=NASCIMENTO=

-VINDA AO BRASIL-

FAMÍLIA E IDEAL CRISTÃO

José de Anchieta nasceu no dia 19 de março de 1534, em San Cristobal de La Laguna, ilha de Tenerife do Arquipélago das Canárias, que pertence à Espanha. Seu pai João Lopez de Anchieta, era natural da Província de Guipuscoa no Vale Urrestilha, na Espanha, homem forte, revolucionário, tomou parte na Rebelião dos Comuneiros contra o Imperador Carlos V, em seu país. Foi condenado à morte, mas salvou-se por interferência de um parente militar ilustre, o Capitão Inigo de Loyola (Inácio de Loiola, mais tarde fundador da Companhia de Jesus). Por precaução, mudou-se para as Canárias. Sua mãe era a senhora Mência Dias de Clavijo y Llarena, natural das próprias Canárias, era neta de judeus convertidos ao cristianismo. De uma família de 12 irmãos, foram consagrados mais dois sacerdotes além do Padre Anchieta: O Padre Pedro Nuñez e Padre Melchior.

Os seus estudos iniciais e o aprendizado de latim foram realizados nas Canárias, oportunidade em que revelou empenho e disposição para aprender. Quando completou 14 anos de idade, em companhia de seu irmão mais velho Pedro Nuñez, pela vontade de seus pais, foi para Portugal a fim de continuar os estudos no Real Colégio das Artes em Coimbra, onde estudou humanidades e filosofia. E novamente, se destacou, mostrando excelente aplicação nos estudos, falando fluentemente o português sem o sotaque espanhol e com facilidade, fazia versos em latim, o que lhe valeu o apelido de “Canário de Coimbra”.

Além de estudante competente, adquiriu o bom hábito de rezar todos os dias, devotando um grande amor a JESUS e a MARIA SANTÍSSIMA, que o estimulou a cultivar com seriedade e afeição o caminho da religião.

Em 1551, aos 17 anos de idade, com a autorização e bênção dos pais, entrou no Seminário da Companhia de Jesus, em Coimbra. Mas, com pouco tempo de Seminário, adoeceu com tuberculose óssea, de difícil tratamento naquela época e que ocasionava uma terrível dor nas costas. Com 18 anos de idade a sua coluna vertebral estava tão curvada que fazia um “S”. Mas com esforço, continuava cumprindo todos os seus afazeres, e até brincava com sua própria infelicidade: “A natureza me preparou para carregar fardos”.

Como vinham para o Brasil muitos missionários com o objetivo de trabalhar na evangelização dos índios, os médicos também concordaram que o clima ameno brasileiro poderia suavizar os efeitos da doença, e por essa razão, recomendaram aos Superiores dos Jesuítas, a sua vinda para cá, pois aqui até poderia ficar curado.

A VIAGEM

Assim, em 1553, depois de ter pronunciado os primeiros votos religiosos no dia 8 de Maio, o Irmão José, como passou a ser chamado, veio para o nosso país na terceira expedição jesuíta, chefiada pelo Padre Luiz de Grã.

Era o dia 13 de julho de 1553, quando Anchieta chegou ao Brasil, ao "paraíso terrestre", como descreviam os historiadores contemporâneos do padre. A Terra de Santa Cruz podia ser considerada um sanatório onde aportavam doentes com tuberculose, varíola e outras doenças contagiosas. Anchieta com 19 anos de idade era o mais jovem dos jesuítas na esquadra do Governador Duarte da Costa, segundo Governador Geral do Brasil. A saúde do noviço jesuíta melhorou sensivelmente durante a viagem, e quando desceu em Salvador, na Bahia, dois meses depois de uma viagem pelo mar, estava praticamente curado.

E se mostrava entusiasmado com a imensa missão que o aguardava. Mas permaneceu pouco tempo na capital baiana, porque logo veio à ordem do Superior dos Jesuítas no Brasil, Padre Manuel da Nóbrega, distribuindo os jesuítas pelas diversas escolas e designando o Irmão José de Anchieta e outros, a seguir com o Padre Leonardo Nunes para São Vicente, (hoje no Estado de São Paulo).

