NUVENS AMEAÇADORAS

 

 

 

O BOM RELACIONAMENTO COM TODOS

A menina vivia bem com todos os vizinhos, sobretudo com a família Cimarelli, com quem partilhava a sua crença cristã e sua fé. Teresa, sua amiga, lhe disse um dia: “Amanhã você me acompanha para comungar em Campomorto”? E da mesma maneira, com todos os vizinhos, amigos da sua família, com os quais se encontrava para participar da Santa Missa e receber JESUS Sacramentado, nas Igrejas daquela região denominada região do pântano, ela se mantinha como pessoa agradável, honesta e excelente companhia. Inclusive com a família do próprio João Serenelli e do seu filho Alessandro, gente simples, muitas vezes rude e pecadora, que viviam na mesma casa por necessidade do trabalho. Ela tão jovem e tão consciente, raciocinava: “Somos verdadeiramente os filhos do mesmo poderoso e misericordioso DEUS. Então todos nós somos irmãos. Por isso devemos nos respeitar e nos suportar mutuamente, amando uns aos outros como o SENHOR nos ensinou”. Sem dúvida, Mariazinha era uma menina muito feliz, alegre e descontraída, uma pessoa simples, humilde e muito pura, que sem dúvida, estava iluminada pela luz do ESPÍRITO SANTO, pois onde estivesse, estava presente uma alegria sincera e honesta, além de um imenso amor a DEUS.

 

QUEM ERAM OS SERENELLI

Na casa, Mariazinha fazia tudo: arrumava todos os quartos, inclusive o quarto dos dois Serenelli, João e seu filho Alessandro. Por sua própria vontade carinhosa de bem servir, quando via uma camisa rasgada ou sem botões, sem que ninguém pedisse, ela costurava, e colocava botões onde faltava. Lavava toda a roupa da casa, da sua família e dos Serenelli e depois passava. E nunca, ninguém chegou perto dela e disse: “Obrigado Mariazinha”. Era como se ela tivesse a obrigação de também atender as necessidades da família que vivia na mesma casa! E o pior, “eles” não agradeciam os benefícios que recebiam, mas sabiam sim, “reclamar em alta voz”, sempre se queixando de alguma coisa: da comida que Mariazinha fazia, das roupas que às vezes não estavam “muito bem passadas”, etc. Nunca a pouparam de nada, e nem consideraram a realidade dela ser apenas uma criança com 11 anos de idade.

 

INVESTIDAS CRUEIS

Todavia, muito pior do que as reclamações era o comportamento do filho Alessandro... Tinha um gênio muito agressivo e se manifestava com frequência, com atitudes ditatoriais, inconcebíveis num ambiente humilde e simples, como aquele onde moravam. E apesar de ser um rapaz com 20 anos de idade, não poucas vezes, ficava olhando para Mariazinha “sabe-se lá com quais intenções”. E foi na continuidade deste procedimento estranho, que em principio de Junho de 1902, ele fez uma inesperada e forte investida sobre a menina, tentando agarrá-la, quando ela no cumprimento das suas obrigações, entrou no quarto e colocou sobre a cama as roupas que havia lavado e passado com tanto carinho e atenção. Apesar de criança, com o susto do inusitado acontecimento, conseguiu dar um salto para trás, alcançando a porta e dizendo: “Isto é pecado Alexandre, DEUS não quer estas coisas. Não faça isto comigo”. O rapaz depois de tentar o seu objetivo e não conseguir, cheio de raiva falou: “Se você contar a alguém eu lhe mato”.

Ela intimamente ficou arrasada, mas não teve a coragem de contar a sua mãe, com receio de transformar aquele acontecimento numa terrível guerra de imprevisível consequência. Passaram-se os dias e a convivência parecia ter voltado à normalidade. Ela continuava fazendo habitualmente todos os serviços, atendendo a todos os chamados, mas mantendo-se um pouco reservada em relação ao rapaz, só entrava no quarto dos Serenelli para fazer a limpeza, arrumar ou deixar alguma roupa, quando eles se encontravam trabalhando na roça.

