SUA OBRA E SUA CARIDADE

 

A DUPLA ORFANDADE

Ainda atravessando a fase mais difícil de sua existência, a obra do Recolhimento da Luz sofreu um forte impacto emocional, com a prematura morte da sua co-fundadora Madre Helena Maria. Realmente foi um fato muito triste que Frei Galvão relatou assim: “Um ano e vinte dias esteve à fundadora na nova casa, e foi DEUS que, servido por seus altos juízos a levou para SI, querendo que ela somente se dispusesse do seu Divino beneplácito para tão grande obra, para logo depois lhe dar o prêmio dos seus trabalhos e virtudes, tirando-a deste vale de misérias para o eterno descanso. Faleceu no dia 23 de Fevereiro de 1775 e está sepultada na Capela-mor da mesma Igreja. Dizem que ela tem feito muitos prodígios, e eu sou testemunha de vários, porém, especialmente de um com notável admiração”.

Logo após a morte da Madre, o senhor Bispo mandou que se nomeassem três Irmãs, cada uma para as funções: Regente, Porteira e Mestra das Noviças, o que se realizou no dia 3 de Março, Festa das Sagradas Chagas de NOSSO SENHOR JESUS CRISTO. E assim, a Comunidade seguiu os seus trabalhos, orações e compromissos de cada dia.

A segunda orfandade aconteceu em Junho de 1775, no mesmo ano da morte da Madre Helena, pois nesta época terminou o governo do estimado Dom Luis Antonio de Souza. No dia 14 tomou posse o novo Governador Martim Lopes Lobo de Saldanha. O novo Governador cheio de vaidade e querendo mostrar serviço, entrou por um caminho odioso, abrindo um mesquinho e calunioso processo contra o seu antecessor enviando uma “mentirosa denúncia” ao Vice-Rei Marquês do Lavradio, que residia no Rio de Janeiro, acusando Dom Luis de desvios e desmandos, favorecendo de modo espantoso e ilegal as obras do Recolhimento da Luz. E logo a seguir, com apenas quinze (15) dias no governo, exatamente no dia 29 de Junho, Festa de São Pedro e São Paulo, expediu ordem para o senhor Bispo fechar o pequeno Mosteiro. A perplexidade dos religiosos foi geral e intensa, acompanhada de um abominável sofrimento interior e terrível angústia, vendo desmoronar impiedosamente um ideal sagrado. O senhor Bispo chamou Frei Galvão e lhe transmitiu a ordem. Aquele era um dia festivo em honra dos Apóstolos do SENHOR, dia de Santa Missa e Comunhão. As Irmãs e o povo esperavam na Igreja vendo as horas se escoarem rapidamente e Frei Galvão não aparecia para a celebração. Ele chegou bastante atrasado e muito sério. Iniciou imediatamente a Santa Missa, distribuiu a Sagrada Comunhão e consumiu as partículas que sobraram. Mandou apagar a lâmpada vermelha do Santíssimo e avisou ao povo que não adorassem o SENHOR no Sacrário, porque JESUS não estava lá. A seguir mandou as Irmãs para o refeitório e depois do jantar, se reuniu com elas na Portaria, e então, deu a triste notícia de fechamento do Mosteiro. As Irmãs mal puderam rezar, não só pelo susto, como afogadas em caudalosas lágrimas. Nosso Santo deu-lhes a notícia, de que o Senhor Bispo ordenou que elas avisassem aos seus pais para virem buscá-las e levá-las para casa, pois dentro de um mês as portas do Convento serão fechadas.

Foi um momento crítico e cruel de tanta tristeza, quando o punhal da dor rasgou dramaticamente todos os sentimentos e aqueles puros corações. Frei Galvão procurou consolá-las, e depois, silenciosamente se retirou. Não falou com ninguém e nem se queixou de nada. Nem a Irmã que narrou o acontecimento e nem os escritos antigos do Convento descrevem qualquer tipo de reação do Frei Galvão. Apenas está registrado que a ordem de fechamento veio do senhor Bispo, provavelmente porque julgava difícil manter o Recolhimento, que não tinha nenhum patrimônio ou renda, e nem a aprovação do Governador. E desta forma, como terceira orfandade, o Recolhimento também ficou órfão de seu pai, o grande Frei Galvão.

O ex-governador Dom Luis, que ainda se encontrava em São Paulo, soube e acompanhou todos aqueles tristes acontecimentos, mas não tinha autoridade para interferir e nada podia fazer. Triste e desapontado com o procedimento do novo Governador, deixou a cidade e retornou a Portugal, sem se despedir dele.

