Xavier e seus companheiros chegaram a cidade de Kagoshima em Agosto de 1549. A família de Angero logo se tornou cristã. Todos os dias, quando Xavier tocava a sineta convocando o povo para rezar e conhecer a fé cristã, eles estavam lá, prontos para aprender e ajudar. Logo a fama do Santo se espalhou e o rei quis conhecê-lo. Todavia Paulo de Santa Fé se apresentou primeiro ao monarca, conduzindo uma imagem de Nossa Senhora e outra de CRISTO. O rei adorou as imagens e mandou que todos os presentes fizessem o mesmo. Entusiasmado com a nova religião, anunciou a elaboração de um decreto autorizando as pessoas que quisessem, tornarem-se cristãs. Entretanto com o passar dos dias, o rei esperava comerciar com os portugueses, mas ao observar que os barcos lusitanos não aportavam Kagoshima ficou aborrecido com Xavier, e incitado pelos bonzos, baixou decreto proibindo os seus súditos de se fazerem cristãos, sob pena de morte. Xavier para evitar confrontos, deixou Angero dirigindo a pequena comunidade formada e decidiu ir para outro local com seus companheiros. Dez anos mais tarde, o médico Dr. Luis de Almeida, que era Irmão Coadjutor da Companhia de JESUS, visitou esta pequena comunidade cristã de Kagoshima e ficou impressionado com o fervor espiritual dos cristãos. Xavier mudou-se para Hirado, ao norte de Nagasaki. O Governador da cidade acolheu bem os missionários, de modo que em poucas semanas ele e seus companheiros puderam fazer muito mais do que um ano em Kagoshima. O Santo deixou esta Comunidade Cristã a cargo de um Padre Jesuíta e viajou para Yamaguchi com o Irmão Fernandez e um japonês convertido.

Yamaguchi era uma cidade com aproximadamente cem mil casas na ilha de Hondo a 40 quilômetros da costa. As casas estavam construídas na ladeira da montanha entre pitorescos jardins. Havia também cem Mosteiros Budistas. Ao som do gongo, o povo compreendia que era o momento de se prostrar diante dos deuses que estavam em seus altares iluminados por lâmpadas de variadas cores e envoltos em fumo de incenso. Num dia do mês de Outubro de 1550 apareceram circulando pelas ruas dois desconhecidos: o Santo e o irmão Fernandez. De momento em momento faziam uma pequena parada, abriam um caderno e Xavier com uma pronúncia meio “carregada” lia em japonês: “Há um só DEUS verdadeiro, criador de tudo o que existe; este DEUS se fez homem e morreu para nos salvar; temos uma única alma, e existe um Céu e um Inferno...” As vezes lia o irmão Fernandez, que sabia um pouco mais de japonês. Muitas pessoas riam e se desviavam daquela peregrina pronunciação. Outras ficavam impressionadas pela insistência dos pregadores, a paciência com que sofriam os insultos e as pedradas dos meninos. E comentavam que aqueles dois homens vindo de terras tão distantes a pregar a sua doutrina, tinham que ser pessoas de muita estima.

Xavier e seu companheiro foram ao rei do lugar pedir permissão para pregar o Evangelho de JESUS CRISTO. O monarca estava curioso e interessado em conhecê-los, porque tinha ouvido várias referências sobre aqueles dois missionários. Xavier e Fernandez se ajoelharam diante do rei e fizeram uma grande reverência, como era o costume local. Com grande amabilidade, o rei perguntou a Xavier por sua doutrina. Com um olhar, Xavier pediu a Fernandez que lesse o caderno onde se encontrava a descrição da Criação, dos Mandamentos, do Juízo Final, do Céu e do Inferno. E aqui, com energia, Irmão Fernandez condenou a idolatria e o vício da carne (sexualidade), afirmando: “O homem que comete tais pecados é pior do que um cachorro, do que um porco...” O rei ficou enfurecido. Fernandez chegou a imaginar que ele ia mandar cortar-lhe a cabeça. Ao terminar a leitura, o rei levantou-se e sem dizer uma palavra, despediu os dois. Do lado de fora do palácio as pessoas os insultaram com palavras e gestos. Xavier não deu importância. Deixou que os ânimos se apaziguassem por si só. Como na verdade o rei não lhes havia proibido, continuou normalmente com a pregação. Dois meses depois decidiu ir a Meaco (hoje cidade de Kyoto), que era a capital do Império Japonês. Queria conseguir permissão para pregar o Evangelho em todo o Japão. Todavia antes de viajar, foi com seus companheiros Padre Torres e Irmão Fernandez à ilha Firando, onde estava um barco português. O senhor da ilha os recebeu muito bem e em poucos dias, conseguiu converter muitas pessoas. Depois de algumas semanas seguiram para Meaco. Era uma cidade com cerca de 90.000 casas, tinha uma Universidade e mais de 200 mosteiros budistas. Foi uma viagem muito cansativa, Xavier e seus companheiros percorreram mais de 400 quilômetros por mar e terra, suportando dias inteiros em jejum, escalando montanhas e vales, cortando rios e lagos gelados. Iam descalços por caminhos de gelo e neve, até sangrar os pés. Com as pernas inchadas e quase “mortos de fome”, chegaram a Meaco no mês de Fevereiro de 1551, mas a cidade estava dominada por um exército inimigo. O Japão do século XVI era um mosaico de reinos feudais em guerra uns contra os outros. O Imperador era uma figura decorativa, que não mandava nada. Xavier quis visitá-lo, mas lhe impediram vendo-o tão pobremente vestido. Por isso, observando o comportamento da monarquia, decidiu voltar a Yamaguchi. Agora Xavier já possuía mais experiência de vida, não iria se apresentar de qualquer jeito ao rei. Ele compreendeu que as autoridades japonesas só davam valor a quem se apresentasse vestido elegantemente. Por essa razão, para que ele fosse bem recebido e sua doutrina fosse apreciada, ele não podia se apresentar com a mesma pobreza que vivia, porque no Japão, a pobreza era um sério obstáculo para cativar o chefe japonês de cada feudo.

