chamados de “os Padres da Cruzinha”.

E assim, a Companhia de Camilo se expandia em Roma e em todos os locais da Itália. Ele não descuidava, continuava ensinando a todos e também se empenhava dedicadamente a salvar, assistir e cuidar dos doentes e vitimados, não para se fazer conhecido, estimado e admirado, e muito menos para receber agradecimentos e louvores, mas essencialmente por amor a DEUS. Camilo ensinava que tudo tem de ser realizado com o coração, em nome da caridade, fazendo tudo por amor, vendo nos pobres, nos fracos e sofredores a imagem do próprio DEUS. Fundamentado nesta realidade ele dizia aos seus irmãos: “Coloquem mais coração nas mãos! Não é suficiente fazer bem as coisas, é preciso fazê-las com o coração. O amor é o melhor remédio para todos os males, aquele que torna eficiente todas as outras terapias”.

Camilo consumia-se pelos enfermos, tranquilo e com um sorriso nos lábios, sempre satisfeito e eletrizado. O coração que tinha na mão e entregava a todos os sofredores era um coração exuberante de alegria e afeto. Não queria deixar os doentes em todo o período das 24 horas. Isto ficou demonstrado no Hospital do Espírito Santo, quando ele pediu e conseguiu um quarto onde pudesse repousar algumas horas à noite e medicar a sua perna. Uma confirmação de tudo isto está nos últimos sete anos da sua vida, quando voluntariamente deixou a direção da Ordem para se dedicar somente aos doentes.

Depois da aprovação do Papa, agora a “Companhia” era uma Ordem Religiosa, ganhando mais dignidade, poder e privilégios, e por isso também, ganhou mais trabalho, empenhos, sacrifícios, um serviço mais diligente, eficaz e presente. Os camilianos levariam o trabalho e a missão melhor que antes, encarnando com mais coragem e radicalismo os valores evangélicos e a opção de pobreza que haviam abraçado.

A SEGUNDA CASA FORA DE ROMA

Além de Nápoles, a segunda casa Camiliana foi à cidade de Milão. Nesta, ele não tinha recebido convite ou chamado de alguém, mas idealizou em realizar lá uma casa, porque era uma cidade grande e populosa, com muitos doentes e problemas sanitários. Assim, era veemente necessário um sadio e eficaz trabalho com os Ministros dos Enfermos. Desse modo, em 1594, seguiram para lá Padre Francisco Nigli com cinco co-irmãos, que alugaram uma casa pequena e a Igreja da Anunciação, na Praça São Carlos Borromeu. O grupo de Ministros contatou os dirigentes do Hospital Mor, e foi admitido na enfermaria para ajudar o pessoal e garantir a assistência física e espiritual aos enfermos. O trabalho, a experiência, a dedicação, o espírito de sacrifício dos camilianos estiveram logo sob os olhares de todos, e o seu serviço sanitário-pastoral despertou a admiração e o reconhecimento dos doentes, da população e dos responsáveis pela instituição.

MUITAS OUTRAS CASAS

No mesmo ano, Camilo, pessoalmente, fundou uma casa em Gênova, na cidade que o atraía, pois tinha sido o berço da Companhia do Amor Divino. Aqui os camilianos começaram a trabalhar no antigo Hospital Pammatone. Da mesma forma, como aconteceu em Milão, os Ministros dos Enfermos deram, nessa instituição e em toda a cidade, uma consistente prova do seu zelo e do seu profissionalismo. No Pammatone, Camilo ficava até um mês. Foi lá que o diretor do Hospital, João Batista Centurione, vendo-o no pátio, andando ligeiro e curvado sob o peso de um colchão sujo e molhado que foi substituído no leito de um doente, escandalizado lhe disse:

- “O que está fazendo, Padre! Este trabalho não é para o senhor. Deixe-o para os serventes, ou para os seus irmãos leigos. O senhor é um sacerdote, o fundador, o superior geral da Ordem”!

Camilo respondeu-lhe, continuando a caminhar ligeiro e sem olhar no rosto dele:

- “Não, Monsenhor. Creio que tenho o direito de fazer este trabalho, mais do que os outros, porque sou sacerdote, e, portanto, consagrado ao serviço do Corpo de CRISTO”.

Quantas viagens a pé, a cavalo, em diligências, ou em lombo de burro!

