A POLÍTICA ROMANA

E AS PROFECIAS

Com o objetivo de reproduzir na íntegra o panorama político na Europa e, particularmente na Itália e França, nos séculos XIV e XV, para que seja bem compreendida a época em que viveu Santa Francisca Romana, abordaremos os antecedentes do Cisma do Ocidente na Igreja Católica, a sua concretização e as terríveis consequências, que produziram e alimentaram uma abominável ruína moral e espiritual no povo.

ANTES DO GRANDE CISMA DO OCIDENTE

Entre os anos 1294 e 1303, quando aconteceram sérios confrontos dentro da própria Itália tão desunida pelas lutas partidárias, em que cada nobre ambicionava o poder, o Papa Bonifácio VIII, que era o Pontífice da Igreja, chegou a ser preso por dois cardeais corruptos e capangas do Rei Felipe IV da França, que queriam levá-lo para Paris. Depois de muitas peripécias, três dias após, o povo se rebelou e o libertou. Todavia, o Papa que já estava abatido moral e fisicamente pelos reveses sofridos, faleceu um mês depois. No ano 1305, foi eleito em Perúgia, o Papa Clemente V, seu sucessor. A luta na cidade de Roma continuava acirrada e violenta, entre as famílias dos nobres, cada uma ambicionando ter a posse do poder. Por essa razão, apenas por conveniência e segurança, o novo Papa aceitou o convite do monarca francês, Felipe IV, e levou a sede do Papado de Roma para Avignon, na França, dando início ao que se conhece como o “Cativeiro de Avignon”, que se prolongou de 1309 a 1377. O soberano da França satisfeito com aquela vitória, (por que era resultado de uma trama arquitetada por ele) começou a impor a sua vontade, obrigando o Papa Clemente V, sucessor do Papa Bonifácio VIII, a continuar instalado em território francês, deixando vago o trono em Roma. E assim, sete pontífices foram eleitos, todos eles franceses, se sucederam em Avignon.

Isto trouxe graves consequências à estrutura da Igreja, pois aproveitando da situação, ocorreu uma série interminável de nomeações de cardeais na maioria franceses e a eleição de Papas, também franceses, um após o outro, despertando suspeita nas demais nações de que a suprema dignidade da Igreja tinha-se convertido num instrumento dócil a serviço da política francesa.

Entretanto, alguns Papas, mesmo de nacionalidade francesa, começaram a se revelar como verdadeiros cristãos e se preocupavam com aquela situação em Avignon e inclusive, fizeram algumas tentativas de mudanças. Por exemplo, o Papa Urbano V chegou viajar a Roma e inclusive esteve no Vaticano, mas regressou logo a Avignon porque vislumbrou terríveis tramas e possíveis dificuldades, sendo desse modo, uma viagem muito fugaz.

Em 1377, o seu sucessor, Pontífice francês Papa Gregório XI que estava em Avignon, foi mais corajoso, utilizou de todos os meios para retornar a Roma, ou seja, restituir a Roma a sua função tradicional de residência Papal, restabelecendo a administração da Igreja direta do Vaticano, como era anteriormente. E decididamente o Papa Gregório XI foi para a Itália, pondo fim ao longo exílio papal. Santa Catarina de Sena, uma heróica lutadora pelo restabelecimento da legalidade, com o retorno da residência papal a Roma, veio para Roma e diariamente estava no Vaticano rezando com o Sumo Pontífice, suplicando a proteção Divina. O Papa tinha apenas 47 anos de idade quando retornou o papado a Cátedra de São Pedro na Itália, mas devido a sérias complicações de saúde, morreu 14 meses depois, no dia 27 de março de 1378.

Os italianos, empolgados com a iniciativa do Papa Gregório XI, clamaram pela eleição de um novo Papa, agora italiano, e assim, o retorno definitivo da sede do Papado a Roma. No conclave realizado os Cardeais optaram por Bartolomeo Prigano, Arcebispo de Bari, um simples líder da chancelaria papal que estava localizada em Avignon. Ele assumiu o Pontificado com o nome de Urbano VI, o qual foi aceito por todos com a esperança de pacificação no Catolicismo.

Mas este novo Papa logo se revelou inconstante, propenso a ataques nervosos e não tinha nenhuma diplomacia, e por isso, passou a ser rejeitado por muita gente. Os Cardeais que ficaram contra ele se uniram à Rainha Joana I de Nápoles e escolheu um novo pontífice, Roberto de Geneva, intitulado Clemente VII, que assumiu o trono de Avignon e dessa maneira, se tornou um Antipapa.