FELIZ REENCONTRO

Todavia, aquele Recolhimento não poderia acabar assim melancolicamente, daquele modo tão grosseiro e desastroso. Afinal, era uma obra solicitada por JESUS, como poderia ser abandonada? Assim também pensaram as Irmãzinhas que haviam convivido com a falecida co-fundadora Irmã Helena, e resolveram, heroicamente, permanecerem no Convento, tendo-se afastado apenas três companheiras. Exteriormente o Convento permaneceu hermeticamente fechado, elas obedeceram rigorosamente à ordem, mas interiormente a Providência Divina velava e agia. DEUS que sempre manifestou o seu ardente e profundo Amor a aqueles que O servem com constância, sustentou as Irmãs com Sua Graça, inclusive, dispensando-lhes alguns preciosos milagres. Passavam fome e sede, sem dúvida, mas eram sempre socorridas pelo SENHOR. E estas pesadas dificuldades permaneceram durante um longo mês.

Um exemplo da ajuda Divina. Estava o tempo muito seco por vários dias e por isso, faltou água. Como a época era extremamente seca e penosa para as Irmãs, decidiram implorar a clemência do SENHOR, reunindo-se no coro da Capela e rezando fervorosamente. Era um dia claro, sem nuvens e com o céu completamente azul. Imediatamente surgiram nuvens que cobriu toda a região, começou a trovejar e despencou um aguaceiro, suficiente para encher todas as talhas, depósitos e demais vasilhas que havia na casa, e logo a seguir, a chuva cessou e as nuvens foram dissipadas.

E como este, muitos outros acontecimentos importantes, que luminosamente mostravam o carinho e a proteção Divina, principalmente durante aquele um mês e poucos dias. Este foi o tempo suficiente para que o vagaroso Correio pedestre trouxesse do Rio de Janeiro a resposta do Vice-Rei, Marquês do Lavradio ao relatório que lhe foi enviado pelo novo Governador da Capitania de São Paulo, Senhor Martim Lopes Lobo de Saldanha.

Grande foi a decepção para o novo Governador do Estado, orgulhoso pelo seu “grande feito” (de ter mandado fechar o Convento)! Longe de concordar com suas intrigas o Vice-Rei repudiou aquele gesto rude e cruel do Governador contra pobres e indefesas Irmãs, censurando-o categoricamente, mandando que fosse reaberto o Convento.

O senhor Bispo foi chamado pelo novo Governador do Estado que o autorizou a reabrir o Convento. Imediatamente o prelado convocou Frei Galvão, que como é natural, ficou muito feliz com o desfecho do acontecido, mas na verdade, ele não ignorava que um grupo de Irmãs tinha ficado no Mosteiro, cumprindo um corajoso desejo de manter vivo o ideal da Comunidade, e, sobretudo, de atender ao pedido de JESUS. Apressadamente rumou para lá, e ansioso bateu na porta que permanecia trancada. As Irmãzinhas ficaram assustadas, estavam com medo de abrir, podia ser alguma outra notícia ruim! Mas logo o temor se transformou em surpresa e alegria, ao ouvir a voz do servo de DEUS, chamando: “Irmã Conceição, Irmã Gertrudes, Irmã Teresa, estão ai? É Frei Galvão, não tenham medo”! Elas correram do modo que lhes permitiam a fraqueza física, e abrindo a porta exclamaram: “Senhor Padre”! E chorando, prostraram-se de joelhos diante dele.

A partir de então, empolgados com os acontecimentos e abrasados pelo Amor de DEUS, empreenderam a construção do imponente e humilde Mosteiro da Luz, dedicado a IMACULADA CONCEIÇÃO DE MARIA. Esta obra testemunha a genialidade e a invejável fibra do Frade Menor: ele foi o idealizador, o desenhista, planejador, arquiteto, administrador zeloso, pedreiro, carpinteiro e servente, que, sobretudo, saía a pé pregando pelas cidades vizinhas e arrecadando fundos, pedras, madeiras, todas as espécies de materiais e escravos para a construção. Foram quase cinquenta (50) anos de trabalho intenso e dedicado.