Certa vez, em 1594, quando galopava em grupo com os coirmãos, nas estradas ou nos campos, em direção a uma cidade, ele sempre na frente, mais veloz e impaciente para chegar, foram vistos correr velozmente para Milão, que estava totalmente convulsionada pela peste. Um camponês gritou-lhes no meio da poeira levantada pelos cavalos:

- “Cavaleiros, parem, pelo amor de DEUS. Milão está empestada”!

Gritou Camilo, sem diminuir a marcha:

- “Eu sei irmão. Por isso temos pressa de chegar lá.

Muitas viagens também eram feitas por mar, para ir a Gênova e a Sicília, nas ágeis galés mercantes ou militares. E foi justamente às viagens, a sua experiência adquirida e a conversão de seu coração que induziram Camilo a outra guinada importante. Inicialmente, ele havia proibido os seus de estudar, pregar e confessar, imaginando que a cultura e o trabalho pastoral fosse afastá-los do serviço aos doentes. No verão de 1594, indo de Gênova a Milão, ele “descobriu” que estava equivocado e que ao contrário, os estudos, os livros, a preparação teológica cultural, facilitariam o seu trabalho, ajudando a compreender e assistir de uma maneira melhor os “pobres” (enfermos em geral). O homem, o seu sofrimento espiritual ou físico, as suas profundas necessidades tanto moral como material, não atuam de um mesmo modo depressivo no ser humano? Claro que sim, e ele compreendeu isto de uma maneira ampla, completa e perfeita, por isso, a necessidade de também evoluir no conhecimento.

Em 1595, surgiu outro campo para os Ministros dos Enfermos. Sua Santidade o Papa Pio V, decidiu que o exército cristão que ia combater os hereges turcos, levasse também alguns deles, para realizar a própria missão no campo de guerra, assistindo os feridos e moribundos, durante e depois das batalhas.

Em Dezembro de 1596, os camilianos dirigidos pelo Padre Califano e Padre Mendes, seguindo a orientação de Camilo, foram instalar uma casa da Congregação em Bolonha. Lá se estabeleceram junto a Igreja de Santo Colombano e começaram a trabalhar. Pouco depois, se juntaram a eles o Padre Profeta, que ficou como Prefeito da nova casa.

O ano de 1599 foi um ano intenso quanto às fundações de novas casas. Na metade de Outubro chegaram a Florença os Padres Adriano Barra e Domenico Lutroni, chamados pelo administrador do Hospital Santa Maria Nova. Pouco depois chegaram mais quatro coirmãos. Nos primeiros tempos, estabeleceram-se no Hospital. No ano seguinte, se transferiram para a casa e a Igreja de São Gregório, na Praça dos Mozzi.

No mesmo ano, Camilo mandou alguns dos seus para Ferrara. O Cardeal Pietro Aldobrandini, legado pontifício no feudo, propôs aos Ministros dos Enfermos o serviço no Hospital Santa Ana.

Depois, os camilianos abriram casa em Palermo, outra em Caltagirone e uma em Messina, e novamente rumo ao norte, fundaram uma casa em Mântua, outra em Viterbo e posteriormente em Borgonovo, e em 1606, Camilo fundou uma casa em Bucchianico para ajudar aquele povo que ele amava e ter a oportunidade de rever os parentes e reavivar a lembrança de seus pais.

No ano seguinte, em 1606, os camilianos abriram uma casa na vizinha Chieti, servindo no Hospital da Anunciação.

Foram quinze as casas abertas por Camilo. Na continuidade dos anos, o seu sucessor Padre Nigli e os outros sucessores continuaram abrindo casas na Itália e também em diversos países da Europa, e hoje a Congregação do Padre Camilo de Lellis se encontra em quase todos os países do mundo.

AS PROVÍNCIAS DOS CAMILIANOS

Entre 1602 e 1605 aconteceu o terceiro Capitulo Geral da Comunidade Camiliana, que dividiu a Ordem em cinco províncias religiosas: romana, napolitana, siciliana, milanesa e toscana. Eram sinais vivo da vitalidade da Comunidade e da boa organização. Camilo dizia aos mais íntimos com imensa satisfação:

“A Ordem finalmente se tornou adulta, e pode caminhar adiante sem mim. Está na hora de deixar o comando em mãos mais jovens e me dedicar somente aos doentes. Quero encher a minha mochila de obras boas e me preparar para o passo supremo”.

Era o ano de 1607, Camilo não era velho, estava com apenas 57 anos de idade, mas estava cansado, debilitado pelo trabalho e imenso esforço para harmonizar e manter pacificada, as idéias e vontades dos irmãos da Congregação. Também, pelo intenso trabalho hospitalar, pelas sucessivas viagens e impressionante esforço acima das capacidades normais, para debelar epidemias e socorrer os enfermos onde estivessem, porque eles eram a imagem viva do SENHOR.