Cada um deles, Urbano VI em Roma e Clemente VII em Avignon, reivindicavam o direito de ocupar o lugar de Pedro diante do mundo católico. Eles se ameaçavam mutuamente com terríveis acusações de heresia e com promessas de excomunhão. Então começou o “Grande Cisma do Ocidente”.

O CISMA DO OCIDENTE

O universo católico ficou dividido e a unidade da Igreja ameaçada. Clemente VII, em Avignon, era mais sábio e inteligente, um emérito conciliador, e assim, conseguiu unir em torno de si diversas dinastias reais e pessoas de destaque da Igreja. Já Urbano VI além de contar com os ingleses, o Sacro Império e a região localizada ao norte da Itália, tinha o auxílio fundamental de Santa Catarina de Sena. Então o que estava acontecendo não era um “Cisma” de fato, com separação de doutrinas e fundamentos cristãos, mas uma rivalidade entre as pessoas que dividia a obediência a dois Papas, e não à obediência a Igreja.

E o conflito tornou-se incandescente, quando o monarca francês manifestou o desejo de restabelecer a residência Papal definitivamente em Avignon, no sul da França. Era um grande problema que necessitava de urgente solução, porque a obediência estava dividida entre os dois Papas, que governavam. Os Estados da Escandinávia, Flandres, Inglaterra, o Imperador Romano e a maioria dos príncipes, que apoiava Urbano VI, decidiram usar a força, se necessário, para destituir Clemente VII, que estava apoiado pelos parentes do rei da França, Carlos V, pela Escócia, e por Castela. Então, a situação assumiu uma aparência de cruzada, uma nova guerra santa. Dessa forma, os reis, os prelados, os párocos, as ordens religiosas tomaram partido, ajudando nessa divisão de obediências.

O confronto tomou proporções mais amplas, transformando-se em episódio diplomático de alcance continental na Europa. Isto porque, cada Papa tinha a seu lado sustentações provindas de uma parte ou de outra do território europeu. O tempo passou e por doença e morte, os dois pontífices tiveram que ser substituídos: Em 1394 morreu em Avignon o Papa Clemente VII e foi substituído pelo Papa Bento XIII. No mesmo ano, o Papa Urbano VI faleceu em Roma e cedeu lugar a Gregório XII. Os dois novos Papas continuaram a governar em suas áreas, com suas exigências, mas, agora com menos belicosidade.

O Catolicismo vivia num caos. Em 1409, os dois grupos decidiram buscar uma via conciliar para resolver a situação, realizando o Concílio de Pisa. Eles destituiriam os dois Papas: Bento XIII e Gregório XII e elegeram o Papa Alexandre V (com a maior parte das Ordens Religiosas decididas a fazer uma inteira reforma na Igreja). Mas os dois papas que tinham sido destituídos não aceitaram e a igreja passou a ser governada agora por três Papas.

Alexandre V morreu prematuramente e foi eleito João XXIII e já no ano seguinte ele tomou posse da Cátedra romana. E assim a Igreja permaneceu com três Papas. Este era o contexto no princípio do século XV. O catolicismo havia chegado ao extremo da instabilidade política e religiosa, então se decidiu pelo fim desta divisão, realizando-se, em 1414/18, um Concílio na cidade de Constança, para dar uma solução definitiva ao impasse.

Houve uma intensa luta política, mas finalmente chegou-se a um consenso em 1417, que culminou com a renúncia do Papa Gregório XII de Roma, a destituição dos outros dois: o Papa João XXIII, que já se encontrava sem qualquer apoio, e o Papa Bento XIII que tinha se isolado na Catalunha, e no dia 11 de novembro de 1417, foi escolhido um novo Chefe para a Igreja, o Papa Martinho V. Ele retornou a Roma e assumiu definitivamente o comando da cátedra de São Pedro, acabando finalmente o Grande Cisma do Ocidente.

Na verdade, em 1439, ainda surgiu o Antipapa Félix V, o qual, não conseguindo êxito em suas investidas, acabou desaparecendo.

Verdadeiramente, todos aqueles anos se transformaram em tempos difíceis para a vida eclesiástica, que produziu muita confusão, dúvidas na consciência dos cristãos e enfraquecimento da fé.

CONSEQUÊNCIAS DO CISMA

Do ponto de vista político e administrativo, havia uma anarquia incontrolável. Em Roma, a desordem e a miséria atingiram a um deplorável apogeu. A agitação municipal revertia em proveito do rei de Nápoles, cujos soldados ocupavam a cidade eterna, desde o conclave de 1406. Por todas as partes brigas e confusões, o equilíbrio de forças era precário, e as rivalidades políticas se misturavam com os ódios familiares.

