Era um dia ensolarado, com o céu completamente azul, sem nuvens e com uma suave brisa que preguiçosamente soprava do mar para a terra, quando Longino desembarcou em Messina.

Um largo sorriso ocupava o seu semblante e seu coração alegre saltitava como menino travesso, sentindo o prenúncio da emoção de rever os entes queridos.

Desembarcou a bagagem e alugou uma carroça para levá-lo a Taormina. A estrada estava tranquila e se delineava sinuosamente, entre imensos paredões rochosos e plantações diversas, ora serpenteando as encostas próximo ao mar, ora ziguezagueando nos vales, fugindo das grotas e distanciando-se dos abismos, passando pelas ondulações dos morros, pelo areão das baixadas e desfrutando da bela paisagem marítima.

Só se ouvia o trotar ligeiro do cavalo e as vozes do condutor e de Longino, que curiosamente queria saber de tudo, das notícias referentes a seus amigos e aos acontecimentos em sua cidade. Uma grande felicidade lhe envolvia o espírito por estar retornando a terra natal.

Aproximando-se da cidade, alguns vizinhos vendo-o de longe se apressavam em cumprimentá-lo e aproximavam para abraçá-lo. Era estimulante, depois de tanto tempo, conversar e ouvir novidades de sua terra. Chegaram em casa e ele entrou repleto de júbilo. Ali, junto com parentes e amigos, ao redor de uma mesa, entre risos e gargalhadas, entremeados por copos do delicioso vinho do senhor Francesco, passaram um bom tempo "matando as saudades" colocando em dia os acontecimentos mais importantes ocorridos naqueles oito anos de ausência. E, de repente, surgiram notícias de Juliana... Taglivine o pai da moça, passou sérias dificuldades nos negócios. Adoeceu de tanto trabalhar e como já estava com o organismo debilitado, veio a falecer. Sua esposa e a filha venderam os bens e foram morar em Listra, na Licaônia, numa propriedade vinícola pertencente a Orlando Taglivine, irmão do falecido.

Longino ficou frustrado com a noticia, porque compreendeu que não seria ainda desta vez que iria encontrar-se com ela, ao mesmo tempo em que ficou bastante penalizado com a morte do senhor Antônio Taglivine. Continuaram discorrendo sobre os diversos assuntos e bebendo muito vinho. Entretanto, a bem da verdade, a partir daquele instante, o coração de Longino se entristeceu.

Em meio às conversas e às brincadeiras, aos poucos o sorriso foi se apagando em seus lábios, até que não resistindo mais àquela decepção, deu uma desculpa banal e levantou-se. Foi ao encontro de seu pai que ainda estava na lavoura.

Foi um encontro efusivo e cheio de calor. Pai e filho conversaram animadamente por longo tempo, relembrando fatos e brincadeiras, fazendo chacotas que provocaram risos em ambos, revelando a grandeza do amor e a amizade carinhosa que os unia. Concluído o serviço, voltaram para casa.

À noite, deitado na cama, Longino deixava os pensamentos desfilarem em sua mente. Ligeiramente alcoolizado, tentava reorganizar os planos, revendo passagens e imaginando soluções para o futuro. Tinha recebido autorização para se ausentar durante 60 dias. De Cesaréia a Messina decorreram 25 dias de navio que, naturalmente, será o mesmo tempo na volta, e ainda, tinha que ser levado em consideração o tempo de espera da próxima embarcação com destino a Cesaréia, que só aconteceria depois de 6 dias, conforme a informação que conseguiu em Messina. Então, por mais que desejasse, não teria espaço de tempo para viajar até Listra e visitar Juliana. Conformou-se com a realidade e tratou de viver da melhor maneira, aquele tempo disponível, festejando o reencontro com seus familiares e amigos.

Na véspera do regresso à Judéia, subiu um morro que fica bem defronte à cidade. Lá em cima a brisa é permanente. O vento sopra agradável e contínuo nesta época do ano e do local, se descortina uma paisagem encantadora, podendo-se ver as casas da pequena cidade pintadas com predominância da cor branca, em contraste com o verde das árvores frutíferas e da vegetação. As montanhas, com as encostas cultivadas em quase toda extensão, apresentavam diversos retângulos de cores diferentes, realçando os vários tipos de plantações em cada um deles. E ao lado direito, descortinava o mar calmo e belo, todo de um azul-anil até a linha do horizonte, tão distante, compondo um cenário que confortava e infundia uma poderosa paz interior e onde também era possível sentir o quanto somos pequenos diante da imensidão do mundo.

