SACERDOTE PIEDOSO

 

FAMÍLIA E NASCIMENTO

Vicente de Paula nasceu no dia 24 de Abril de 1576, na cidade de Pouy, na região de Landes, sul da França. Seus pais eram de condição humilde, mas não pobres, possuíam cinco hectares de terra que cultivavam e onde trabalhavam com diversas juntas de bois; tinham também um rebanho de ovelhas. Viviam numa espaçosa casa construída no próprio terreno, na qual, existia também uma área interna para guardar produção da lavoura e ferramentas de trabalho. Era o terceiro filho do casal João de Paulo (Jean de Paul) e Bertranda de Moras (Bertrande de Moras), camponeses profundamente católicos. A senhora Bertranda, apesar do trabalho intenso, encontrou o justo tempo para educar carinhosamente e ensinar religião aos seus seis (6) filhos.

Com a idade de 9 a 11 anos, Vicente começou a guardar o rebanho de ovelhas da família. E quando estava no campo, com o rebanho, sempre se encontrava com outros garotos da sua idade, que também tocavam os rebanhos das suas famílias. Quando chegava a hora do almoço, partilhava a sua parte, com aqueles que ele percebia nada tinham para comer, ou que haviam trazido pouca provisão alimentícia. Sua generosidade era espontânea e efetiva. Em certa ocasião, deu a um pobre necessitado, toda a economia de moedas, que diligentemente vinha acumulando desde longa data.

 

ESTUDANTE BONDOSO E APLICADO

Seus pais viam no filho uma característica muito especial, era bondoso por natureza, ou seja, por sua própria iniciativa. Aquele procedimento vinha de dentro, bem do âmago do seu coração. E por isso também, decidiram proporcionar a Vicente, continuar com os estudos, os pais não hesitaram em enfrentar os encargos que por certo iam advir. Inicialmente com uma pensão de sessenta libras, colocou-o no Colégio que os Franciscanos mantinham em Dax, e o menino estava com 12 anos de idade. Vicente não perdeu o seu tempo, foi um aluno aplicado, tornando-se modelo para os seus colegas de estudos, e muita alegria para os seus pais, que ficavam satisfeitos com o desempenho e o admirável esforço do filho.

E por isso mesmo, todos comentavam as qualidades pessoais do menino, que ate virou notícias e se espalhou por toda redondeza, e até chegou ao conhecimento do Dr. Commet, que também vivia em Dax e era um famoso advogado. Commet era também uma pessoa muito boa e estimada na cidade, pelo seu talento e generosidade. Ele tinha também negócios em Pouy e conhecia os pais de Vicente. Desse modo, sabendo das boas qualidades do jovem quis ajudá-lo, da mesma maneira que viu no menino uma possibilidade de também prestar serviços a sua própria família. Hospedou-o em sua casa para vigiar e estimular o trabalho dos seus dois filhos. Para Vicente foi muito bom, porque sua saída de casa ajudou a aliviar as despesas dos seus pais, reforçando o orçamento que lhe permitia continuar os estudos. E nesta função na casa do Dr. Commet permaneceu até a idade de 21 anos, permitindo-lhe concluir com brilhantismo os Cursos de Gramática, Retórica e Filosofia, no Colégio.

 

A CAMINHO DO SACERDÓCIO

O Dr. Commet que apreciava o caráter e as notáveis virtudes do rapaz, animou-o a entrar no Convento e seguir a vida religiosa, infundindo-lhe a convicção de que ele verdadeiramente tinha vocação para ser um “Bom Padre”. Na sua humilde simplicidade Vicente ficou sem saber o que responder ao seu benfeitor, porque se considerava sem merecimentos para alcançar a honra e sublimidade do Sacerdócio. E por isso, hesitou em tocar no assunto durante um bom tempo. Mas na sequência dos meses, os argumentos do Dr. Commet e do seu Diretor Espiritual, fez com que ele reconsiderasse a sua resistência e assim, decidiu aceitar os conselhos daqueles que lhe desejavam êxito no cumprimento da sua missão existencial.