Havia luta acirrada entre as diversas facções, pilhagens no comércio e nas residências particulares, insurreições contra a ordem constituída e anarquia de um modo geral. O lixo se acumulava na cidade e a degradação dos monumentos impressionava pela falta de cuidado e de conservação.

Sob o aspecto social e econômico, com a mudança do governo pontifício para Avignon, Roma fechou muitos colégios e o empobrecimento cresceu de modo assustador. A cidade ficou a beira da ruína.

Malandros e safados surgiam em quantidade e se enriqueciam a custa dos peregrinos. A Catedral de São João de Latrão, que é a antiga Catedral de Roma, e a sede dos Papas, estava completamente abandonada desde que o Papa deixou Roma e que os canônicos, que ficaram como únicos donos da Igreja viviam nela sem regra alguma e sem se preocupar com a conservação do edifício.

Foi um período onde se destacaram as ruínas morais e espirituais do povo, as desgraças, a miséria e o total abandono da cidade. Em 1402 a desordem era tão grande, que os servos de São Marcelo venderam a sua famosa biblioteca para socorrer as suas próprias necessidades. E isto também aconteceu com numerosos eclesiásticos que tiveram igualmente que vender o que possuíam, para poderem viver.

Este era o caótico panorama da cidade de Roma, na época de Santa Francisca Romana.

Entretanto, como já focalizamos, com muitos sacrifícios e uma admirável perseverança, ela viveu com sua família e realizou um magnífico apostolado, ajudando os pobres, os famintos, os enfermos e necessitados de um modo geral, levando o consolo e o alivio a todos que buscavam. A graça de DEUS atuava na caridade e na piedade de Francisca, a ponto dela excedendo os seus próprios limites, pela Vontade Divina, conseguia manifestar um imenso e incomensurável amor ao próximo, em todas as suas obras de misericórdia.

O AMOR MATERNO

Uma característica da personalidade de Francisca é justamente a discrição, o sentido correto de um posicionamento discreto. Este aspecto aparece evidente se considerarmos o seu relacionamento com os filhos, quando os segredos de cada um eram guardados hermeticamente em seu coração.

No processo de canonização está escrito que Francisca suportou com paciência incrível a perca de sua criança. Por que ela tinha um forte instinto materno. Foi um amor infeliz, o seu, porque de três filhos o único que sobreviveu foi Battista, aquele que mesmo lhe fazendo o bem, talvez fosse o menos compreendido. Na verdade, ele era um digno herdeiro dos Ponziani, trabalhador, prático, tinha um cuidado especial para proteger o gado dos assaltantes, que eram o pesadelo dos criadores romanos. Mas, em seu leito de morte, a Santa não hesitou em repreendê-lo severamente, por que ele querendo ajudar, a restaurar a saúde da mãe, numa tentativa desesperada recorreu aos serviços de uma feiticeira, à prática da magia, que Francisca vigorosamente detestava e não aceitou.

COMO SE FOSSE A MÃE

Na espiritualidade de Francisca, é importante observar, que ela foi nutrida pela leitura devota e a intensa prática sacramental, ficando especialmente centrada no Mistério da Encarnação, na realidade de um DEUS-Homem, nascido de uma mulher, que viveu, foi atingido pela dor, morreu pregado num madeiro e ressuscitou para a eternidade, consolando o PAI ETERNO e Redimindo a humanidade de todas as gerações. Uma visão em particular se apresentava frequentemente aos olhos da Santa: CRISTO lhe apareceu em forma humana, com o Corpo marcado pelos flagelos e as chagas da crucificação, das quais irradiavam feixes luminosos sobre toda humanidade. Este fato ficou gravado na sua mente, assimilando uma profunda prática ascética da memória da Paixão de CRISTO, com uma carinhosa devoção ao Divino Sangue Redentor, aos emblemas da Paixão, a Coroa de Espinhos e especialmente a todas as chagas do SENHOR.

Igualmente ela foi estigmatizada, levando durante muito tempo em seu lado, uma ferida dolorosa, sinal de plena conformidade corporal e espiritual com os sofrimentos de JESUS.

Todavia, a grandeza da dor não é tão essencial e característico da mística da Santa, como aquela da “Mãe Auxiliar”. Seu amor especial pelo MENINO-DEUS ficou realçado em numerosas visões do Natal, da Adoração dos Magos e da Apresentação de JESUS no Templo. Talvez, a imagem que a muitas pessoas ela revelou a sua doce e alegre intimidade com o Divino, é aquela em que NOSSA SENHORA lhe confiou e ela segurou em seus braços o MENINO JESUS e O levou até a Igreja de Santa Maria Nova, para mostrá-LO ao Padre Mattiotti.