AS DIFICULDADES DO CONVENTO

A Lei Pombal aumentou as dificuldades, porque ela impedia a construção e abertura de novos Conventos e Mosteiros, e condenava a morte aqueles existentes. E assim, também por esta razão, o Governo do Estado, apesar do “puxão de orelha” dado pelo Vice-Rei, procurava colocar obstáculos às obras do Mosteiro, não concordando com as obras de ampliação ou do novo Mosteiro da Luz.

Então foi necessária uma união de esforços, buscando não ferir o interesse e a ordem da Coroa Portuguesa. Assim, com muito jeito, foram conseguindo a necessária autorização, apresentando argumentos que contornavam a dificuldade. Então disseram: era um Recolhimento de mulheres desejosas de solidão, para se aprofundarem na oração e na penitência, sem o compromisso de fazerem os Votos Perpétuos. Estes argumentos eram apresentados para as autoridades do Governo, mostrando deste modo, que o Recolhimento da Luz não estava desrespeitando a Lei do Marquês de Pombal.

Mas evidentemente, aqui cabe esclarecer, que a Ordem Religiosa fundada por Frei Galvão, somente era fictícia no papel, para satisfazer as autoridades do Governo, porque na realidade, desde o inicio, como vimos acima, as Irmãs cumpriam uma rigorosa e austera disciplina, dedicando-se intensamente ao trabalho e as orações. Quanto à modalidade de vida, ou seja, a espiritualidade escolhida foi a Regra da Ordem Concepcionista, fundada em 1484, em Toledo, na Espanha, pela portuguesa Santa Beatriz da Silva. Hoje, a Ordem Religiosa está juridicamente associada à Primeira Ordem de São Francisco, com presença marcante no Brasil e no mundo.

Por outro lado, enquanto Frei Galvão empenhava a sua alma naquela luta, ele via recrudescer a perseguição à Igreja, com o fechamento de Conventos e vendo em agonia a sua própria Província Franciscana da Conceição. Mas heroicamente continuava lutando para manter o seu Mosteiro, ensejando as Irmãs a cumprirem a missão que o SENHOR havia determinado, e para a sua própria alegria pessoal pela concretização do ideal projetado.

Na construção do prédio, por um natural senso pedagógico, Frei Galvão não quis mais do que entre vinte (20) a trinta (30) religiosas ocupando o prédio. Por isso, construiu o necessário para esta utilização, com esta capacidade, e não mais. Todavia, ao longo dos anos, com o aumento das vocações, posteriormente foi edificada a ala Prates, construída pelo Conde Eduardo Prates, grande devoto de Frei Galvão e notável benfeitor do Mosteiro da Luz.

AS IRMÃS

Frei Galvão tomou a Bíblia como fonte de inspiração para formar e instruir as Irmãs, ele mesmo, que praticava como poucos a Regra de São Francisco de Assis, que estimula, sobretudo, os franciscanos a viverem, se amando e se servindo mutuamente como irmãos, numa verdadeira fraternidade eminentemente pobre, servidora, obediente, na alegria da Paz do SENHOR. Assim, Frei Galvão atuava como autêntico mestre daquele ideal de vida religiosa sonhado pelas Irmãs.

Os frutos nos revelam a pureza e a força da árvore. A história do Mosteiro da Luz está aberta para quem quiser conferir. Basta lembrar que os contemporâneos o apelidaram de “viveiro de Santas”, em face da quantidade notável de espíritos dedicados, fieis e verdadeiramente santos que se formaram e habitaram aquela casa.

Depois da morte de Frei Galvão, a Providência Divina atuou e o Mosteiro galhardamente foi atravessando os anos, prestando benefícios incontáveis a Comunidade Cristã. O sucessor escolhido pelo Bispo foi o capelão Frei Lucas José da Purificação, franciscano trabalhador e minuciosamente responsável em todas as obrigações e serviços na Comunidade Religiosa.

Cento e cinquenta e cinco (155) anos mais tarde, a esclarecida e virtuosíssima Madre Oliva Maria de Jesus, apoiada pelo senhor Arcebispo Dom Duarte Leopoldo e Silva agilizou providências e conseguiu incorporar o Convento à Ordem Concepcionista. Deste modo elevou-o de simples Recolhimento a Mosteiro Pontifício, com votos solenes e observância da Regra própria da Ordem, a que anteriormente pertenciam por “devoção e determinação” do Bispo Dom Manuel da Ressurreição.