Entrou na Universidade de Toulouse e estudou teologia. Em face das despesas ter ultrapassado os limites disponíveis da família, seus pais venderam uma junta de bois e o seu benfeitor também ajudou financeiramente. Por outro lado, ele objetivando reativar as suas economias para a continuidade dos estudos, nas férias de 1598, aceitou o convite do senhor Grossoles, que lhe confiou seus filhos Renato e João, a fim de prepará-los para a existência, ajustando os conhecimentos e a piedade dos meninos. As noticias correram e, em breve se juntaram ao Renato e ao João outros meninos, parentes do Duque de Épernon. E assim, Vicente dirigia atenciosamente os estudos dos seus alunos e os orientava inclusive espiritualmente, formando-os para se constituírem fiéis cristãos.

No dia 23 de Setembro de 1600, Vicente de Paulo foi ordenado Sacerdote pelo Bispo de Périgueux.

 

UMA EXPERIÊNCIA DIFÍCIL

A sua piedade, o seu notável caráter e admirável formação o ajudaram de modo preponderante a conseguir protetores poderosos, que reconhecendo o seu talento, ofereceram-lhe a grande Paróquia de Thil, nos arredores de Dax. Entretanto, pessoas invejosas, que também ambicionavam o posto para os seus protegidos, gente recheada de vaidade e com o espírito egoista, se levantaram contra ele, criando um ambiente incompatível com a santidade. Sendo Vicente um homem modesto e cultivador da paz, embora aquela Paróquia fosse um especial e muito desejado presente, humildemente se afastou e voltou para Toulouse, onde permaneceu se aperfeiçoando nos estudos teológicos e controlando com tranquilidade as dificuldades do seu apertado orçamento financeiro.

Mas com um trabalho eficiente e piedoso, ele conseguiu uma boa quantidade de simpatizantes e devotos em Toulouse. E então, aconteceu que uma pessoa devota, percebendo a evidente chegada da própria morte, deixou-lhe como herança terrenos e dinheiro, avaliados em quatrocentos escudos franceses. Todavia, para conseguir desembaraçar o valor financeiro, ele teve de ir a Marselha e negociar com um dos devedores, e na transação, o devedor exigiu que ele fizesse concessões, sendo forçado a diminuir para trezentos escudos franceses. Concluído o negócio, embarcou num navio que o conduziria ao porto de Narbonne, e de lá ele seguiria de charrete retornando a Toulouse. Todavia, aconteceu um terrível imprevisto. Piratas turcos que andavam pelo golfo de Marselha, saqueando e roubando a carga das embarcações que passavam por ali, apoderaram-se do navio onde estava Padre Vicente: todos os passageiros foram roubados e conduzidos a Túnis na África, inclusive ele, e foram expostos como mercadoria e vendidos como escravos.

Padre Vicente de Paula enfrentou aquele abominável cativeiro durante dois anos. E como escravo, primeiro serviu a um velho árabe que exercitava a medicina, a alquimia e as matemáticas. Depois, foi negociado com um italiano que havia renunciado a sua fé, para não ser morto, tendo deixado o cristianismo e acolhido as leis de Maomé. Depois ele se arrependeu profundamente e ficou muito desorientado. Padre Vicente conseguiu convertê-lo e criaram certa amizade. Numa oportunidade decidiram fugir de Túnis, pegando uma pequena embarcação no mês de Junho de 1607, que os conduziram a Martigues (Aigues-Mortes/França), onde permaneceram provisoriamente.

 

AMIGO SINCERO E ÚTIL

Padre Vicente catequizou o italiano, e dias após se deslocaram até Avignon, e na Igreja de São Pedro, o italiano se confessou com Monsenhor Montorio, abjurando publicamente todos os seus erros e o maometismo,retornando a Igreja Católica.

Monsenhor Montorio era Vice-Legado da Santa Sé, e se tornou amigo do jovem Sacerdote, pois ficou admirado com os fatos ocorridos com o Padre Vicente, que inclusive havia aproveitado o seu tempo de escravo para realizar um profícuo apostolado, convertendo algumas pessoas. Por isso, lhe ofereceu hospitalidade no seu palácio em Avignon. Vicente e o renegado italiano passaram a viver no palácio do Monsenhor, ajudando-o na sua Residência, assim como na Igreja de São Pedro.