Algum tempo depois, quase no final de Junho de 1902, por alguma razão particular, o pai e o filho chegaram da roça mais cedo, e o pai precisou sair para uma localidade próxima, enquanto Alessandro permaneceu em casa. No habitual serviço caseiro, Mariazinha varria a casa e passava um pano molhado em algumas partes da sala e da cozinha. Como todos estavam trabalhando, somente se encontravam em casa ela e sua irmã menor com 6 anos de idade, Alessandro não perdeu a oportunidade, foi novamente ao encontro dela fazendo propostas indecorosas, e exigindo que ela aceitasse. Mariazinha com firmeza respondeu: “Não, eu não posso e não quero, é pecado. DEUS não permite estas coisas.” E assim falando, rapidamente pegou na mão da sua irmãzinha e ligeiro entrou no quarto da mãe, e ele ainda num salto animal tentou agarrar o seu ombro, dizendo: “Se você contar a alguém eu lhe mato”.

 

O DRAMA DE MARIAZINHA

Ela tinha vontade de sumir daquele ambiente levando sua mãe e seus irmãos... Mas como fazer isto? E ir para onde? Eles eram pobres, não tinham outro local para trabalhar, como iam viver? E agora, esta terrível e triste situação... “Se eu contasse a minha mãe, ele prometeu me matar... O que vou fazer meu DEUS”? Assim pensava ela.

No corpo de Mariazinha, vivificado pelo ESPÍRITO SANTO, o SENHOR JESUS celebrava mais uma vez, a vitória do bem sobre o mal e a morte, vendo o procedimento correto de Mariazinha, que representava um atestado de amor e de uma fidelidade mais forte do que o ódio e a brutalidade das pessoas.

Triste com aquela realidade Mariazinha sentia que se aproximava um desfecho terrível, e isto a fazia sofrer e chorar, desejando mais e mais ir a Igreja e receber a força e o auxílio de JESUS Sacramentado. Ela não queria o mal para ninguém, mas também não queria de nenhum modo trair a sua fidelidade e a grandeza de seu amor a DEUS. Jamais aceitaria ofender ao SENHOR com qualquer ato ou comportamento indigno...

E na verdade, Mariazinha sempre demonstrou possuir uma grande capacidade de discernimento. Sabia ler os sinais de DEUS na sua história e na da sua família, dispondo-se imediatamente a fazer a Vontade do SENHOR. Assim, soube reagir à morte do pai com estas palavras: “Mamãe, não fique preocupada... Eu fico no seu lugar tomando conta da casa”. De fato, assim ela fez de modo admirável com impressionante responsabilidade: “Dirigia a casa e cuidava habilmente dos irmãos”. E nessa condição de menina responsável pela casa, de fazer todos os serviços, diante daquelas abomináveis ameaças de Alessandro, suplicou insistentemente a sua mãe no sentido de arranjar um tempo, e lhe permitir um horário, para que pudesse ir a Igreja a fim de receber JESUS na Sagrada Comunhão. Embora tivesse uma imensa fé em NOSSO SENHOR, naquela época ela precisava mais do nunca, ir a Igreja e comungar, a fim de sentir verdadeiramente JESUS na sua vida...

A experiência de vida ensina, que no cotidiano em muitas e muitas ocasiões, uma pessoa verdadeiramente equilibrada espiritualmente precisa ter a coragem de saber dizer: “Não, não... DEUS não quer isso!” No caso dela, apesar da sua pouca instrução, Mariazinha tinha a plena lucidez que existiam coisas que DEUS queria e outras que ELE não queria. A Catequista em Conca havia lido no Novo Testamento: “EU vim para que tenham vida, e a tenham em plenitude”. (Jo 10,10)

Por tudo isto, ela sempre queria e se esforçava para manter sua fidelidade, a fim de que a Vontade do PAI ETERNO fosse seguida em todas as ocasiões, de maneira incondicional, ao longo da sua pobre e dedicada trajetória existencial.