A CONSTRUÇÃO DO NOVO MOSTEIRO  (O MOSTEIRO DA LUZ)

Frei Galvão realizou a obra com dois objetivos: provendo-a de higiene e solidez. Quanto ao primeiro, considerando a vida enclausurada das Irmãs, desejava que elas vivessem enclausuradas sim, mas oprimidas não. Quis proporcionar-lhes o necessário espaço, com ar e luz. E quanto à solidez, desejou fazer uma construção definitiva a fim de não deixar preocupações para o futuro, como por exemplo: obras de acabamento, a fim de não incomodar as religiosas na clausura.

Como não tinha renda e nem doações vultosas para as obras, Frei Galvão e as Irmãs recebiam as esmolas e a boa vontade dos cristãos. Por essa razão, ele teve que sair, visitando cidades, pregando em Igrejas, visitando casas de pessoas de posse, pregando o evangelho, ensinando a Lei do Amor Divino, conseguindo recursos financeiros, materiais e doações preciosas para a sua obra.

Por vezes, era tão numeroso o auditório, que sendo pequeno o recinto da Igreja, pregava ao ar livre, como aconteceu em São Luiz do Paraitinga.

Com quatorze anos de intenso trabalho, uma parte do prédio se mostrava em condições de alojar as recolhidas, passando do velho conventinho para a nova casa no dia 25 de Março de 1788, Festa da Anunciação de NOSSA SENHORA.

Muito longe, porém, estava o final da obra que durou nada menos do que 48 anos, pois quando Frei Galvão morreu em 1822, faltava terminar a torre.

REGULAMENTO E ORGANIZAÇÃO

Estando as Irmãs alojadas com maior comodidade, o seu Santo fundador deu-lhes os primeiros estatutos ou regulamentos para a vida religiosa, por ele mesmo elaborado. Em linguagem simples e concisa, traçou-lhes diretivas de grande sabedoria e prudência, e nelas revela o seu espírito altamente psicológico: com energia, firmeza, sábia e caridosa condescendência com a fragilidade humana, conseguiu assegurar a vitalidade espiritual de seu Convento.

Estes estatutos foram aprovados por Dom Mateus de Abreu Pereira, e observados até 1880. Em 1865, o Bispo Dom Antonio Joaquim de Melo, acrescentou algumas novas determinações, exigidas pelas condições da Comunidade.

A Comunidade foi sempre numerosa e florescente, apesar de todas as dificuldades e vicissitudes que passou. Finalmente em 1929, com o apoio do Arcebispo Dom Duarte Leopoldo e Silva intercedendo junto a Santa Sé, conseguiu Madre Oliva Maria de Jesus, a incorporação do Convento à Ordem Concepcionista, completando deste modo a obra de Frei Galvão e a idéia do Bispo Dom Manuel da Ressurreição.

O Mosteiro da Luz foi registrado e tombado pelo Departamento do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, no dia 16 de Agosto de 1943. Em consequência, ficou sob a fiscalização do mencionado departamento, de modo que sua integridade se acha perpetuamente assegurada.

PRISIONEIRO DA CARIDADE

Dos três primeiros ofícios que Frei Galvão recebeu logo após a conclusão de seus estudos: de Pregador, Confessor e Porteiro, por volta de 1776 teve que deixar o de Porteiro, porque não podia permanecer parado na Portaria, era uma condição incompatível com a realização de todos os outros importantes trabalhos, porque ele viajava com frequência e, sobretudo, estava sempre orientando e ajudando na construção do Recolhimento.

Isto, além de ser o Diretor do Recolhimento da Luz, e também ser Comissário da Ordem Terceira em São Paulo, onde realizou um notável trabalho. Outro honroso ofício que Frei Galvão recebeu de seus superiores, foi o de Visitador, delegado pelo Ministro Provincial, que era um encargo difícil e delicado, o que testemunha o elevado índice de consideração e confiança que gozava em sua Ordem.

Em 1780 o novo Governador de São Paulo Martim Lopes, exorbitando a sua autoridade, condenou a morte de forca o soldado Caetano José da Costa, vulgo Caetaninho, pelo “crime” de ter ferido levemente o seu filho, esbofeteando-o, estando os dois, o filho e Caetaninho totalmente embriagados. Foi uma discussão vulgar e briga de bêbados. Embora havendo grande resistência da Câmara Municipal, do Bispo Dom Frei Manuel da Ressurreição, de particulares e eclesiásticos, inclusive do próprio Frei Galvão, apesar de todos os protestos, o Governador não cedeu, e o pobre Caetaninho foi executado.