Em outras oportunidades, teve a felicidade de embalar e aquecer o MENINO com o seu manto, ou brincar com o FILHO DE DEUS. Raramente esta questão encontrou uma intensidade tão acentuada, com uma expressão tão completa e tocante, como nas visões de Santa Francisca. Por isso mesmo, estas extraordinárias experiências da Santa, com certeza puderam fazê-la sentir como uma verdadeira “mãe auxiliar do SENHOR”, que carinhosamente escolhida pela VIRGEM MARIA, teve a felicidade de participar da alegria do MENINO-DEUS.

A PROFETISA

O Tratado das Visões escrito pelo Padre Giovanni Mattiotti, confessor da Santa, nos mostra a experiência interior de uma alma em sua abordagem para com DEUS e é um testemunho precioso do misticismo de Francisca. Mas ao lado desse momento todo espiritual e interior é possível colher no livro uma dimensão adicional que é a profética. A profecia tem um impacto histórico de significado muito geral por que pressupõe uma missão de orientação de guia e também política, do povo cristão. É realmente notável que nos seus últimos anos, a silenciosa, humilde e obediente Francisca viveu esta experiência excepcional, fazendo ouvir a sua voz para os problemas cruciais da Igreja de seu tempo.

O CONCÍLIO DE BASILÉIA (Suíça)

A profecia de Francisca se inseriu num momento difícil da vida da Igreja.

Após uma década de relativa tranquilidade, assegurada pelo Papa Martinho V (aliado da família Colonna), que soube manipular as dificuldades e os problemas que ocorreram depois do longo período do Cisma, a eleição de Eugênio IV em 1431, um monge veneziano antipático aos Colonna, abriu uma nova crise política. Eugene IV era um homem de grande disciplina pessoal e ascese rigorosa, tinha um alto conceito da autoridade papal e vivia as aspirações de reforma da Igreja, mas não tinha a mesma maturidade política de seu antecessor, necessária num período de severo enfraquecimento das instituições.

A oficial declaração do Concílio, realizado na cidade de Basiléia, na Suíça, para discutir os problemas mais graves e urgentes da Igreja, encontrou em 1432 uma forte oposição dos bispos lá reunidos, que decidiram continuar a trabalhar da maneira anterior, apesar da proibição papal.

Diante da ocorrência de novo rompimento na estrutura eclesiástica, Francisca reagiu com inaudita energia e por meio de seu Confessor, enviou uma mensagem ao Pontífice com súplicas e orações, pedindo para que ele trabalhasse com espírito de caridade para encontrar um meio de entendimento com os Cardeais. Esboçava-se o perigo de um novo Cisma que só seria evitado se o Papa abandonasse a sua intransigente posição e mantivesse firme o objetivo da unidade e da paz na Igreja. No estilo das revelações proféticas, as mensagens da Santa eram ameaçadoras com previsões terríveis sobre o destino do papa, cuja intransigência, revelava-se inimigo da caridade e colocava a Igreja em grave perigo.

A severidade de Francisca nos confrontos com Eugenio IV, não colocavam nenhuma dúvida sobre o papel e a dignidade do Papa. Mas ao contrário, era fruto de uma imensa esperança que o Papa, assumindo uma postura menos rígida conseguisse desviar a cólera de DEUS pela Igreja. Francisca nem cogitou a idéia de que DEUS iria escolher um Papa diferente, que não fosse Eugenio IV, que era o Papa legítimo, eleito e consagrado. Mas, embora existisse de fato uma plena adesão de Francisca à hierarquia eclesiástica, nela existia também o imperioso e profundo desejo de sua purificação moral, ou seja, a purificação moral de todo o clero.

Em 1433 Eugenio IV corrigiu, pelo menos em parte, as suas posições, permitindo a continuação do Concílio em Basiléia, mas não conseguiu evitar motins e rebeliões internas no Estado. Em Maio do ano seguinte, os romanos se rebelaram e proclamaram a República, obrigando o Papa a fugir de Roma, em circunstâncias trágicas e a procurar abrigo em Florença. Francisca tinha previsto a fuga do Pontífice e a terrível discórdia que abateu sobre a cidade, ainda uma vez no auge da guerra civil. No Outono de 1434 a ordem e a disciplina no Estado Pontifício foram restauradas, mas à custa de dura repressão. Como disse a Santa, ao invés de encontrar uma real solução do problema, através de um trabalho intenso e profundo de conversão do coração, através da oração e da reconciliação comunitária, usaram a força e a repressão.

 

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