A senhora Assunta se lembrava da atenção com que sua filha ouvia as pregações nas Santas Missas, procurando entender e guardar os ensinamentos sagrados que o orador anunciava, principalmente durante a Semana Santa, quando se emocionava com as palavras do Padre Pregador, derramando muitas lágrimas pelas dores da Paixão do SENHOR. Isto porque, Mariazinha tinha sido educada na sabedoria da Cruz e no amor para com todos os sofredores.

Na véspera do dia fatal, ela parecia pressentir “o cálice que teria de beber”. Por isso, procurou a sua vizinha amiga e lhe perguntou: “Teresa, amanhã você quer me acompanhar ate Campomorto? Sinto a necessidade de Comungar. Não vejo à hora”. Ela queria receber JESUS Sacramentado, para aumentar as suas forças e lhe infundir mais coragem e inspiração, para acabar com aquele drama da sua vida, pois estava com grande receio que algo de mal e muito sério pudesse acontecer. Todavia, naquele dia não foi possível, as famílias já haviam assumido compromissos. O plano que sempre faziam consistia em sair cedo para a Igreja em Campomorto, participar da Santa Missa às 7 horas; às 7h30 ou 7h40, retornavam, chegando a casa no máximo às 10 horas para preparar o almoço. Todavia desta vez não puderam realizar o mesmo projeto.

 

OBSESSÃO, LOUCURA E MORTE

Mariazinha se encontrava naquela sufocante e calorenta tarde do inicio do mês de Julho de 1902, cuidando da sua irmã Teresa, que era a caçula da família. De repente surgiu Alessandro, que havia dado uma desculpa qualquer na roça, e voltou mais cedo para casa. Eram três horas da tarde. Com palavras insinuantes ele foi se aproximando com a intenção de segurá-la. Mariazinha com o terço na mão se ajoelhou rapidamente e lhe implorou: “Alessandro, não faça isto, é pecado, você vai para o inferno”! Ele insistiu e a agarrou. Ela lutou bravamente e conseguindo escapar, ainda com o Terço na mão falou: “Não! Não faça isto! Alessandro, o que você está fazendo? DEUS não quer este pecado”! Ele correu para cima dela e a alcançou, e tentou controlá-la sem qualquer êxito. Então, como um louco irado, puxou a faca que trazia na cinta e lhe desfechou covardemente 11 punhaladas mortais, lançando-a ao chão banhada em sangue. Ela chorando e gritando clamava: “JESUS! JESUS! Meu DEUS”! Com suas últimas forças num esforço incomum, conseguiu se levantar e correr em direção a porta da residência, se debatendo praticamente sem forças, e dizendo: “Meu DEUS! JESUS Meu DEUS estou morrendo”! O rapaz um homem forte e ágil correu loucamente em cima dela, e covardemente a agarrou na porta de entrada e lhe cravou mais três terríveis punhaladas, lançando-a ao chão, praticamente morta, enquanto rapidamente desceu a escada e fugiu como um bandido cruel.

A irmã menor que dormia no quarto acordou com aquele barulho e começou a chorar. Quando a mãe Assunta e o pai do assassino chegaram da lavoura, encontraram Mariazinha sangrando no chão, quase sem vida. Imediatamente a levaram para o Hospital Orsenigo em Nettuno. Ela foi operada sem anestesia, em regime de extrema urgência, mas os ferimentos eram gravíssimos, estavam além da capacidade profissional dos médicos, pois além de muitas, as facadas atingiram órgãos vitais como o coração, os pulmões, o diafragma e a garganta.

No leito do Hospital, falando com dificuldade, revelou a sua mãe: “Ele queria que eu fizesse um pecado feio, e eu não quis. Por isso ele me cravou a faca”.

Completou Mariazinha: “Mamãe, as tentações foram três, ele queria de todas as maneiras, que eu pecasse, mas eu sempre respondi: DEUS não quer”.

A mãe lhe falou: “Mariazinha querida, porque você não me contou tudo isto que estava acontecendo? Teria pelo menos, evitado a sua morte”.

Ela respondeu: “Mamãe, eu tinha vergonha, porque não sabia como ia lhe dizer isto. Além do mais, Alessandro jurou que me mataria, se eu contasse a senhora. E acabou me matando do mesmo jeito”.