No tempo colonial também era comum aplicar a pena de degredo. Uma pessoa criticada, ou que tivesse aprontado algo, ou que caísse na antipatia das autoridades, ou fosse condenada por alguma infração, era degredada, isto é, era mandada para outro lugar, outro Estado ou cidade.

Isto aconteceu com Frei Galvão, sua culpa foi ter tomado o partido dos fracos, no caso presente, ter manifestado a favor do Caetaninho. O Governador que já não simpatizava com ele, quis descarregar no religioso sua raiva, como se Frei Galvão fosse o culpado pelo desapontamento e revolta da cidade inteira contra o gesto arbitrário e covarde da autoridade maior da Capitania. E a sentença do Governador contra Frei Galvão foi fulminante: deixar São Paulo em 24 horas.

Recebendo a ordem do Governador, obediente e honesto, imediatamente começou a fazer os preparativos para viajar. A ordem é injusta e covarde , dizem-lhe os monges beneditinos. Ele responde: Sou franciscano e vou obedecendo. E as Irmãs? Irá abandoná-las? Deixará a obra de DEUS incompleta? Com a fisionomia triste e séria, ele continuava movimentando os seus preparativos para a viagem. Nada era capaz de detê-lo.

Obediência cega! Seu espírito estava nas mãos de DEUS e embora com o coração sangrando, iniciou a caminhada para o seu desterro. Provavelmente estivesse pensando: "Se o SENHOR está permitindo, é porque ELE conhece as razões e sabe o que é melhor".

Já havia alcançado o Bairro do Braz quando interiormente sentiu que devia escrever algumas linhas as Irmãs. Entrou numa casa, pediu papel e tinta e escreveu:

“Madre Regente e todas as Irmãs do Recolhimento da Conceição:
Ao SENHOR DEUS em quem só devemos esperar. Tenham paciência, filhas, agora é a ocasião de Vossas Caridades terem sofrimento. Tenham animo pelo amor de DEUS. Tenham paciência pelo amor de DEUS. Vivam unidas. Vivam unidas. Vivam unidas. Guardem a glória de NOSSO SENHOR vivendo na sua providência esperando somente NELE. Filhas vivam unidas, vivam unidas”...

(O bilhete tem diversas outras frases de despedida)

Pediu ao dono da casa que mandasse um escravo de confiança, levar o bilhete ao Convento da Luz.

Nesse meio tempo, a notícia de seu desterro se propagou velozmente pela cidade e, todos se estremeceram com aquela novidade assustadora. Diziam: “Vamos perder o nosso Santo”?

Em pouco tempo, homens embuçados, seguidos de robustos escravos armados cercaram a residência do Governador. Formou-se logo uma multidão exigindo que ele revogasse a sentença do desterro de Frei Galvão. Já era noite e exposto a aquele povo ameaçador, não teve outro remédio senão capitular. Com grande má vontade revogou a perversa sentença: “Que o Frade fique na cidade”!

Rapidamente foram atrás do Santo e o trouxeram de volta. A notícia se espalhou e encontrou as Irmãs chorando e rezando diante do Sacrário, suplicando a misericórdia de DEUS. Elas já tinham recebido a carta que Frei Galvão lhes escrevera. Agora, com o coração cheio de alegria, permaneceram rezando, agradecendo a NOSSO SENHOR.

No mesmo ano, por ordem da Rainha de Portugal, D. Maria I, o Governador Martim Lopes foi exonerado e veio outro Governador para administrar a Capitania de São Paulo.

Neste mesmo ano de 1781, surgiu novo perigo que ameaçou a Capitania de São Paulo de perder o seu Santo Frei Galvão. Ele foi nomeado pelos seus superiores Vigário e Mestre dos Noviços do Convento de Macacu, perto do Rio de Janeiro, aonde ele mesmo, fizera o seu Noviciado. Mas o Bispo da Capitania de São Paulo, Dom Frei Manuel da Ressurreição, não deixou, usando de todas as suas prerrogativas, conforme a lei eclesiástica.

Como se vê, não somente o povo apreciava Frei Galvão, mas também as autoridades religiosas e civis. Sem dúvida, parece que estava nos desígnios de DEUS a permanência de seu Servo em São Paulo, onde sua presença era muito mais útil do que em Macacu.

O fato de não ter podido cumprir a ordem de ir para Macacu, não impediu, todavia, que seus superiores reconhecendo as suas reais virtudes lhe concedessem em 1796 o privilégio de uma Presidência e Guardiania, ou seja, ser Superior de um Convento. E isto aconteceu de fato dois anos depois, em 1798, quando foi eleito Guardião do Convento de São Francisco em São Paulo, onde residia.