CONSTRUINDO PARA CATEQUIZAR

Foi nesta Vila onde começou de fato a sua missão entre nós. Sob a chefia do Padre Manuel de Paiva, os Jesuítas subiram a serra do Mar e chegaram ao planalto a fim de fundar e dirigir o Colégio Piratininga. Em carta que escreveu em 1554, ao Superior da Ordem Jesuíta Ignácio de Loyola, ele disse:

"Aqui fizemos uma casinha pequena de palha, e a porta estreita de cana. As camas são redes que os índios costuraram; os cobertores para aquecer, o fogo, para o qual, acabada a lição à tarde, vamos buscar lenha no mato e a trazemos às costas, para passarmos a noite. A roupa é pouca e pobre, sem meias ou sapato, no pé as vezes usamos pano de algodão... A comida vem dos índios, que nos dão alguma esmola de farinha e algumas vezes, mas raramente, alguns peixinhos do rio e mais raramente ainda, alguma caça do mato."

Com esforço e dedicação e ajudado pelo português João Ramalho e pelo cacique Tibiriçá, construíram uma cabana de “pau a pique” (em que as paredes são feitas com bambus entrelaçados, e os vãos, de ambos os lados, cheios com barro) com aproximadamente 90 metros quadrados de área. A choupana foi inaugurada no dia 25 de Janeiro de 1554, data em que se comemora a conversão do Apóstolo Paulo. Por essa razão foi denominado Colégio de São Paulo de Piratininga, onde é hoje o “pátio do Colégio”, e dessa forma, nasceu à cidade de São Paulo. Para marcar a solenidade, o Padre Manuel de Paiva celebrou no local uma Santa Missa, auxiliado pelos outros Jesuítas recém chegados, inclusive o Irmão José de Anchieta.

Naqueles anos do início foi muito difícil, e o barracão servia de dormitório, enfermaria, de colégio, refeitório, cozinha e até de Capela, onde eram celebradas as Missas.

Ao redor do colégio dos padres, logo foi sendo edificada a povoação, surgindo outros barracões, onde foram instaladas oficinas de carpintaria, sapataria, etc., e tudo de pau-a-pique e sapé.

Durante dez anos Anchieta ensinou aos índios, aos filhos dos colonos e aos Noviços da Companhia de Jesus. Como não havia livros ele preparava e copiava as lições, de modo a atender eficientemente a todos os seus alunos. Assim, com boa vontade, superava a natural carência dos recursos necessários ao exercício do magistério. Aprendeu a língua “tupi” e como mestre de gramática começou a estudar a língua falada pelos índios, porque percebeu que os idiomas das diversas tribos indígenas tinham a mesma base linguística. Desse modo, com impressionante empenho, unificou todos aqueles idiomas num único dialeto, o “tupi”, elaborando um “Livro de Gramática da Língua mais falada na Costa do Brasil” (o tupi) com seus princípios e regras. Esta providência ajudou de maneira considerável a comunicação entre os missionários e os nativos, e primordialmente, na catequese.

Também compôs um “Catecismo” simples e objetivo, sob a forma de diálogo, para ensinar e educar os índios nos principais Mistérios da Fé Cristã, sem violentar as tradicionais crenças indígenas, mas amoldando o seu conteúdo a Verdade Cristã.

Estas duas obras, na época foram impressas em Portugal, e representaram um auxílio inestimável a todas as Missões Jesuíticas no Brasil.

Irmão José era incansável, onde se encontrasse, sempre estava disponível para atender uma solicitação ou agilizar alguma providência. Ele se desempenhou de maneira eficiente e brilhante, na função de professor, músico, enfermeiro, sapateiro, taumaturgo, construtor, conselheiro espiritual, e em muitas outras atividades.