Os pedidos de exoneração apresentados várias vezes por Camilo, nos últimos tempos, tinham sido sempre rejeitados pelo Papa Clemente VIII e pelo Cardeal Ginnasi, novo protetor da Ordem. Até que finalmente, no dia 2 de Outubro de 1607, eles acolheram a exposição e argumentação de Camilo, que permaneceu durante 15 anos e dez meses no comando da Ordem.

Em reunião da Comunidade, a maioria dos padres e irmãos presentes elegeu Oppertis, que foi o colaborador predileto de Camilo, e por isso mesmo, considerado o mais preparado para sucedê-lo. O Santo Padre aprovou a escolha através da publicação de um “Breve” (Bula Papal). Três meses depois, foi convocado e realizado o Quarto Capitulo Geral da Ordem, que elegeu definitivamente o Padre Brás Oppertis para Superior-Geral da Congregação por seis anos.

NO FINAL DA SUA VIDA

Nos últimos anos de atividade e apostolado, sua casa, o seu “paraíso celeste” (como ele falava), era o Hospital do Espírito Santo, onde trabalhou sem cessar de 1609 a 1612, e até morou nele. O Comendador do Hospital lhe havia cedido um pequeno quarto com uma janelinha que dava para o rio Tibre. Lá ele se recolhia depois da meia-noite para repousar algumas horas, rezar e tratar da ferida no pé que o afligia mesmo depois de velho.

Todas as fontes e testemunhos estão de acordo: da mesma forma que Camilo se interessava pela saúde dos doentes e fazia tudo para que eles ficassem curados, descuidava da sua e não fazia caso de si mesmo. Só olhava para a ferida da perna à noite, quando ia descansar um pouco. Depois dos cinquenta anos de idade, surgiu-lhe umas dores nos rins, que chamavam “doença da pedra” , e no último período da sua vida, os problemas gastrointestinais lhe causavam uma total inapetência. Tudo isto, consequências de uma atividade frenética e da absoluta falta de repouso.

AS DERRADEIRAS VIAGENS

Em Abril de 1613, o Padre Francisco Antonio Nigli foi eleito o novo Superior Geral dos Ministros dos Enfermos. Logo que assumiu, decidiu visitar as Casas da Ordem, e quis levar consigo o fundador. Feito os preparativos, seguiram viagem. As duas primeiras paradas, em Sant’ Elpidio a Maré e Loreto, foram emocionantes. Na primeira ele se recolheu ao tumulo de seu pai e rezou muito pela alma dele. No Santuário de Loreto, que tinha sido para ele desde jovem, um ponto de referência espiritual, ajoelhou fervorosamente diante da imagem da VIRGEM MARIA e rezou com lágrimas nos olhos:

- “Estou quase no fim, Minha Mãe. Eu Te agradeço pela preciosa ajuda, por todos os dons que me deste, desde o dia em que vim aqui pela primeira vez. Confio a Ti, ó Mãe querida, os meus coirmãos, a nossa obra, os doentes, aos quais somos chamados a servir, para que os camilianos se consagrem totalmente ao bem dos sofredores. E Te recomendo a minha alma: eu não soube realizar nada de bom. Sou um pobre pecador, o mais indigno de todos. Confio somente na Tua poderosa intercessão, minha Mãe, e na misericórdia de Teu FILHO para ser admitido na glória Divina que não mereço”.

Depois seguiram viagem para Das Marche e Bolonha. Em Maio visitou as casas de Ferrara, Mântua e Milão. Nesta última cidade, o fundador pediu ao Superior Geral Padre Nigli para dispensar a sua companhia das outras visitas que já estavam programadas, porque Camilo estava muito fraco e o seu estado de saúde exigia um maior cuidado. Não conseguindo cavalgar, deixou Milão em carro e se dirigiu a Gênova, mesmo contra as recomendações dos médicos, porque queria rever os coirmãos, os doentes e os amigos, antes de regressar a Roma. Camilo estava cada vez mais fraco e sofria de contínuos espasmos no estômago, estava com uma náusea insuportável por qualquer alimento. O doutor o obrigou a ficar na cama e os coirmãos queriam retê-lo de qualquer jeito. Camilo falou:

- “Não, irmãos, o que vocês desejam é impossível. Devo e quero morrer em Roma, onde descobri o caminho que o SENHOR me indicou e onde desabrochou a “nossa plantinha” (a Congregação )”.