Agora, quem ficou assustada foram as Irmãs do Convento da Luz, pois entenderam que pelas obrigações do novo cargo, Frei Galvão já não poderia atendê-las mais, e então, seria substituído por outro sacerdote na Direção do Recolhimento. Isto elas não queriam. Por isso, ficaram desorientadas, pensando em dificuldades de todas as espécies, considerando que ele não era só o Superior do Mosteiro da Luz, mas também o Mestre e o Ecônomo, afastando as Irmãs de toda a comunicação com o exterior. Por outro lado, sendo ele Superior dos Franciscanos teria que viajar para o Rio de Janeiro e participar do Capítulo da Ordem, permanecendo lá, muitos meses. E elas, as Irmãs, iam ficar sozinhas?

Então, as Irmãs aproveitando as boas graças que gozavam junto a Câmara Municipal e com o novo Bispo da Capitania Dom Mateus de Abreu Pereira, que substituiu Frei Manuel da Ressurreição, suplicou-lhes que enviassem carta ao Provincial dos Franciscanos para não tirar Frei Galvão da Direção do Mosteiro da Luz.

O Bispo e a Câmara atenderam as Irmãs e enviaram preciosas missivas ao Provincial Franciscano. Duas cartas que evidenciavam todo o valor, a dignidade e admirável capacidade administrativa do Santo, mostrando o quanto ele era útil as Irmãs e a própria obra do Recolhimento.

Se a dificuldade residia na permanência de Frei Galvão em São Paulo e na Direção do Convento da Luz, a tudo concordou o Ministro Provincial Franciscano Frei Joaquim de Jesus e Maria, sem, contudo exonerá-lo da Guardiania, ou seja, dele ser também o Superior do Convento Franciscano em São Paulo. Assim, ficaram todos contentes, e o nosso Santo com mais um cargo, sobrecarregado de dificuldades e responsabilidades. Ficou superior de dois Conventos, um de Frades e outro de Freiras. Era uma missão extremamente penosa, porque além de lhe consumir integralmente os seus dias, provavelmente não sobrariam horas para realizar todo o trabalho nos dois Conventos.

Aproximando-se o Capítulo Provincial no dia 28 de Setembro de 1799, Frei Galvão seguiu, na qualidade de capitular, para o Rio de Janeiro, donde voltou exonerado do ofício de Guardião (porque realmente não era possível ser Diretor de dois Conventos, além dos seus inúmeros afazeres). Foi substituído por Frei Miguel de Jesus Maria Carneiro. Outra vez em 28 de Março de 1801 teve os votos para Guardião e novamente teve que viajar até o Rio de Janeiro para votar no Capítulo de 2 de Outubro de 1802. Pelas mesmas razões foi exonerado.

Em todas as viagens, sempre fazia a pé, celebrando a Santa Missa e pregando nas cidades e vilas por onde passava, a pedido dos respectivos párocos locais. E como é lógico, tinha de passar por Guaratinguetá, sua terra natal, que está bem ao lado da estrada que liga São Paulo ao Rio de Janeiro. E com que entusiasmo e amizade os seus familiares, parentes e amigos e o povo em geral o recebiam! E isto, a humildade dele o deixava “sem jeito” e pouco tranquilo, por isso resolveu fugir deles, ultimamente passava por Guaratinguetá, mas não entrava na cidade. Quando sabiam que ele estava pela redondeza e o procuravam, não o encontravam mais, porque Frei Galvão já estava longe. Assim, fugia das honras e glórias do mundo, considerando-as como nada, totalmente supérfluas.

O Santo ainda exerceu outros cargos importantes na sua Congregação, além dos dois períodos mencionados de Guardiania: foi eleito Definidor, isto é, Conselheiro do Ministro Provincial em 9 de Abril de 1802. Em 10 de Outubro de 1804 o encontramos no Convento Santa Clara, em Taubaté, como Visitador Delegado pelo Provincial, e no dia 29 do mesmo mês, em Itu, cumprindo igual ofício no Convento de São Luis de Tolosa. Em 1807, foi constituído Visitador Geral e Presidente do Capítulo, porém não lhe foi possível desempenhar este cargo, já estava com 69 para 70 anos de idade. Dizem os documentos que renunciou a este ofício por motivo de falta de saúde.

 

 

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