Sem qualquer dúvida, ela não contou a sua mãe as tentativas de Alessandro, para não causar uma séria tensão no ambiente onde moravam, e também porque, em breve o rapaz ia partir para o serviço militar, pois ele já estava convocado pelo exército por sua idade, por isso ela tinha paciência, com a convicção de que logo estaria livre dele, e com a graça de DEUS estaria em paz. Mas infelizmente os fatos se precipitaram.

Mariazinha permaneceu em tratamento no Hospital por 20 horas. No dia seguinte ao crime, a senhora Assunta descreveu os seus últimos momentos de vida, dizendo:

“Percebendo que minha filha estava no fim da vida, beijei-a e ela também me beijou. Também lhe mostrei um Crucifixo e uma Medalha de NOSSA SENHORA, que eu trazia no peito, e ela beijou os dois, com muita devoção”.

Então lhe pediram, naquele derradeiro momento, para perdoar Alessandro pelo crime cometido. Ela com uma frase desconcertante, revelando a sua familiaridade com DEUS, respondeu: “Sim, eu o perdôo por amor a JESUS; que DEUS também o perdoe e ele possa entrar no Paraíso”.

Ficou em silêncio, olhando uma bela pintura da VIRGEM MARIA. Depois fechou os olhos e partiu para a eternidade. Eram 11 horas da manhã do dia 5 de Julho de 1902.

 

BEATIFICAÇÃO E CANONIZAÇÃO

Os processos regulares exigidos pela Igreja foram preparados e concluídos, relatando os diversos milagres ocorridos por obra de DEUS NOSSO SENHOR, pela intercessão de MARIA GORETTI. Sua BEATIFICAÇÃO foi celebrada na Basílica de São Pedro no Vaticano, no dia 27 de Abril de 1947, pelo Sumo Pontífice, Papa Pio XII.

Seguindo o processo canônico, foram apresentados mais dois milagres pela intercessão de Maria Goretti, que foram aprovados pela Congregação da Causa dos Santos no dia 11 de Dezembro de 1949. Os seguintes: Giuseppe Cupo foi curado de um terrível mal, já condenado pela medicina, em 8 de Maio de 1947; o segundo milagre por intercessão de Mariazinha aconteceu em favor de Anna Grossi Musumarra com uma abominável pleurite, no dia 11 de Maio de 1947. Assim, três anos após, no dia 24 de Junho de 1950, também o Papa Pio XII, CANONIZOU a jovem MARIA GORETTI, como sendo a Santa Agnes do século XX. A mãe Assunta estava presente a cerimônia, assim como quatro irmãos e irmãs que ainda estavam vivos. Uma multidão de aproximadamente 500 mil pessoas assistiu a belíssima celebração Eucarística da Canonização, realizada no pátio externo, defronte a Basílica de São Pedro no Vaticano.

Seu corpo é mantido numa cripta na Basílica de NOSSA SENHORA DAS GRAÇAS e de SANTA MARIA GORETTI, na cidade de Nettuno, na Itália.

 

DERRADEIRAS NOTÍCIAS

Alessandro Serenelli foi capturado logo após a morte de Mariazinha e conduzido a prisão. Foi julgado e condenado à prisão perpétua, mas como era menor (tinha 20 anos de idade), a sentença foi comutada para 30 anos de reclusão.

Segundo os hagiógrafos, dois fatores foram preponderantes para motivar e acelerar a "declaração de santidade" de Maria Goretti: primeiro, foi o "perdão concedido a Alessandro" há poucos minutos antes da sua morte no Hospital. Sem dúvida, este fato pesou na consciência do Alessandro, e assim, quando terminou o seu cárcere, decidiu entrar num Convento Capuchinho na Itália, para se penitenciar do gravíssimo pecado cometido, buscando a sua conversão trabalhando como jardineiro e porteiro do Convento, até o final da sua vida.

O segundo fator importantíssimo que confirmou a "santidade" de MARIA GORETTI, foi o seu propósito feito aos 11 anos de idade, no momento em que recebeu a Primeira Comunhão Eucarística: "Prefiro morrer do que cometer um pecado".

 

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