 

OUTRA VEZ EM YAMAGUCHI

 

Voltou com os companheiros para a ilha Firando onde guardava os presentes que tinha trazido da Índia para o Imperador do Japão. Decidiu oferecê-los ao rei de Yamaguchi. Com este propósito o Santo se vestiu ricamente com as roupas que os portugueses lhe deram e organizou uma solene cavalgada até a entrada do palácio. Ao chegar, como combinaram, os canhões dos navios portugueses ancorados no porto dispararam festivamente. O rei ficou admirado e recebeu Xavier com muita alegria, colocando-o sentado a seu lado. E mais surpreendido ficou o monarca, com a quantidade notável de presentes que recebeu. Quis retribuir, mas Xavier não aceitou. Somente pediu permissão para pregar a lei de DEUS. O rei não só autorizou como também lhe ofereceu um templo budista antigo, que poderia ser utilizado como centro de catequese.

Conseguindo a autorização oficial, o Santo começou a pregar pelas ruas e a discutir com os sacerdotes budistas, a quem sempre deixava “de boca aberta”, sem palavras. Mas era uma caminhada árdua e penosa. É como ele mesmo dizia: “Na Índia pescava almas com a rede; no Japão só conseguia pescá-las com anzol, isto porque, poucos se convertiam”. Mas nunca se esquecia do caráter deles: “El japonês se convertirá si el misionero practica lo que predica.”, (O japonês se converterá se o missionário praticar o que ele ensina).

Um dia Fernandez pregava na rua e lhe cuspiram no rosto. Ele limpou e continuou pregando. Um dos ouvintes raciocinou: "homens que sofrem tais coisas e não reagem, tem uma santa religião!" Foi encontrar-se com Xavier e pediu para ser instruído no cristianismo e ser batizado. Logo, outras pessoas seguiram o mesmo exemplo. Dia e noite, curiosos e pessoas que queriam solucionar as suas dúvidas, assediavam os missionários com perguntas. E assim, os missionários tornaram-se notícia presente em toda a cidade, o comentário era geral, sobre eles e sobre a lei de DEUS, primordialmente depois que o homem mais sábio da redondeza, abandonou o budismo e se converteu ao cristianismo, adorando o CRIADOR. Xavier pregava com êxito e batizava muita gente. Foram convertidas mais de duas mil pessoas, que procuravam com interesse conhecer o cristianismo e seguir os Mandamentos de DEUS. Entre eles se converteu também um conhecido jovem que cantava nas ruas tocando um bandolim. Ele ficou entusiasmado com Xavier, que lhe instruiu e batizou, dando-lhe o nome de Lorenzo. Ficou empregado junto a equipe do Santo como intérprete e Catequista. Lorenzo aplicou-se a fundo na doutrina cristã e tornou-se um irmão coadjutor jesuíta. Depois que Xavier retornou a Índia, ele evangelizou o seu país com um zelo devorador durante 30 anos. Os cristãos de Yamaguchi ficaram aos cuidados do Padre Cosme de Torres e do Irmão Fernandez, quando Xavier viajou para atender ao convite do rei de Bungô. Na cidade do rei o Santo já tinha fama e por isso, foi recebido triunfalmente. Na verdade o terreno estava propício e aconteceram milhares de conversões, mais de sete mil cristãos elevaram o seu coração a DEUS. Trezentos anos depois, apesar das perseguições políticas e religiosas que matou muita gente, os descendentes daqueles cristãos ainda mantinham viva a sua fé. Por tudo isso, embora tenha passado transtornos e dificuldades no Japão, Xavier dizia: “Não existe entre os infiéis nenhum povo mais bem dotado do que o japonês.”