 

EM ROMA

Pouco tempo depois, tendo sido chamado ao Vaticano, Monsenhor Montório fez-se acompanhar pelos seus protegidos: o Padre Vicente e o Italiano, essencialmente para acompanhá-lo na Cidade Eterna e para lhe fazer companhia. Assim sendo, os tempos livres não faltaram aos dois acompanhantes. Vicente piedosamente utilizava o seu tempo em orações e nos estudos. Frequentou a Universidade de Roma e se formou em Direito Canônico. E o Italiano renegado foi admitido num Mosteiro e se tornou Monge.

No convívio, na casa do seu protetor em Roma, Padre Vicente teve a oportunidade de conhecer diversas pessoas importantes que tinham muita influência na Igreja. E naqueles contatos em plena convivência fraterna, as pessoas passaram a concordar com suas aparentes qualidades, elogiando a sua vivacidade e inteligência, assim como, apreciando admirados as suas virtudes, e a maneira criteriosa de encarar os fatos e as ocorrências do cotidiano. Padre Vicente era estimado por todos, e Monsenhor Montorio, observando os seus dons, procurava sempre colocá-lo numa situação digna de tais méritos.

Assim decorriam os meses, até que em dada oportunidade, um alto funcionário da França credenciado junto ao Vaticano, tinha certa urgência em comunicar ao seu Soberano, Rei Henrique IV, informações importantes e reservadas de interesse do Rei. Como ele não podia viajar no momento e tinha grande apreço e confiança no caráter do Padre Vicente, lhe confiou à missão de entregar ao Rei, um documento escrito com as preciosas informações.

 

RETORNO A FRANÇA

Padre Vicente de Paulo partiu sem demora para Paris entregando com urgência ao Rei o importante documento. Concluído o seu trabalho, saiu do Palácio do Louvre e procurou um local modesto e adequado para se hospedar, porque não  queria voltar a Roma e não desejava permanecer morando no Palácio Real. Depois de muita pesquisa encontrou uma casa que alugava quartos, na “Rue des Saints Pères”. O Rei Henrique IV apreciando a sua pontualidade e desembaraço, o nomeou Capelão da Rainha Margarida de Valois, conhecida como Rainha Margot. Assim, Padre Vicente, embora morando fora, atendia e servia a Rainha em todas as solicitações, e ficou também encarregado, de distribuir esmolas aos pobres, além de visitar os enfermos e necessitados no Hospital da Caridade, em nome da Rainha. Todas as manhãs visitava os doentes do Hospital levando-lhes amor e o carinho reconfortante, que os animava com mais esperança na cura dos seus males. Com dedicação ensinou-lhes a rezar o Terço que na sequência dos dias, a oração passou a ser compartilhada pelos doentes e também pelos enfermeiros, que participavam com interesse e a maioria revelou uma fé consistente, permitindo-lhe montar com todos eles a “Confraria do Rosário”. Também no Hospital teve a oportunidade de conhecer e construir uma sólida amizade com o Padre Pierre de Bérulle, que também era um Sacerdote piedoso e dinâmico, e que logo percebeu os dons e as virtudes inestimáveis do Padre Vicente, meio ocultas pela aparência um tanto rude de Padre do interior. Mas eles se combinaram muito bem, e logo Vicente se colocou sob a direção espiritual do futuro Cardeal.

Após o assassinato do Rei Henrique IV no dia 14 de Maio de 1610, Padre Vicente passou um ano na Sociedade do Oratório que tinha sido fundado pelo Padre Pierre de Bérulle, o qual, pouco tempo depois foi nomeado Bispo de Paris, e indicou o Padre Vicente para ser o Vigário de Clichy, uma Paróquia nos subúrbios da grande cidade. Padre Vicente aceitou, acolhendo com satisfação a nomeação feita pelo seu amigo. Os fieis eram em sua maioria pobres lavradores, e como homem de religião, ele tinha a plena e total convicção de que aquele campo de trabalho foi escolhido pela Vontade de DEUS.

Em Clichy, Padre Vicente fez maravilhas: visitou todos os paroquianos; estabeleceu a prática da comunhão mensal; reconstruiu a Igreja; instalou no presbitério uma escola para instruir meninos previamente escolhidos, a fim de prepará-los para o sacerdócio. O povo ficou entusiasmado e a frequência aumentou de maneira admirável. Em menos de um ano ele conseguiu transformar integralmente a Paróquia.

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