Tirando o olhar dos presentes e fixando-o no Crucifixo que tinha diante de si, falou:

- “Vou morrer no dia de São Boaventura, 14 de Julho”.

Logo que readquiriu um pouco de forças, Camilo abandonou o leito, e no dia 10 de Outubro, embarcou num navio em Gênova zarpando em direção a Roma. Na manhã do dia 13, desembarcou em Civitavecchia. Antes de seguir para Roma, quis rever os operários das salinas, que ficaram extremamente felizes com a visita dele. Depois reunindo o restante de suas forças, seguiu a cavalo para a Capital Italiana. O céu sobre a cidade já escurecia quando Camilo se aproximava de Roma. Em Santa Severina, os seus amigos e coirmãos que esperavam por ele, sabendo que cavalgava com dificuldade, foram ao encontro dele com uma liteira. E seguindo o trecho restante vagarosamente, chegaram a Santa Madalena quando anoitecia. Vencendo o próprio cansaço e a oposição dos coirmãos, quis ser acompanhado à Igreja. Logo que entrou na silenciosa penumbra, murmurou: “Eis o lugar do meu descanso eterno. Eu o escolhi e o quis, e é aqui que vou morar”.

Saindo da Igreja, Camilo não quis saber de ir descansar na cama, e apesar da insistência dos coirmãos disse: “Acompanhem-me à enfermaria, por favor. Quero ver como estão os nossos doentes”.

DE BAGAGEM ARRUMADA PARA A ETERNIDADE

Depois de visitar os coirmãos enfermos, foi finalmente descansar em seu quarto. Por ordem dos médicos, permaneceu no leito em tratamento. Sempre que os coirmãos chegavam a casa, ele queria saber como foi o atendimento, quais eram as notícias. Certo dia, tendo melhorado um pouco e não resistindo a saudade pediu permissão ao médico para sair. O doutor consentiu, mas que ele fosse de carruagem, não a pé e nem a cavalo. Foi direto ao Hospital Espírito Santo para rever os amigos, oportunidade em que carinhosa e fraternalmente abraçou todos os doentes, um por um.

Dias depois, o seu estado de saúde se agravou e ele não podia mais se levantar sozinho. Os médicos se reuniram e analisaram o caso. No dia seguinte admitiram que não houvesse mais esperanças: o doente não teria muito tempo de vida. Camilo sorriu.

Chegou o ano de 1614 e a fibra forte resistia. Transferiram Camilo para a Enfermaria, para se sentir como num pequeno hospital, onde também havia um altar para participar das Santas Missas. Continuou a compartilhar a vida dos coirmãos em Santa Madalena: orações em comum, leitura espiritual, meditação, caridade com os coirmãos e com os outros doentes. Também escrevia muitas cartas e recebia muitas visitas: prelados, autoridades, superiores religiosos e fieis. Escreveu também sua carta testamento que foi enviado cópia a todas as casas camilianas, e depois escreveu o seu testamento espiritual. Este foi o último escrito, também dirigido aos seus coirmãos da Ordem Religiosa.

Pouco depois das nove horas da noite, do dia 14 de Julho de 1614, festa do franciscano São Boaventura, soou o sino de Santa Maria Madalena, comunicando a morte do Padre fundador Camilo de Lellis. Exatamente no dia em que ele havia previsto, dia 14, festa de São Boaventura, com 64 anos de idade e mais vinte dias de vida. Todos correram a enfermaria, se ajoelharam e recitaram a oração ritual.

Hoje, o fundador dos Ministros dos Enfermos repousa na Igreja de Santa Maria Madalena, embaixo do último altar lateral à direita. Um pouco mais adiante, está a capela onde se venera o Crucifixo que lhe falou.

Em clima de veneração popular e universal, os camilianos introduziram em 1618 a causa de Beatificação. O decreto da “Beatificação” foi assinado pelo Papa Bento XIV, no dia 2 de Fevereiro de 1742. E a seguir, quatro anos depois, o mesmo Papa, chamando Camilo, o fundador de uma “nova escola de caridade” , proclamou “Santo” aquele que o povo cristão havia venerado como tal, ainda em vida.

Mais tarde, o Papa Leão XIII o proclamou, junto com São João de DEUS, os Santos patronos de todos os Hospitais do mundo. E no dia 28 de Agosto de 1930, o Papa Pio XI, declarou solenemente São Camilo patrono dos profissionais que trabalham nos hospitais.

 

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