 

DE VOLTA A GOA E MALACA

 

Xavier escreveu: “Os habitantes do Japão foram a melhor descoberta que aconteceu até agora nos meus planos.” Mesmo assim, alimentava o desejo de conhecer o povo da China. A caminho de Goa passou em Sanchoão, uma pequena ilha chinesa onde os portugueses comerciavam, e estava a 10 quilômetros do continente. Seguiu para Málaca. Lá encontrou diversas correspondências, sendo que uma era de Ignácio de Loyola que o nomeava Superior Provincial para toda a Índia.

Em fins de Janeiro de 1552 chegaram a Goa. Xavier organizou todos os assuntos e nomeou superiores para os diferentes cargos da Província. Em meados de Abril deste mesmo ano viajou novamente para Málaca.

 

O DEMÔNIO EM MÁLACA

 

Xavier planejou levar em sua companhia, o seu grande amigo Diego Pereira que era o comandante da nave Santa Cruz que estava a sua disposição, para entrar na China. Pereira iria como embaixador do rei de Portugal e ele iria como agregado da embaixada. Levariam muitos presentes para o Imperador Chinês a quem pediriam permissão para pregar o Evangelho em todo o Império. Acontece que Don Álvaro de Ataíde que estava em Málaca, ambicionava a posição que Xavier queria dar a Diego. Sendo ele Capitão do Mar, não concordou que Diego fosse como Embaixador para a China por duas razões: primeiro por direito por ser ele o chefe da frota naval portuguesa, e por isso, achava que devia ser o escolhido e segundo, porque era inimigo pessoal de Diego Pereira. Por essa razão, assim que Xavier chegou, deu ordem a seus funcionários de tomarem o timão da nave Santa Cruz que estava com Pereira. Isto representava apoderar-se do navio de Diego. Em vão Xavier usou de todos os argumentos para que Ataíde desistisse de seus propósitos. Mas ele manteve-se irredutível, até que por fim, concordou em deixar zarpar a nave, mas sem Pereira. Desse modo, não tendo outra alternativa, penalizado por não poder levar o seu grande amigo, no dia 18 de Julho de 1552 Xavier seguiu sozinho para a nova missão.

No dia 28 de Julho chegou a Baía de Singapura de onde escreveu as suas últimas cartas: a Dom João III, a Diego Pereira, ao Vice-Rei das Índias, ao Padre Gaspar Barzéu e a um pobre e analfabeto neófito japonês de nome João.

 

NA ILHA DE SANCHOÃO

 

Em princípio de Setembro de 1552 desembarcou na Ilha. Pela sua proximidade com a cidade de Cantão na China e pela disposição do porto que abrigava convenientemente as embarcações, era um local ideal para os portugueses fazerem comércio com os contrabandistas chineses. Entretanto estava proibido sob pena de morte, qualquer embarcação aproximar ou entrar na China, sem uma prévia autorização. Aqueles navios que tentassem, seriam presos, os tripulantes perderiam as mercadorias e o navio, e as pessoas eram trancafiadas em terríveis calabouços.

Ao chegar em Sanchoão, Xavier foi recebido com entusiasmo pelo pequeno grupo de portugueses que lá residiam e colocaram as casas a sua disposição. Mas o Santo não aceitou, foi morar numa pequena cabana coberta com palha, que cederam para ele e seus companheiros. Também utilizava a cabana para confessar as pessoas e celebrar Missas. Um chinês se ofereceu em troca de 20 quilos de pimenta, levar Xavier e seus companheiros à noite até Cantão. O plano incluiria a hospedagem na casa do chinês durante alguns dias para não despertar suspeitas e logo, numa noite, ele os deixaria na cidade de Cantão. Mas a noticia espalhou. Os amigos e companheiros de Xavier quando souberam daquele projeto, ficaram com medo do que poderia ocorrer e desapareceram. Só permaneceu Antônio e Cristóvão, o malavar. Os mercadores portugueses ao conhecerem as notícias, quiseram regressar a Málaca, porque ficaram com medo dos chineses prenderem Xavier e depois decidirem persegui-los também. Por isso pediram que o Santo não entrasse na China antes deles zarparem. Na enseada de Sanchoão só ficou um junco e o navio Santa Cruz que estava a disposição do Santo. Os dias passavam e o chinês não aparecia para levar Xavier. A situação se agravou porque a ilha ficou quase deserta e assim, ele ficou impossibilitado de continuar o seu apostolado. Vivia naquela pobríssima cabana em companhia de seu fiel amigo Antônio de Santa Fé, que trazia alimentos e água da tripulação do navio Santa Cruz, porque de outro modo eles morreriam de fome. Um vento gelado varria diariamente a ilha. Mal alimentado e sem agasalho o Santo contraiu uma forte pneumonia. Sua vida começou a se apagar.

 

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