0 "sagum" , (a capa vermelha do centurião), tremulava ao vento, como se fosse uma bandeira desfraldada ao sabor da brisa. Ao redor estendia-se uma vegetação baixa, com árvores esparsas e blocos de pedras espalhados por todos os lados.

Longino, sentou-se numa das pedras e continuou a desfrutar daquela linda visão, admirando o formato das nuvens, a incidência dos raios solares e tentava imaginar quem tinha feito tudo aquilo... Como se tinha formado a natureza?...

Estava claro que nenhum homem, por mais perfeito, sábio e inteligente que fosse, nenhum ser humano em suma, teve qualquer tipo de participação nesta obra, porque também os seres humanos vivem dentro da própria natureza, pensava consigo.

Mas, então, quem fez tudo isto? Pergunta que leva qualquer pessoa à origem da vida... E procurando raciocinar, soltando as amarras que retém a imaginação, foi sendo conduzido por sua mente à presença do CRIADOR. E então pôde concluir: tudo isto é Obra de um DEUS maravilhoso, repleto de bondade, sobretudo, repleto de Amor e rico em Misericórdia, para criar a Humanidade, todos os povos e as gerações, para lhes propiciar as delícias de Seu Reino, a beleza e a grandeza de Seu Divino poder.

Sentiu então que aquele era o momento certo para conversar com DEUS, falar um pouco de si, de suas angústias, de seus anseios, de seus problemas e de suas fraquezas, embora compreendesse que ELE o conhecia muito bem, que suas palavras não eram necessárias para revelar a sua pessoa. Mesmo assim, sentia que era o momento propício para pedir perdão e implorar a misericórdia Divina. Por isso, ficou de pé e juntou as mãos numa suplicante oração:

"SENHOR DEUS todo poderoso, perdoe a minha audácia. Não sei se é correto dirigir-LHE estas palavras. Contudo, perdoe-me e ouça-me por favor. O SENHOR sabe que quando atravessei o Corpo de JESUS com minha lança, estava cumprindo uma missão de soldado, não O conhecia e nem tinha ódio em meu coração. Agora sei que ELE é o Vosso FILHO muito amado. Por isso, quero penitenciar-me de minha grande ofensa, com humildade venho suplicar a grandeza do Amor e da Misericórdia do SENHOR, muito embora não imagino que seja digno de nenhuma das duas. Apenas invoco pelo precioso Sangue que ajudei a derramar na Cruz, e que na verdade, agora eu sei que foi derramado em benefício de toda Humanidade e, portanto, também foi derramado misericordiosamente em benefício de minha pobre e humilde pessoa. Em segundo lugar SENHOR, invoco pela terrível e cruenta Paixão de NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, que silenciosamente sofreu todos os horrores e covardias, como demonstração de obediência ao PAI ETERNO e como impressionante demonstração de Amor eterno a humanidade de todas as gerações, a qual também pertenço. Por isso SENHOR, por Sua gloriosa e preciosa Ressurreição, peço-LHE perdão pelos meus muitos pecados e suplico-LHE SENHOR, tenha piedade de mim, de minha vida e de minha pobre alma".

Abaixou a cabeça e ficou em silêncio. De olhos fechados permaneceu pensando naqueles últimos e importantes acontecimentos de sua vida.

Depois se sentou e como se fosse a última vez, olhou demoradamente aquela linda paisagem,  deliciando-se com aquela inesquecível visão. Quando se preparava para voltar, eis que involuntariamente olhou a palma de sua mão direita! Ficou surpreso! A mancha vermelha do sangue do SENHOR por si só tinha clareado, quase desaparecendo na cor da sua própria pele!...

Um estremecimento de júbilo, iluminou o seu coração... Percebeu que aquilo era um "sinal", uma indicação do CRIADOR revelando que estava satisfeito com o seu comportamento e com o nascente interesse pelas coisas de DEUS. Por isso, cheio de emoção, olhou para o infinito, e repleto de imensa ternura, agradeceu e louvou o SENHOR DEUS com todas as fibras de seu coração.

Ainda com lágrimas de agradecimentos nos olhos, desceu o morro e voltou para casa.

No dia seguinte viajou para Jerusalém.

 

 

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