PERSEGUIÇÃO E CAPTURA DE ÍNDIOS

Na época, o pensamento europeu, de um modo geral, era totalmente contra a evangelização e educação dos índios, que por muitos eram até considerados sem alma. Vinham embarcações que aportavam as costas brasileiras e transportavam os índios para o trabalho escravo ao longo do continente. Então, os missionários jesuítas, tiveram que alimentar uma tenaz luta pela liberdade e dignidade dos povos indígenas, não só por exigência da própria consciência cristã, mas também porque a posição oficial da Igreja era a favor da igualdade de todos e contra a escravização do homem. Esta realidade tornou-se pública através do documento de Sua Santidade, o Papa Paulo III, a bula “Sublimis Deus”, editada em 1537, que considera todas as raças iguais, inclusive os índios, em face da Redenção do SENHOR.

Numa ocasião, Irmão José fazia uma pregação na cidade de Santos, quando subitamente interrompeu as suas palavras, porque pelo dom da profecia teve a visão de uma expedição que capturava índios no interior de Santa Catarina. Ele revoltado, falou:

“Eu sou o cão da casa do SENHOR (sempre vigilante), não hei deixar de ladrar. Digo-vos, da parte de DEUS, que não deixem sair deste porto uns dois navios, que estão (para transportar índios) para fazer viagem aos Patos, índios que estão de paz conosco e são nossos amigos, (e estão) a cativá-los com suas costumadas e injustas traças (armadilhas) . De outra sorte hão de ver, o que forem (aqueles predadores), a ira de DEUS sobre si, e hão de morrer miseravelmente”.

Mesmo sendo sabedores da advertência do Santo, os terríveis caçadores zarparam com seus navios. Mas havia certo ambiente de intranquilidade dentro das duas embarcações e este fato logo veio ao conhecimento de todos, quando alguns dias depois da partida, um dos homens importantes da expedição, acordou aos gritos. Ele teve um pesadelo, em que se sentia arrastado para o inferno. O demônio com estridentes gargalhadas se apoderava dele. Arrependido de tomar parte naquela expedição convenceu os seus companheiros a voltar e deixá-lo no porto.

Ele ficou e, as duas caravelas seguiram viagem, mas não alcançaram o seu destino. Uma terrível tempestade varreu furiosamente as embarcações, e com exceção de dois tripulantes, todos morreram no naufrágio.

UMA CATEQUESE DIFERENTE

Irmão José de Anchieta, Padre Manuel da Nóbrega e outros missionários jesuítas praticavam a catequese de uma maneira bem agradável e cativante, com canto, poesia e teatro. Na verdade, a iniciativa começou com Anchieta compondo diversos autos, que eram encenados com grande entusiasmo e alegria pelos índios e colonos. E as apresentações eram tão bem feitas e agradavam tanto, que se repetiam em diversos povoados, como São Vicente, Rio de Janeiro, Niterói, Pernambuco e Bahia, com jubilosa participação.

E é interessante realçar que o público era muito variado, com diversas origens, e por isso mesmo, os autos eram escritos nos três idiomas: tupi, português e espanhol, a fim de que todos ouvissem e entendessem as apresentações. Irmão José, inspirado pelo ESPÍRITO SANTO, procurava cativar os índios com a intenção de favorecer o entendimento da mensagem cristã. E para alcançar este objetivo, ele incluía nos autos alguns elementos da cultura indígena, mesclando personagens nativas com personalidades da tradição católica.

 

PREGADOR QUE SABIA CATIVAR

Ele sempre foi obediente as ordens de seus superiores, as quais cumpria integralmente com perfeição. A única coisa da qual procurava fugir era quando, em algumas ocasiões o Superior Padre Manuel da Nóbrega o mandava subir ao púlpito para fazer uma pregação. Isto porque, não sendo sacerdote, não se julgava com autoridade para realizar uma tarefa tão sublime.

Todavia, aconteceu que numa Semana Santa, Padre Nóbrega adoeceu, e Irmão José de Anchieta teve que substituí-lo. Assumindo a responsabilidade com dignidade, ajoelhou-se diante do altar da VIRGEM e pediu inspiração. Subiu ao púlpito e com muita serenidade e vigor, fez um magnífico sermão, deixando os fiéis emocionados e com lágrimas nos olhos. No dia seguinte, Padre Nóbrega com um sorriso paterno e muito carinho, lhe falou: “Haveis de dar conta a DEUS porque não quisestes pregar até agora”. (reconhecia nele o notável dom da oratória)

 

 

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